Euler de França Belém
Euler de França Belém

Philip Roth está escrevendo (ensaios) e diz que “Enquanto Agonizo” é o grande romance de Faulkner

O autor de “O Complexo de Portnoy” elogia Hemingway, frisa que “Absalão, Absalão!” é um romance poderoso e fala das grandes frases de Dostoiévski e Joyce

O livro é uma excelente introdução à obra do autor de “O Complexo de Portnoy” e contribui para entender o homem Philip Roth

O livro é uma excelente introdução à obra do autor de “O Complexo de Portnoy” e contribui para entender o homem Philip Roth

“Roth Libertado — O Escritor e Seus Livros” (Companhia das Letras, 479 páginas, tradução de Carlos Afonso Malferrari), de Claudia Roth Pierpont é um livro de qualidade sobre o autor de “O Complexo de Portnoy” e “O Teatro de Sabbath”. Philip Roth e Claudia Roth Pierpont não são parentes. A pergunta de 1 milhão de dólares é: o escritor continua escrevendo? Se está escrevendo, vai publicar algum dia?

Claudia Pierpont pergunta se Roth, depois de “Nêmesis”, o suposto ponto final, vai escrever mais um romance. “Espero que não”, assinala o escritor — lacônico e ambivalente. O “espero que” tira a força do “não”. A jornalista da revista “New Yorker” conta que o autor de “Complô Contra a América” (belo romance de contrahistória), até desistir de escrever prosa, “compôs listas de possíveis assuntos, mas nenhum deles lhe pareceu irresistível. Tinha medo de acabar se deprimindo, sofrendo com a falta de ocupação, incapaz de suportar a vida sem a dedicação diária de suas energias à página escrita. Mas nada disso aconteceu. Ele ficou absolutamente surpreso ao constatar que se sentia livre”.

Porém, ao contrário do que se imagina — não há motivos para duvidar de Claudia Pierpont, mas acredito que Roth está escrevendo prosa, talvez uma literatura mais densa do que a de seus últimos livros —, o autor de “Lição de Anatomia” não parou de escrever inteiramente. Só não está publicando. “Roth não está mais escrevendo o tempo todo, mas de algum modo as páginas continuam se acumulando. Nada de ficção, porém. Ele diz que não tem mais o vigor ‘para ficar extraindo algo do nada’. Em vez disso, há anotações, reflexões, correções: tantas coisas foram escritas a seu respeito e tantas delas erradas”, conta Claudia Pierpont.

Roth está escrevendo ensaios, segundo a autora do livro. “Escreveu um ensaio maravilhoso em torno dos escritores que moldaram sua juventude, mas escreveu-o só pelo prazer de escrevê-lo”, afiança Claudia Pierpont. Duvido que seja assim. Quem escreve quer e vai publicar — cedo ou tarde. Roth, sublinha a estudiosa de sua obra, “não consegue parar de escrever, não consegue parar de transformar a vida em palavras”.

Não escrever, ou pelo menos não publicar, trouxe alguma felicidade a Roth? “As alegrias de uma vida sem escrever: telefonemas e cartas para amigos, ginástica, leitura de histórias políticas e biografias. ‘Pós-Guerra’ [“Uma História da Europa Desde 1945”], de Tony Judt, o livro de Simon Sebag Montefiore sobre Stálin [possivelmente Roth está se referindo a “Stálin — A Corte do Czar Vermelho”], livros de Stálin por Alan Bullock e John Lukacs, os três volumes do estudo sobre Franklin Roosevelt por Arthur Schlesinger, diversos livros sobre Eleanor Roosevelt, ‘The Age of Reagan’, de Sean Wilentz, o último volume de Robert Caro sobre Lyndon Johnson, a biografia de Joseph Kennedy por David Nasaw.”

Numa entrevista, Roth disse que não lia mais ficção, pois preferia a leitura de livros de história. Não é bem assim, ressalva Claudia Pierpont. “Ele também lê ficção — ou melhor, relê os livros que foram importantes para ele na juventude: ‘Pois eu me perguntei: ‘Será que nunca vou ler [Joseph] Conrad outra vez?’”

Claudia Pierpont escreve que “há também [o russo Ivan] Turguêniev, incluindo as cartas e as biografias; há Faulkner, confirmando-lhe que ‘Enquanto Agonizo’ é ‘o melhor livro da primeira metade do século 20 na América’ e que ler as primeiras cinquenta páginas de ‘Absalão, Absalão!’ ‘é como ser um gatinho preso num novelo de lã’ [ou na narrativa, já que ‘yarn’ tem ambos os sentidos]. Hemingway, é claro: ‘In Our Time’ (“Venham me falar de magia; isso é que é magia”). E ‘Adeus às Armas’: ‘um livro quase perfeito — não; um livro perfeito. A combinação de guerra e caso amoroso é extraordinária, para não falar em todas as brincadeiras agressivas entre os homens, como um eco distante da guerra. Mas é o caso amoroso que acaba comigo, o modo como fica cutucando o outro no começo, até ela dizer: ‘Vamos ter de continuar falando desse jeito?’”

O Hemingway tardio é injustamente subestimado, segundo Roth. “‘As Ilhas da Corrente’: ‘Ele nunca escrevera sobre ter filhos dessa maneira antes’. E até mesmo ‘O Jardim do Éden’, montado às pressas postumamente, que o mostra ‘abrindo o jogo sobre sexo, algo que não acho que ele tenha feito antes’”.

Roth comenta sobre as melhores frases da literatura (talvez exagerando). Relata Claudia Pierpont: “Em ‘Crime e Castigo’, Dunya, irmã de Raskólnikov, vai visitar Svidrigailov em seu apartamento. Svidrigailov é um personagem hediondo, um verdadeiro vilão — ‘com um charme sinistro e diabólico’, diz Roth. Ele está encurralando Dunya, ‘literalmente manipulando-a até um canto do quarto’, ameaçando estuprá-la. (Roth já escreveu sobre essa frase em ‘Operação Shylock, mas agora ele está pensando apenas em quanto gosta dela.) ‘Svidrigailov está prestes a dar o bote quando ela tira uma pistola da bolsa e ele então profere a melhor frase da literatura: ‘Isso muda tudo’. Roth repete a frase com gosto — ‘Isso muda tudo!’”.

“‘A outra grande frase’, diz ele, claramente se divertindo, está em ‘Ulisses’, quando Bloom vê Gerty DacDowell na praia. ‘Ele não percebeu ainda que ela é paralítica e fica observando-a a uns vinte metros de distância. Ele está com a mão no bolso e, se não me engano, arrancou o bolso do bolso, não? Se não o fez, vou aproveitar isso algum dia. Mas a frase seguinte é’ — pausa dramática — ‘De novo com isso’ [At is again]”, anota Claudia Pierpont. Acrescenta Roth: “‘De novo com isso!’ Que mistura perfeita de resignação, deleite e tolerância! É isso que quero que esteja escrito na minha lápide”.

O que Roth quer mesmo? Claudia Pierpont não se aventura a dizer. Mas é provável que Roth queira, para coroar uma carreira literária tão bem-sucedida, receber o Nobel de Literatura. Tendo parado de escrever, sobretudo de publicar, sua obra já pode ser avaliada de maneira mais precisa pela Academia Sueca. A função principal do prêmio talvez seja contribuir para que os autores não saiam de circulação.

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Adalberto de Queiroz

Dá vontade de ler o livro de Cláudia R Pierpont!