Euler de França Belém
Euler de França Belém

Povão e liberais entregaram a Revolução Russa de mão-beijada para os bolcheviques

Kerensky teve a chance de derrotar os bolcheviques, mas, sob pressão dos mencheviques, decidiu recuar e a revolução caiu no colo de Lênin

O brasileiro Marcel Novaes é autor de uma das melhores sínteses factuais e interpretativas sobre as revoluções russas — não apenas sobre a Revolução Russa de outubro de 1917; a pesquisa e a escritura são de rara excelência | Foto: Divulgação

Há vários livros sobre a Revolução Russa de 1917, que completou 100 anos em outubro. “Do Czarismo ao Comunismo — As Revolu­ções Russas do Início do Século XX” (Três Estrelas, 279 páginas), do professor brasileiro Marcel Novaes, é uma excelente síntese factual e interpretativa.

O livro de Marcel Novaes nota, de cara, que é preciso falar em revoluções russas, e não apenas numa revolução russa, a de outubro de 1917. Não só. Registra, de maneira precisa, que a primeira revolução, a de fevereiro de 1917, não foi conduzida pelos bolcheviques, e sim por políticos, como Aleksandr Feodorovitch Kerensky (morreu em Nova York, em junho de 1970), que poderiam ter conduzido a Rússia pelo caminho democrático. Pode-se dizer, até, que os democratas derrubaram o czarismo e possibilitaram a ascensão dos comunistas. Em outubro, a esquerda foi praticamente empurrada para a revolução pelos operários, soldados e camponeses em revolta. Aí surgiu o líder que soube galvanizar o movimento das massas — transformando-o numa revolução. Trata-se de Vladimir Ilitch Ulianov, Lênin (pseudônimo de quando começou a escrever no jornal “Iskra”, “Faísca”). Muitos esquerdistas acreditavam que, antes da etapa comunista, era necessária a etapa burguesa. Lênin postou-se contra, com o apoio de alguns aliados, como Liev Trotski, que se tornou bolchevique apenas em 1917, e postulou que era possível suprimir a revolução burguesa e trafegar, de imediato, para a via socialista.

Tibieza dos Romanov
Os Romanov permaneceram no poder por 300 anos e foram, segundo o historiador britânico Simon Sebag Montefiore, os “mais espetacularmente exitosos criadores de império desde os mongóis”. Em 1861, o czar Alexandre II mexeu numa das estruturas da Rússia. Mostrando presciência, disse: “É melhor abolir a servidão desde cima do que esperar a hora em que ela comece a ser abolida desde baixo”.

Antes dos operários, os camponeses, antigos servos, foram os primeiros revoltosos da Rússia (eram 80% da população). Talvez por isso fossem idolatrados por alguns escritores russos, como Liev Tolstói. Mas a Rússia não era tão atrasada quanto se pensa. Em 1914, quando começou a Primeira Guerra Mundial, “tinha a quarta maior economia do mundo, depois de Estados Unidos, Grã-Bretanha e Alema­nha”, anota o jornalista e historiador Brian Moynahan no livro “Camaradas: 1917 — A Rússia em Revolução” (Grua, 478 páginas, tradução de Bruno Gambarotto).

O czar Nicolau Romanov se reconhecia como néscio: “Não estou preparado para ser czar. Nunca quis ser um deles. Nada sei sobre a arte de comandar”. Quando Nicolau decidiu se casar com Alexandra, de origem alemã e inglesa, a rainha Vitória, da Inglaterra, mostrou-se presciente: “O Estado da Rússia é tão ruim, tão podre, que a qualquer momento algo terrível pode acontecer”. Ainda assim, sua sobrinha quis se casar com o nobre da terra de Púchkin. Simon Sebag Montefiore sugere que o imperador era incapaz, tinha “mente estreita” e fama de “azarado.

Se Nicolau era o czar (a palavra deriva de César, assim como kaiser), a imperatriz Alexandra, mais articulada, funcionava como uma espécie de governante de fato, às vezes orientada por Rasputim. O “mago” foi assassinado por nobres que queriam manter e não arrancar os Romanov no poder. Mas, como não tinham perspectiva histórica, não havia como salvá-los.
Aos poucos, a intelligentsia russa, composta de liberais e esquerdistas — como o notável Alexander Kerzen (Lênin presava sua prosa), pouco citado (exceto opor Isaiah Berlin, no magnífico “Pensadores Russos”) —, concluiu, afirma Marcel Novaes, que “o governo era o principal problema da Rússia”.

