Euler de França Belém
Euler de França Belém

Pistoleiro boliviano “planejou” matar Tancredo Neves no comício das Diretas Já em Goiânia

Grupos militares da linha dura também ameaçaram matar José Sarney, que foi avisado por Iris Rezende

Livro amplia papel de Tancredo Neves na política brasileira e conclui que se trata de um grande estadista

Livro amplia papel de Tancredo Neves na política brasileira e conclui que se trata de um grande estadista

“Tancredo Neves — A Noite do Destino” (Civilização Brasileira, 866 páginas), do ex-editor-chefe do jornal “O Globo” e ex-chefe de redação da Rede Bandeirantes de televisão José Augusto Ribeiro, é uma biografia alentada do político que, com perspicaz moderação, contribuiu para a liquidação da ditadura civil-militar. O jornalista também foi assessor de imprensa de Tancredo Neves na eleição presidencial de 1984.

O primeiro capítulo do livro, “O pistoleiro de Goiânia”, relata como forças militares, as que agiam aparentemente fora do controle do governo de João Figueiredo — mas não de integrantes da equipe do general-presidente —, jogavam livremente para tentar impedir a chegada de Tancredo Neves à Presidência da República. Em 12 de setembro de 1984, o jornalista Carlos Chagas, diretor da sucursal de “O Estado de S. Paulo”, entrou em contato com José Augusto Ribeiro e esclareceu que precisava passar uma informação grave a Tancredo Neves.

A repórter Leda Flora foi a encarregada de repassar as informações a Tancredo Neves. A jornalista relatou ao candidato a presidente da República que “a redação de ‘O Estado de S. Paulo’, em São Paulo, e sua sucursal em Brasília vinham recebendo sucessivos telefonemas anônimos, com avisos de que estava em Goiânia um pistoleiro boliviano contratado para atirar em Tancredo, em seu comício dali a dois dias”.

A conversa foi “tensa”, conta o biógrafo. Leda Flora transmitiu um recado do diretor de redação do “Estadão”, que queria saber “se o jornal deveria ou não noticiar essas ameaças”. Tancredo Neves respondeu: “É claro que isso é para intimidar, para cancelarmos o comício. Mas se eu cancelar o primeiro comício da campanha, não vou fazer outro, estarei desistindo da candidatura”.

Político corajoso — que, como ministro da Justiça, sugeriu que Getúlio Vargas resistisse em 1954 —, mandou dizer a Carlos Chagas e Júlio de Mesquita Neto que tinha “como apurar” a “informação” e que iria ao comício. “Eu não tomaria a iniciativa de pedir que o ‘Estado’ não publicasse a notícia. Mas já que ele [Júlio de Mesquita Neto] me consulta sobre o tratamento a dar ao caso, tomo a liberdade de propor que não publiquem nada. O que querem é exatamente que isso saia no jornal para causar pânico.” O jornal nada publicou. Os outros jornais não sabiam da história.

O serviço secreto da Polícia Militar de Minas e a Secretaria de Segurança Pública de Goiás estavam passando informações para o staff de Tancredo Neves. “O governador de Goiás era Iris Rezende, do PMDB, um dos primeiros a apoiar sua candidatura. E o de Minas era Hélio Garcia, que fora seu vice”, relata José Augusto Ribeiro.

Por ter ligações com militares, inclusive do Exército, Tancredo Neves “sabia que as ameaças eram iniciativas de grupos ligados ao aparelho de segurança, que ainda resistiam à hipótese de sua vitória e mais tarde provocariam outros acontecimentos, alguns públicos, como o incêndio de seu escritório de Brasília, no Edifício Guanabara, outros não revelados até agora”.

Militares da linha dura, mesmo em 1984, ainda resistiam à Abertura e, sobretudo, à transição do poder dos generais para os civis. Alguns militares e agentes chegaram a pregar cartazes “do” Partido Comunista do Brasil (PC do B), na convenção do PMDB que havia decidido pelo lançamento de Tancredo Neves para presidente. Pode-se dizer muitas coisas do político mineiro, menos que tivesse alguma simpatia pelo comunismo. Era democrata moderadíssimo. Após os cartazes, começaram as ameaças “do” pistoleiro boliviano.

Depois da primeira conversa com a repórter do “Estadão”, o chefe de redação da sucursal do jornal em Brasília, José Márcio Mendonça, informou à equipe de Tancredo Neves sobre novas ameaças. “É para intimidar. Não vamos ceder”, contra-atacou o candidato.

