Elder Dias
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Polêmicas em torno de Pabllo Vittar são mais pelo que ele representa do que por sua qualidade como cantor

No cenário de tensão entre extremos ideológicos, o cantor não tem avaliado seu valor real como artista: tornou-se uma bandeira a ser atacada ou defendida

Pabllo Vittar canta música de Whitney Houston no programa “Altas Horas” e surpreende até o exigente Ed Motta

Até o “Altas Horas” do sábado, 30, nunca tinha parado para ouvir Pabllo Vittar. Antes de ter sua voz entoando alguma melodia, eu pude escutar sua fala respondendo às perguntas de Serginho Groisman – um apresentador que merecia um horário melhor na grade da programação – e sua plateia. Confesso que o timbre um tanto exótico desacreditaria qualquer um sobre a produção de alguma harmonia razoável.

A sequência, com uma música de seu repertório, também não ajudou muito. Talvez se salve pelo fato de o ritmo ser atual – o que não significa necessariamente agradável aos ouvidos –, em tempos em que há uma “desimportância” em saber cantar para merecer o sucesso. Porém, ao interpretar “I Have Nothing”, canção eternizada por Whitney Houston (a “Elis Regina” dos Estados Unidos, tanto pela alta qualidade como intérprete como pelo fim trágico por overdose), a drag queen fez bonito cantando ao vivo com um falsete bem sustentado, ainda que não em estado de excelência, durante dois minutos.

Na verdade, a canção foi uma das primeiras com que o rapaz fez sucesso – ele canta o hit de Whitney há pelo menos quatro anos. Phabullo Rodrigues da Silva nasceu em São Luís, a capital do Maranhão, em 1994. Nunca conheceu o pai, que saiu de casa quando sua mãe ainda estava grávida de gêmeos – um deles, o futuro cantor. Como geralmente ocorre às crianças “diferentes” – Pabllo Vittar tinha voz e trejeitos afeminados desde pequeno – sofreu na escola e nas brincadeiras infantis – às vezes mais cruéis do que as farpas dos adultos, justamente por não terem filtro.

Nos últimos meses, a arte de Pabllo Vittar (ou “arte”, segundo seus detratores) se tornou uma das maiores polêmicas do País, o que se mede de várias formas: programas de TV, posts e comentários em redes sociais e até no montante de “fake news” criadas com sua imagem – entre eles o de que o cantor apresentaria um programa infantil na Rede Globo, algo como uma Xuxa dos baixinhos do terceiro milênio; outro boato seria o de que teria captado verbas por meio da Lei Rouanet.

O sucesso leva à exposição, mas com alguém “fora da caixinha” com os holofotes que alcançou o cantor gay nos últimos tempos isso é levado a extremos. Mais do que isso, Pabllo se viu no meio de uma disputa entre dois grupos ideológicos que se engalfinham há tempos e de forma cada vez intensa: os “reacionários”, que lutam pela “moral e os bons costumes”; e os “esquerdistas”, que pensam na “luta pela diversidade” como um dos valores básicos.

Tanto para um grupo como para outro, na verdade interessa muito pouco o pouco valor artístico que tenha Pabllo Vittar: o que interessa é o que ele representa para seus próprios valores. Assim, dependendo de quem olha, o cantor foi santificado ou satanizado. Ele não tem mais seu valor real como artista, porque se tornou uma bandeira a ser atacada ou defendida.

Quem está na briga compra algo que Pabllo não quer vender, embora lucre com isso. Sua forma de agir diz mais respeito ao exagero no gestual – como, aliás, convém às boas “drags” como personagens – do que alguma posição política, ideológica ou de gênero. Por exemplo, o cantor se diz um “menino gay”. Não se diz trans e refuta fazer cirurgia para mudança de sexo. Ora, isso é um posicionamento nada militante e que deveria jogar água fria na quentura da briga entre os “reaças” e os “petralhas”.

Olhando pelo lado técnico, Pabllo Vittar parece ter potencial de bom cantor, mas precisa evoluir. Mas fez chorar Ed Motta, que por acaso também a assistiu pela primeira vez no programa de Serginho Groisman, como este colunista. Conhecido por não ter papas na língua, Ed declarou em seu perfil no Facebook: “Eu chorei de verdade vendo porque não imaginava essa musicalidade, timbre lindo nas notas graves e quando atingiu as notas altas foi com propriedade. Depois conferi pelo YouTube que faz tempo que o talento dela é verdadeiro e genuíno”.

Outros músicos, também respeitáveis, questionam o “talento” real do rapaz. E consideram que o cantor é fruto de marketing e de investimento de gravadoras e outros interesses mercadológicos. Não é de todo mentira: os Beatles talvez seja o primeiro exemplo de estratégia calculada do show business e nem por isso alguém questionaria o merecimento.

Ainda é cedo para dizer se Pabllo Vittar vai permanecer ou será mais uma estrela pop de voo de galinha, como Felipe Dylon, Vinny ou Fat Family, entre tantos outros. Mas, como é ano eleitoral e as disputas entre os extremos da esquerda e da direita vão buscar motivos para se atritar, a tendência é de que o cantor ganhe pelo menos mais um ano de vitrine a ser admirada ou apedrejada.

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Graciano Arantes

Houve um tempo nesse país que ao se debater sobre músicos, os assuntos eram sobre suas representatividades no campo de seus ideais, sua técnica, seu peso artístico. hoje, a sociedade está totalmente entregue ao mariketing dominador da (ainda) implacável indústria do entretenimento, sua (ainda) mega poderosa mídia televisiva que tão covardemente EMBURRECE as classes trabalhadoras que depende do poder público para estudar e as classes mais abastadas que só se mobiizam para alguma intelecutalidade a nível de se preparar para os tão concorridos concursos públicos.