Os primeiros revolucionários foram os sociais-democratas, marxistas, liderados por Gueórgui Plekhanov e os socialistas-revolucionários, que aceitavam o terrorismo. O primeiro congresso do Partido Operário Social-Democrata Russo realizou-se em 1898. Pyotr Struve era um de seus líderes. Na Suíça, ao lado de Pleklanov e Julius Martov, Lênin cria o jornal “Iskra”.

Em 1902, no panfleto “O Que Fa­zer?”, Lênin “ensina” que, “sem a liderança de uma vanguarda intelectual, os proletários desenvolveriam apenas a ‘consciência sindical’ e não a verdadeira ‘consciência de classe’”. O revolucionário escreve que, “para liderar o processo de revolução”, era preciso criar “um partido que fosse baseado em rígida organização e disciplina”. Insistia que “era indispensável que o proletariado estivesse sempre à frente das lutas”.

Até 1914, quando se iniciou a Primeira Guerra Mundial, na qual a Rússia era aliada da França e da Inglaterra e contra a Alemanha e a Áustria, o país do poeta Óssip Mandelstam estava em convulsão social, com protestos gerais, tanto das elites quanto dos trabalhadores. Mas a esquerda marxista não era hegemônica e não comandava as revoltas; pelo contrário, era atropelada por elas, sem conseguir dirigi-las. Mas a guerra mudou tudo, enfraquecendo ainda mais o governo do czar Nicolau e fortalecendo os liberais, que tinham noção de que era preciso mudar o governo antes que fossem ultrapassados pela sociedade civil em germinação.

Os russos inicialmente ficaram entusiasmados com a guerra, mas, com as seguidas derrotas e milhares de mortes, perderam a empolgação. Julius Martov e Pavel Axelrod não eram favoráveis à batalha. Lênin avaliava que o choque entre as potências europeias fortaleceria o proletariado europeu; depois, mudou de ideia. Porém, como estavam no exílio e dadas as dificuldades de comunicação, não tinham importância decisiva na Rússia.

Com a Rússia faminta, não havia nem pão, os trabalhadores começaram a fazer greve, e com o apoio dos soldados, que estavam irritados com os massacres da guerra (dos 15 milhões que serviram no front morreram 2 milhões e 5 milhões se tornaram prisioneiros). À revelia da esquerda organizada. Marcel Novaes registra que “uma conspiração de militares de alta patente e deputados da Duma (Parlamento)” articulou o sequestro “do czar” — para “obrigá-lo a abdicar” — e da czarina. A trama não saiu da teoria.

Em 1917, a Rússia estava à deriva. Não se sabia qual rumo daria “certo” e quem tomaria e manteria o poder de fato. Em fevereiro, o poder era do caos. No dia 23 de fevereiro (no calendário gregoriano, 8 de março), as mulheres saíram às ruas para comemorar o Dia Internacional da Mulher e milhares de trabalhadores em greve juntaram-se a elas. Ao fim da tarde, cerca de 100 mil pessoas esbravejavam contra a crise e o governo, cantando a Marselhesa. Marcel Novaes escreve que um policial alarmou-se: “Ninguém me disse que haveria uma revolução”. No dia seguinte, 150 mil pessoas pilharam lojas. Alertado pela czarina, Nicolau respondeu: “Meu cérebro está descansando”. Depois, informou: “À noite, joguei dominó”. Com tal percepção, com a revolução batendo à porta, era fatal que se tornasse uma das primeiras peças do dominó a cair.

Enquanto o cérebro do czar estará “paralisado”, mais de 200 mil pessoas gritavam nas ruas: “Abaixo o czar!” e “Vida longa à República!” Marcel Novaes frisa que “os partidos políticos não exerciam nenhum controle sobre os acontecimentos”. Trotski admitiu que os esquerdistas estavam à margem: “As massas, sem olhar para trás, faziam elas próprias a sua história”. Os bolcheviques, embora quase um zero à esquerda (seus principais líderes viviam no exílio), estavam à espreita. A historiadora australiana Sheila Fitzpatrick, no livro “A Revolução Russa” (Todavia, 316 páginas, tradução de José Geraldo Couto), segue a mesma linha: “Em fevereiro de 1917, a autocracia ruiu em face de manifestações populares e da retirada do apoio da elite ao regime”.

A multidão cobrava posição da Duma, no Palácio Tauride, Kerensky (ou Kiérenski) assumiu uma posição de liderança: “Prendam os ministros, tomem os correios, os telégrafos, os telefones! Ocupem as estações de trem, os escritórios do governo!” Porém, democrata, Kerensky não permitiu que os ministros fossem linchados. Começava a nascer um líder.
Em Kronstadt, marinheiros e soldados, amotinados, decidiram não cantar o hino “Deus salve o czar”. Eles diziam que, “se os marinheiros e soldados se recusam a salvar o czar, então Deus também não o salvará!”

