Euler de França Belém
Euler de França Belém

Post balançou Nixon com os Documentos do Pentágono e o derrubou com o Caso Watergate

O corajoso jornal de Katharine Graham e Ben Bradlee publicou papéis constrangedores sobre a Guerra do Vietnã e levou o presidente à renúncia com denúncia de espionagem

Katharine Graham hesitou, dadas suas amizades poderosas, mas bancou a publicação dos Documentos do Pentágono, que abalaram a reputação de vários políticos, como Richard Nixon; e Ben Bradlee, o editor-chefe, soube forçar os limites do “Post”, montou uma equipe competente, desafiou o chefão Nixon e obteve o apoio equilibrado e seguro da publisher do jornal

“The Post — A Guerra Secreta”, de Steven Spielberg, provoca certa polêmica. O filme é sobre como o “Washington Post” publicou os Documentos do Pentágono e provocou uma comoção nos Estados Unidos — acossando o governo do presidente Richard Nixon, que, apesar das denúncias, foi reeleito em 1972. A história mostra que governantes americanos — John Kennedy, Lyndon Johnson e Nixon — mentiram sobre a Guerra do Vietnã (1959-1975). Na verdade, guerras; a França também se atolou na Indochina. Mesmo sabendo que se tratava de uma batalha perdida, os homens do poder enterraram dinheiro na região e sacrificaram tanto vidas de soldados e oficiais americanos quanto militares e civis vietnamitas.

Por que, exatamente, os Estados Unidos lutaram no Vietnã? Para além do fato de ser um Império guerreiro, que saiu vencedor da Segunda Guerra Mundial, sobrepujando a Inglaterra e Alemanha, há a questão da Guerra Fria. Entre 1945 e 1991, EUA e União Soviética lutaram, direta ou indiretamente, pelo “controle” do mundo — inclusive das mentes. No Vietnã, país pouco menor do que Goiás, estavam em guerra capitalistas (pró-americanos) e comunistas (pró-soviéticos). A imprensa do país de Nixon quase sempre foi crítica, mas, dada a disputa internacional, às vezes sucumbia aos clamores do poder. Já no plano pessoal, procede que o editor-chefe do “Washington Post”, Benjamin (Ben) Crowninshield Bradlee, como outros jornalistas, esconderam a vida de mulherengo do presidente John Kennedy e outros problemas de seu governo. Profissional notável, quando o assunto era Jack Kennedy, comportava-se mais como amigo do que como repórter. Daí, no filme, a ironia de Katharine Graham (née Meyer), a dona e publisher do “Post”, a respeito da independência relativa de seu subordinado. O limite da isenção às vezes é a conveniência. A imparcialidade da imprensa é um mito cultivado pelos que não conhecem os jogos do poder, nos quais estão envolvidos políticos, donos de jornais e editores (e, em menor escala, repórteres). Ninguém é livre, ninguém é inocente, ninguém é vítima.

O presidente Richard Nixon, do Partido Republicano, talvez tenha sido o principal “sparring” ou saco de pancadas do jornal “Washington Post”. Na foto, aparece rindo ao lado de Katharine Graham

Na década de 1960, como até hoje, o “New York Times”, era o jornal mais influente dos Estados Unidos. “Deu no Times” era a senha para entender que se tratava de uma verdade (quase) incontestável. Portanto, era natural que Daniel Ellsberg, ex-colaborador do governo, entregasse os Documentos do Pentágono — elaborados a pedido do secretário de Estado Robert McNamara — ao jornal da família Sulzberger. Ele sabia que a grave denúncia, além de publicada, teria repercussão de ponta a ponta dos Estados Unidos. O “Times” pautava os demais jornais e, mesmo, a política e as manifestações populares. Era um tempo em que as pessoas liam muito, e a sério.

O “Times” começou a publicar os Documentos do Pentágono, mas, sob alegação de que a divulgação prejudicava não os interesses do governo em si, mas os da nação — a segurança nacional —, a Justiça barrou a publicação, dando razão à argumentação da Nixolândia.

