Euler de França Belém
Euler de França Belém

Pra obter audiência, mídia produz emoções ao “repetir” história do adolescente que matou colegas

 Jornalismo excessivo e repetitivo nada tem acrescentado sobre violência em Goiânia

Igor Morski

Na semana passada, dei-me o trabalho, como jornalista e cidadão, de ler e ver reportagens de jornais (mais) e televisão (menos) a respeito do adolescente de 14 anos que matou dois colegas e feriu vários outros, na Colégio Goyases, em Goiânia. Apesar das declarações “novas” de familiares, “exploradas” com avidez por repórteres, eventualmente histéricos, não há fatos significativos que mudem o quadro básico da história. Na realidade, os meios de comunicação estão chovendo no molhado, destacando o fato porque ainda rede audiência — até o cansaço coletivo.

Como jornalista, sei que não há, no momento, como escapar de divulgar e mastigar o fato, como se fosse “feno”. Afinal, um jornal “puxa” o outro, o que acaba produzindo reportagens similares, com enfoques às vezes de uma pobreza franciscana. Porém, se não há como não ir atrás dos fatos, ditos “novos” — como a saída de um adolescente do hospital e a história tristíssima da jovem que ficou paraplégica (os jornais dramatizam o fato, quiçá para produzir sensações nos leitores e telespectadores) —, é possível discuti-los de uma maneira menos trivial e sensacionalista. Os repórteres apontados como investigativos — e, no Brasil, jornalismo investigativo parece se resumir à publicação de histórias passadas por policiais e promotores de justiça — deveriam, se quiserem ir além da busca de audiência avassaladora da maneira mais prosaica possível, abrir novas picadas na cobertura. Ao não conseguir se distanciar do fato, porque está muito próximo, o que os torna propensos à histeria coletiva, os repórteres não conseguem avaliá-lo de maneira ampla. Navegam, pois, ao sabor das declarações circunstanciais, por vezes passionais. Julgar é uma faculdade da qual o ser humano, ensinou-nos Hannah Arendt, jamais deve abdicar (a frase “não julgue para não ser julgado” é uma tolice rematada). Mas o julgamento exige equilíbrio e cobra informação de primeira linha para estribá-lo. Contribuir para a execração da família do menino que matou e feriu colegas é, afinal, útil a quê e a quem? Ao bom jornalismo não é.

Pela crueza da imagem, não é pertinente sugerir que, enquanto não arrancarem toda a carne do osso da tragédia, alguns repórteres vão continuar publicando a mesma história, com a suposição de que estão acrescentando fatos novos, esclarecendo o que aconteceu. Na verdade, não se busca tanto iluminação, que exige mais tempo, quanto se busca audiência. Hoje, com o Google Analytics — cada vez mais usado do que o Ibope e o IVC —, sabe-se com precisão o que dá audiência. O assassinato duplo, além da história dramática dos que sobreviveram — e serão ouvidos durante algum tempo, até serem esquecidos —, ainda está rendendo audiência, visualizações.

Quando a audiência esgotar, quando as famílias dos vivos e dos mortos não forem mais interessantes, serão olvidadas olimpicamente. Alguém ainda se lembra que, em agosto deste ano, há poucos mais de dois meses, um garoto de 13 matou uma menina de 14 anos, Tamires Paula de Almeida, dentro do edifício onde moravam, em Goiânia? É provável que jornalistas não tenham se esquecido do fato, mas ele deixou de ser instigante. Tamires e o adolescente que a matou se tornaram estatísticas. A dor da jovem Maria Paula Almeida, mãe de Tamires, se tornou tão-somente a dor de Maria Paula. As pessoas seguem rumo ao próximo crime, para se tornarem carpideiras das tragédias alheias, sobre as quais alguns, sem pudor, tiram vários tipos de proveito, inclusive psíquicos e políticos.

Se os jornalistas querem produzir uma série de reportagens com sobriedade, com o objetivo mais de entender o que está ocorrendo na sociedade brasileira (quiçá mundial), deveriam investigar, de maneira cuidadosa, digamos de cinco a dez assassinatos cometidos por menores, nos últimos anos, em Goiânia (ou no Estado). Os repórteres deveriam verificar as motivações, tentar definir (ou não) padrões e, com o apoio de sociólogos, antropólogos, psiquiatras, assistentes sociais, psicólogos, promotores, economistas e estatísticos (especialistas em econometria, por exemplo), retirar conclusões sobre as motivações dos crimes. Talvez seja muito mais útil do que produzir emoções a granel com o objetivo mais de obter audiência do que de iluminar um problema real da sociedade. É provável que, ao final da pesquisa — que dá trabalho, e por isso o jornalismo em geral a evita —, não se chegue a respostas precisas, o que é natural. Mas respostas aproximadas, apontadas de maneira nuançada, possibilitarão, quem sabe, um debate mais rico e, de fato, humanista.

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Kátia sisne

Melhor matéria que li até hj sobre essa mídia de lixo que existe em aqui em Goiania,manipuladores e gananciosos se preocupando sempre e somente no Ibope.
Não respeitam as Famílias