Euler de França Belém
Euler de França Belém

Poeta, celebridade, suicida: Anne Sexton permanece inédita em português

Autora de uma poesia confessional, foi internada em clínicas psiquiátricas e transformou seus problemas de saúde em arte

Anne Sexton, que matou-se aos 45 anos, deixou uma poesia confessional de qualidade

Anne Sexton, que matou-se aos 45 anos, deixou uma poesia confessional de qualidade

Conhecida como poeta confessional, embora isto não explique toda a qualidade de sua poesia, a americana Anne Sexton é pouco conhecida no Brasil. Denunciando nosso surrealismo típico, sua biografia chegou antes de sua obra (que ainda não chegou), publicada pela Editora Siciliano, em 1994. Portanto, é graças ao livro “Anne Sexton — Uma Biografia” (optei por não acoplar o subtítulo patropi, “A Morte Não É a Vida”), de Diane Wood Middlebrook (1939-2007), doutora por Yale e professora de Stanford, que se tem notícia de sua poesia em português.

Internada várias vezes em clínicas psiquiátricas, Anne Sexton matou-se em 1974, aos 45 anos. Era então uma poeta respeitada tanto pelos leitores quanto pelos críticos. Na introdução da biografia, seu perceptivo psicanalista, Martin T. Orne, sugere que escrever poesia — vocação despertada em larga medida nas sessões de análise — pode ter retardado sua morte. Aos poucos, de tão apaixonada pelo labor poético, as crises depressivas, que levavam à vontade de se matar, foram transformadas em arte. Daí sua poesia tratar a morte e a dor com tanta intimidade. Era amiga de jornada dos poetas Sylvia Plath (as duas conversavam muito sobre poesia e morte), Robert Lowell (seu professor de poesia), George Starbuck, Maxine Kumin e Adrienne Rich.

O tradutor do ótimo livro de Diane Middlebrook, Raul de Sá Barbosa, presta um enorme serviço aos leitores: verte vários poemas para o português, como um de seus mais famosos, “A imagem dupla” (parece incompleto), que transcrevo a seguir: “Não posso perdoar seu suicídio, disse minha mãe./E jamais perdoou. Mandou pintar meu retrato/ao invés.//Eu vivi como uma hóspede irada,/como uma coisa remendada, uma criança que cresceu demais./Lembro-me de que minha mãe fez o que pôde./Ela me levou a Boston para mudar de penteado./Seu sorriso é tal qual o de sua mãe, disse o artista.//Com luz do norte, meu sorriso fica no lugar,/a sombra ressalta meu osso./O que eu poderia estar pensando, sentada lá, posando,/tudo o que era eu à espera, nos olhos, na área/do sorriso, o rosto jovem,/a sedução da raposa./Com luz do sul, o sorriso dela fica no lugar,/suas faces murchando como uma orquídea seca/Meu espelho zombeteiro, meu amor arruinado/minha primeira imagem. Ela me olha daquele rosto,/daquela cabeça pétrea da morte/que eu já deixara para trás./(…)/E essa era a caverna do espelho,/aquela mulher dupla que olha fixamente/para si mesma como se estivesse petrificada./Lembro-me de que lhe demos o nome de Joyce/para podermos chamá-la Joy. (…)/Eu precisava de você. Eu não queria um menino,/só uma menina, uma ratinha branca como o leite/já amada (…)/Eu, que nunca estive inteiramente segura/de ser uma menina, precisava de outra/vida, outra imagem, para me certificar./E essa é a minha culpa maior; você não podia curar/nem aliviar. Eu a fiz para me encontrar.” (O poema faz referência à mãe de Anne Sexton, Mary Gray, e à filha caçula da poeta, Joyce-Joy. Diane Middlebrook escreve: “O insight profundo do poema é que dentro de tal mãe existe sepultada uma criança que também foi feita como espelho para a necessidade materna de admiração”.)

3 respostas para “Poeta, celebridade, suicida: Anne Sexton permanece inédita em português”

  1. Avatar Matheus Mavericco disse:

    Hmmm… Mais ou menos. Desde 2004 possuímos uma antologia comentada da autora: no caso, a dissertação de mestrado do Renato Marques de Oliveira, . Ter sido ou não publicada em livro não deixa de ser uma falha editorial, naturalmente, ainda mais considerando que o livro já está pronto — mas enfim.

  2. Diríamos que a manchete correta seria “inédita em livro”, pois há tradutores por toda parte atraídos pela poesia e a morte de (em) Sexton. Vide comentário anterior. (AQ).

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.