Apesar do furo do “Times”, os fatos estavam quentes e havia mais a publicar. Ben Bradlee e o “Post” perceberam a oportunidade. Era preciso marcar posição e deixar de ser um jornal que, embora da capital do país, era visto como provinciano em todos os rincões dos Estados Unidos. Sobretudo, era quase ignorado. O jornal não era ruim e sua equipe era qualificada. Mas dizia-se mais ou menos o seguinte: “Saiu no ‘Post’. Ah, bom. Mas o que disse mesmo o ‘Times’?”. O empresário judeu Eugene Meyer comprou o “Post” e passou-o, em seguida, para o comando de seu genro Filipe Leslie Graham, formado em Harvard (trabalhou na Suprema Corte com o célebre Felix Frankfurter). Phil, casado com Katharine Graham, era tido como um profissional admirável, mas tinha um fraco por mulheres — inclusive da redação do “Post” — e era deprimido. O filme fala rapidamente de sua morte, sem se estender a respeito de que se tratou de um suicídio. Ele se matou em 1963, aos 48 anos. Aos 46 anos, Kay Graham teve de assumir o jornal e, apesar de certa insegurança inicial, não fez feio. Geriu muito bem e dirigiu uma redação excepcional, com o apoio do carismático Ben Bradlee. Vale ler as memórias de Kay Graham, “Uma História Pessoal” (DBA, 648 páginas). Uma tia foi casada com o embaixador Souza Dantas, conhecido como o Schindler brasileiro, por ter dado vistos (na França) que possibilitaram salvar centenas de judeus que eram perseguidos pelo nazismo de Adolf Hitler. A família Meyer deu garrida a Thomas Mann nos Estados Unidos.

Na imprensa patropi, críticos, quiçá mais atentos ao filme do que à realidade, escreveram que Kay Graham titubeia e ao menos um deles atribui isto a uma falha de interpretação da atriz Meryl Streep. Na verdade, o filme é preciso: Kay Graham começou hesitante, até se firmar. Frise-se que os méritos são dela — e não exclusivamente de Ben Bradlee, que, como notou a mulher deste, estava mais preocupado com jornalismo, com a sensação que os Documentos do Pentágono poderiam provocar, balançando o governo (e o país) e alicerçando a expansão do jornal e de sua carreira, do que com o jornal em si. A união dos dois, integrando suas diferenças e virtudes, fez o “Post” se tornar um jornal respeitado. Ninguém faz um grande jornal sozinho. Kay Graham morreu em 2001, aos 84 anos, e Ben Bradlee em 2014, aos 93 anos. Trabalhou no “Post” até 1991. Teve uma longeva carreira no jornal e, até poucos antes de morrer, atuava como conselheiro de editores e proprietários.

Ben Bagdikian: o repórter que conseguiu os Documentos do Pentágono com a fonte Daniel Ellsberg

Cárie do poder

Faço mais um parêntese dentro do parêntese quase metafórico acima. A imprensa americana e a imprensa brasileira são diferentes, em certa medida. Um dos motivos é que a imprensa dos Estados Unidos não depende, para sobreviver, das verbas dos governos federal e estaduais. Resulta disto que o poder de pressão do governo — Nixon não foi o único presidente que pressionou a imprensa — é bem menor. Quando a imprensa depende do mercado, de vários anunciantes, os poderes, atomizados, não exercem controle sobre a edição dos jornais. No Brasil, nos grandes centros, como São Paulo e Rio de Janeiro, os governos exercem cada vez menos controle sobre jornais e revistas — ao menos nos mais estruturados. Mesmo assim, o governo federal é um grande anunciante e, por vezes, contribui para evitar a derrocada econômica de negócios de aliados (BNDES, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e Petrobrás são “parceiros” de algumas publicações patropis — não apenas da JBS e empreiteiras). Nos Estados em que a iniciativa privada não está consolidada, como uma força que confronta o Estado, os jornais são mais dependentes. São o sorriso do poder e, às vezes, a cárie da sociedade.