No dia do comício, em Goiânia, Tancredo Neves era um alvo fácil para possíveis pistoleiros, sobretudo para agentes oficiais. “Tive a impressão”, afirma José Augusto Ribeiro, “de que, ao contrário de eventos anteriores da campanha, ele não procurava puxar outras pessoas para seu lado: Sarney, por exemplo. Se houvesse mesmo o tal pistoleiro, era melhor que acertasse em Tancredo, não em quem estivesse perto dele”.

Carlos, o Chacal, o famoso terrorista, teria sido sondado para matar Tancredo Neves e José Sarney. O primeiro não acreditou: “Quem sou eu para merecer a atenção de um renomado e respeitado terrorista internacional?” O candidato sabia, por seus contatos militares, que os terroristas eram mesmo made in Brasil. O peemedebista “sabia que a ameaça não era internacional, era local, ou melhor, na hipótese mais ambiciosa, goiano-boliviana, mas empreitada por agentes brasileiros. E que Chacal nada tinha a ver com isso”, anota José Augusto Ribeiro.

Tancredo Neves “se preveniu e nenhum pistoleiro apareceu no comício, mas algum tempo depois o ‘Correio Braziliense’ confirmou, numa notícia de poucas linhas, que um boliviano armado e com documentos falsos fora preso para averiguações, na véspera ou no dia do comício, numa hospedaria perto da estação rodoviária de Goiânia”.

José Sarney ameaçado

O candidato a vice, José Sarney, que havia pertencido às hostes políticas da ditadura, também era ameaçado. “Ao chegar a Goiânia, à tarde, para o comício, ele foi chamado à parte, no Palácio das Esmeraldas, sede do governo estadual, pelo governador Iris Rezende”. “Eu ia ser assassinado”, afirma Sarney. Iris Rezende relatou-lhe: “Tenho que dizer que recebemos uma denúncia de que você vai ser assassinado aqui, nesse comício”. Tentaram convencê-lo a não subir no palanque, mas Sarney disse: “Não. Agora é que eu vou, essa seria uma morte gloriosa”. Sarney disse que a fonte de Iris Rezende era o ministro da Justiça, Ibrahim Abi-Ackel.

José Augusto Ribeiro escreve sobre a Praça Cívica, onde se realizou o comício pelas Diretas Já: “No comício de Goiânia, numa praça esquisita, que parecia bloqueada de todos os lados e com poucos e estreitos acessos, havia logo à frente e à direita do palanque um grupo grande com muitas bandeiras vermelhas, numa torcida barulhenta e agressiva”. Será que os arquitetos pensam o mesmo sobre a Praça Cívica? É provável que, por ter visto a praça muito cheia, o jornalista não teve condições de apreciá-la com a devida atenção.

Uma pena que José Augusto Ribeiro não tenha consultado — ou pelo menos citado — o livro de Luís Mir sobre a morte de Tancredo Neves. “O Paciente — O Caso Tancredo Neves” (384 páginas) é imprescindível àqueles que querem entender como e por que Tancredo Neves morreu. E é um pecado capital um livro de 866 páginas não ter índice remissivo.

Leituras tancredianas

Tancredo Neves era um político inculto como Iris Rezende? Era um grande leitor. Algumas de suas leituras: “Li todo o Eça de Queiroz, todo o Machado de Assis, Aluísio de Azevedo, José de Alencar, mas o que me empolgou mesmo foi ‘Os Sertões’, de Euclides da Cunha. Sabia trechos de cor. À medida que a gente vai envelhecendo, passa para os clássicos: ‘Dom Quixote’, Dante, Goethe”.

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Francisco de Assis Dorneles

Mas uma página revelada do fim de um período negro da História nacional. A ditadura foi tarde,e, infelizmente deixou como legado uma economia aos cacos. Os governos civis e a população as duras penas conseguiram reerguer a nossa economia. Hoje temos uma crise inflacionária novamente, mas nem de longe a deixada pela praga da ditadura militar. Quantos planos econômicos e arrochos salárias foram preciso para termos uma economia mais estável com o plano real. Um outro comentário, sou goianiense, logo posso falar. Concordo com o jornalista que descreve a praça cívica como feia. É muito feia e nestes tempos tornou-se… Leia mais