A guerra agora era interna. “Estima-se que mais de 1,5 mil pessoas morreram e mais de 6 mil ficaram feridas na chamada Revolução de Fevereiro”, informa Marcel Novaes. Apesar de teoricamente comandar um exército de 15 milhões de homens, Nicolau abdicou e, a rigor, ninguém lamentou. “As festas duraram três dias”, disse um camponês. “Nas cidades, o povo derrubou estátuas da era czarista”, acrescenta o pesquisador.

O duplo poder
Em 1917, havia um duplo poder. “De um lado, o governo provisório; de outro, o Soviete de Delegados de Trabalhadores e Soldados de Petrogrado”, relata Marcel Novaes. O príncipe Gueórgi Lvov era o primeiro-ministro e ministro do interior e Kerensky, socialista-revolucionário, era o ministro da Justiça. O embaixador francês disse que Kerensky era “a real cabeça do governo provisório”.

O historiador britânico Orlando Figes, autor de “A Tragédia de um Povo — A Revolução Russa: 1891-1924” (Record, 1103 páginas, tradução de Valéria Rodrigues), afirma que “muitos” dos marxistas “receberam bem o esquema do duplo poder porque os colocava em posição confortável. Eles tinham o poder sem a responsabilidade; enquanto o governo provisório tinha a responsabilidade sem ter o poder”. Enquanto a esquerda ganhava musculatura, para tomar o poder de vez, os democratas, ante problemas sociais e políticos seculares, não conseguiam melhorar a situação, em larga escala, a situação do país. Ficavam, pois, com a fama de “incompetentes” e “conservadores” (eram, no geral, progressistas, modernizadores).

Marcel Novaes nota que, nos “sovietes de trabalhadores, os mencheviques era o partido majoritário, en­quanto os socialistas-revolucionários do­minavam as organizações de soldados. Os bolcheviques eram minoritários em todas as organizações”. A revolução, até então, nada tinha de bolchevique.

Presença de Lênin

Liev Trotski, Vladimir Lênin e Ióssif Stálin: os bolcheviques foram decisivos na condução da Revolução Russa de 1917 | Fotos: Reprodução

Lênin voltou à Rússia, financiado pela Alemanha — porque o bolchevique, se assumisse o poder, prometera retirar o país da guerra. Ao chegar à Estação Finlândia, em Petrogrado, em 4 de abril de 1917, era praticamente desconhecido das novas lideranças revolucionários. Mas, segundo Trotski, só então o Partido Bolchevique “começou a falar em voz alta e, o que é mais importante, a falar por si mesmo”. Lênin era um líder no limite do fanático, sem deixar de ser uma figura notável, de sólida formação cultural.

Radicalizadas, as teses de abril de Lênin eram contra a guerra, contra o governo provisório e contra os mencheviques. Era tão radical que Kerensky chamou-o de “anarquista socialista”. Alguns esquerdistas chegaram a pensar que o líder bolchevique “havia perdido a sanidade”. Enquanto Kerensky, promovido a ministro da Guerra, pedia paciência, para executar as reformas, Lênin cobrava confronto e a tomada do poder.

O discurso de Lênin se tornou atraente para operários, camponeses e soldados sobretudo porque defendia a saída da Rússia da guerra. Ante a pressão popular, os progressistas do governo perdiam espaço para os conservadores. Kerensky, sob pressão, “não foi reeleito para o comitê central do Partido Socialista-Revolucionário”. Sinal de que começava ser visto como “reacionário”.

No Primeiro Congresso Nacional de sovietes, em junho de 1917, quando su­geriram que nenhum partido teria condições de tomar o poder sozinho, Lênin disse que tal partido existia — era o Bolchevique. “Seus colegas bolcheviques o aplaudiram; o restante do salão caiu na risada”, conta Marcel Novaes. Ain­da era possível rir de Lênin. Ke­rensky criticou os bolcheviques abertamente, dizendo que queriam prender, ma­tar e destruir. “O que vocês são: so­cialistas ou policiais do antigo regime?”

Os bolcheviques continuam a crescer — em junho eram 10 mil filiados e 500 mil em outubro de 1917 — e am­pliar sua ação entre os operários. Ma­ksim Górki, defendendo as forças democráticas, disse que “desprezava” os adeptos de Lênin. “São verdadeiros idiotas.”