O “Post” estava relativamente enfraquecido, dependente de bancos, mas Kay Graham e Ben Bradlee, seres fortes, decidiram caminhar com a sociedade. Eram realistas, mais do que heroicos. Sabiam que as instituições funcionam nos Estados Unidos. O poder de Nixon — como o de Donald Trump — é limitado pelas leis.

Katharine Graham, Carl Bernstein, Bob Woodward (Carl e Bob não eram muito experientes), Howard Simons e (sentado) Ben Bradlee: o quinteto operou, com rara habilidade, a publicação das reportagens do Caso Watergate

Kay Graham e Ben Bradlee pu­bli­caram os Documentos do Pen­tágono, escandalizaram e mobilizaram o país e levaram outros jornais a divulgarem as falcatruas dos governos. A Justiça deu ganho de causa ao “Post”, sugerindo que, entre os governantes e a sociedade, é preciso ficar com a segunda, quando esta tem razão (era o caso). No filme, Ben Bradlee é interpretado por Tom Hanks — que está bem, tão enfático quanto a matriz. O editor-chefe do “Post” entende, com precisão, que não há assunto velho ou “vencido” para jornalistas. Cavoucando um pouco mais é possível descobrir pepitas de ouro em minas abandonadas. O que ele pro­va, e não apenas a respeito dos Do­cu­mentos do Pentágono, é que a a­bordagem inovadora de um assunto po­de mudar a configuração dos fatos.

Hoje, fevereiro de 2018, o principal parceiro comercial do Vietnã são os Estados Unidos. O país, nominalmente comunista, adotou a política de liberalização da China. Sua população é de 91,7 milhões de pessoas. Só Ho Chi Minh City (ex-Saigon) tem 6,1 milhões de habitantes — quase a população do Estado de Goiás (6,4 milhões).

Caso Watergate

O filme de Steven Spielberg acaba onde começa o filme “Todos os Homens do Presidente”, do diretor Alan J. Pakula, que narra a história do Caso Watergate.

As fontes privilegiadas do Caso Watergate — como Mark Felt, o Garganta Profunda — acreditaram no “Post” porque Kay Graham e Ben Bradlee já haviam enfrentado e vencido o presidente Nixon. É possível que, sem a divulgação dos Documentos (Papéis) do Pentágono, o Caso Watergate, como o anterior, teria ido parar nas mãos do “Times” (por sinal, o jornal cobriu bem o assunto).

A Nixolândia, com anuência de Nixon, decidiu espionar o escritório do Partido Democrata, no complexo de edifícios Watergate. Apesar da participação de especialistas, cometeram erros e foram descobertos. “Times”, “Post” e outros jornais correram atrás da notícia.

O “Post” colocou não apenas Bob Woodward (hoje, com 74 anos, e ainda no “Post”, que investe em qualidade) e Carl Bernstein (hoje, com 73 anos) na cobertura dos fatos. Ben Bradlee mobilizou a redação para investigar o assunto, mas Woodward e Bernstein se consagraram mais do que os colegas. A dupla publicou um livro muito bom, “Todos os Homens do Presidente — O Caso Watergate e a Investigação Jornalística Mais Famosa da História” (Três Estrelas, 424 páginas, tradução precisa de Denise Bottmann). É uma aula de jornalismo investigativo.

Woodward teve a sorte de contar com a cooperação do vice-diretor do FBI, Mark Felt — irado porque havia sido preterido por Nixon na sucessão de John Edgar Hoover (1895-1972). Naturalmente bem informado, o agente a rigor praticamente não apresentava informações novas e explosivas. No geral, corrigia o percurso do repórter e sugeria caminhos para não levá-lo a um possível naufrágio jornalístico e político. Qualquer passo em falso, desmoralizaria o “Post”, que era mantido sob pressão intensa pela Nixolândia. A competência, a coragem e o sangue frio de Katharine Graham e Ben Bradlee foram decisivos para conter os arroubos dos jovens repórteres e, ao mesmo tempo, para não desmotivá-los (há editores e proprietários de jornais que são mestres na criação de redações adormecidas, artífices do jornalismo de conveniência).

Carl Bernstein, Ben Bradlee e Bob Woodward (já mais velhos): o trio fez história e transformou o “Post” num jornal verdadeiramente americano (era meramente de Washington). Bob escreve reportagens e livros

Embora tenha sido um grande presidente — reabriu as renegociações com a China, por exemplo —, e não fosse um néscio político, como Donald Trump, o republicano Nixon comportava-se, por vezes, como um gestor acima da lei. Como a lei é um fato incontornável nos Estados Unidos, país com instituições sólidas (o que impressionou do magistrado e historiador francês Alexis de Tocqueville, no século 19, à filósofa alemã Hannah Arendt, no século 20), Nixon renunciou em 1974. A Constituição americana é o Muro de Berlim instransponível para líderes autoritários e excessivos, como Nixon e Donald Trump.

A renúncia de Nixon, além de mostrar a vitalidade das instituições americanas, provou que jornalismo competente e corajoso tem seu lugar no mundo. O “Post” saiu consagrado, por ter enfrentado o presidente dos Estados Unidos e seus perigosos asseclas, e se tornou, finalmente, um grande jornal. Na gestão de Ben Bradlee, conquistou 17 prêmios Pulitzer, a maior honraria jornalística dos Estados Unidos.

Ben Bradlee sabia o nome da fonte principal de Woodward, mas nunca o revelou. Woodward só escreveu um livro explicando sua relação com Mark Felt (1913-2008) quando este decidiu revelar, por conta própria, que era o Garganta Profunda. Kay Graham não perguntou aos repórteres e ao editor o nome da fonte. Ela era assim: firme, discreta e decente. No Brasil, pelo contrário, há proprietários que exigem os nomes das fontes e negociam a informação. Para não sacrificar suas fontes, editores e repórteres são obrigados a faltar com a verdade, apresentando nomes de pessoas que não são as verdadeiras fontes.

Um jornalista me relatou que o proprietário de um meio de comunicação disse para um governador: “O sr. tem de conversar comigo, e não com os editores e repórteres do jornal”. Kay Graham fortaleceu, a vida toda, seu editor-chefe. No Jornal Opção, ao longo de seus 42 anos, tem sido assim. A publisher atual, Patrícia Moraes Machado — como o criador do jornal, Herbert Moraes —, sempre valoriza seus editores e repórteres. Porque entende que um bom jornal só pode ser pensado e escrito por profissionais altivos e que tenham o mínimo de autonomia. “Robôs” bajuladores são até agradáveis ao ego, mas não costumam fazer jornais decentes, criativos, inteligentes e duradouros. A inteligência ativa, em jornalismo, só funciona com certo grau de rebeldia realista.

O “Post” é controlado pelo empresário Jeff Bezos. O jornal contratou mais repórteres experimentados, enxugou áreas parasitárias — o foco é investir o dinheiro na expansão da qualidade editorial — e melhorou. O dono da Amazon não fez mal algum ao jornal que Kay Graham e, depois, seu filho azeitaram.

Updike e Vietnã

Leitores interessados na questão da Vietnã, do ponto de vista de uma análise liberal, devem ler o magistral ensaio “Sobre não ser um dove” (uma pomba, quer dizer, pacifista), capítulo do livro “Consciência à Flor da Pele — Memórias” (Com­pa­nhia das Letras, 237 páginas, tradução de José Antonio Arantes), do escritor americano John Updike (1932-2009). É uma “defesa” perspicaz da batalha contra os comunistas.

https://www.jornalopcao.com.br/colunas/imprensa/mark-felt-o-homem-que-derrubou-o-presidente-dos-estados-unidos

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Thiago L

Excelente redação!

Andrea

Excelente filme de Steven Spielberg! A verdade teve um elenco incrível.Adorei ver o Tom Hanks. É um dos talentos mais genuínos de Hollywood atualmente e, além disso tem um carismo inigualável. Sem dúvida em The Post fez uma das suas melhores atuações, não teve nenhuma cena em que não me comovi. Me emocionei muito ao ver que será transmitida em HBO, é um filme extraordinário, aproveitarei o fim de semana para vê-la e passar um tempo agradável.