Em junho, embora radicalizado, Lênin assustou-se quando soldados começaram a propalar a derrubada do governo: “Somos uma minoria insignificante”. Mas o bolchevique não controlava a revolução e, no início de julho, “os soldados tomaram as ruas, com fuzis e metralhadoras”. De Kronstadt chegaram 10 mil marinheiros. Os bolcheviques, com a revolução batendo à porta em busca de liderança, hesitaram. Lênin não discursou para a soldadesca e operariado.

Em julho, Kerensky tornou-se primeiro-ministro e o governo prendeu 800 bolcheviques — como Anatoli Lunacharsky, Kamenev e Trotski — e Lênin e Zinóviev fugiram para a Finlândia. Os mencheviques trabalharam para que os bolcheviques não fossem aniquilados (no poder, os bolcheviques destruíram, sem contemplação, liberais e mencheviques). Kerensky começou a se tornar impopular: a esquerda avaliava que impedia a revolução e a direita que não conseguia conter a esquerda. Os bolcheviques tornaram-se majoritários em Soviete de Petrogrado em 31 de agosto e no Soviete de Moscou em 5 de setembro de 1917.

De volta ao exílio, na Finlândia, Lênin escreveu o livro “O Estado e a Revolução”, no qual defende a ditadura do proletariado. Começou a sugerir que era preciso tomar o poder o mais rápido possível. Disfarçado de pastor luterano, o bolchevique voltou a Petrogrado em outubro — com a revolução (ou golpe) nas ruas. Insistia que o poder estava ao alcance da mão — bastava coragem. Liev Kaménev e Zinóviev diziam que ainda não era oportuno, Lênin quis expulsá-los do Partido Bolchevique, mas Stálin (que mais tarde mandou executar os dois) pediu paciência. Trotski aderiu ao discurso de Lênin na pregação da revolução imediata. Eram os bolcheviques mais influentes.

Lênin proclamou, no dia 25: “Aos cidadãos da Rússia. O governo provisório foi derrubado”. Os bolcheviques es­tavam nas ruas e nos palácios, conquistando o poder. Mas, sublinha Mar­cel Novaes, “a chamada ‘Revo­lução de Outubro’, ‘Revolução Bol­chevique’ ou ‘golpe bolchevique’ foi na prática um ato tão discreto que a população russa nem se deu conta do que acontecera”.

“A Revolução Russa”, de Sheila Fitzpatrick, e “Camaradas: 1917 — A Rússia em Revolução”, de Brian Moynahan, são livros importantes para
se entender o que aconteceu na Rússia dos czares e dos comunistas | Imagens / Divulgação

Não houve reação significativa, o poder praticamente caiu de mão-beijada no colo dos bolcheviques. Kerensky fugiu do país. Apesar do apoio popular, os bolcheviques eram relativamente fracos. Mas eles tinham Lênin, um político obstinado. Marcel Novaes afirma que, “naquele momento [já em outubro de 1917] muito pouca gente, talvez mais ninguém além de Lênin, acreditava que o novo governo fosse durar muito tempo”. Górki acreditava que o governo duraria “duas semanas”. Lu­na­charsky temia ser preso. Mesmo assim, os bolcheviques assenhoraram-se do poder e começaram a produzir decretos. A pedido dos operários, reduziram a jornada de trabalho para oito horas, instituíram a educação infantil gratuita, universal e laica, regulamentaram o divórcio.

Lênin criou a Tcheka e escalou Feliks Dzerjínski para dirigi-la. O socialista-revolucionário Isaac Shteinberg disse que a polícia secreta era o “Comissariado para a Aniquilação”. Lênin não discordou: “É exatamente assim que deve ser, mas não podemos dizê-lo”. Trotski apoiou integralmente a posição do líder. Vários esquerdistas foram presos e Lênin criou campos de concentração. Ele e Trotski não hesitavam em perseguir e até matar “adversários” — como a família do czar Ni­co­lau, inclusive crianças — e ex-aliados. Stá­lin estava em ascensão mas ainda ficava bem atrás de Lênin e Trotski. Mas o “stalinismo” estava engatilhado e atirando. Em termos de violência revolucionária, Lênin e, quiçá, Trotski talvez tenham sido os primeiros “stalinistas”.

Karl Marx, o pai intelectual de Lênin e dos bolcheviques, escreveu para o amigo e aliado político Friedrich En­gels: “Não confio em qualquer russo. Tão logo a Rússia faça seu percurso revolucionário, o inferno virá à nota”.

(A segunda parte deste texto — sobre os bolcheviques no poder — sai na próxima edição do Jornal Opção.)

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