A presidente petista também está batendo, mas preserva a imagem de seriedade, sem deboche, e de estadista

As pesquisas e os intérpretes da política às vezes demoram a perceber aquilo que, na falta de palavras flaubertianas, se pode chamar de micropolítica. A pesquisa do instituto Datafolha, que aponta a presidente Dilma Vana Rousseff, do PT, com 52% (48% das intenções de voto) e Aécio Neves com 48% (46% das intenções de voto) dos votos válidos sugere algumas interpretações. Antes de apresentá-las, um breve comentário. Observando a margem de erro, deve-se admitir que se trata de um quadro de empate técnico. Porém, extrapolando, quem sabe exagerando, talvez seja possível dizer outra coisa: que Dilma Rousseff efetivamente cresceu, reduzindo a expectativa de poder do tucano de Minas Gerais. Mais: se Aécio Neves tivesse 52% e Dilma Rousseff aparecesse com 48%, ainda assim, por enviesado que seja o comentário, haveria um indicativo de que a petista poderia reverter o quadro. Como? Com o uso da estrutura, da máquina e, também, de um marketing afiado. A expectativa de poder está com a petista-chefe. Pode ser que mude, se houver um eleitor “adormecido” que, de alguma forma, queira dar o “troco” no governismo e que acredita que o senador simboliza a mudança, ou, ao menos, o político que vai arrancar o Lulopetismo ou a “chata da Dilma” do poder.

Sobre a ligeira ascensão de Dilma Rousseff, há pelo menos três explicações tradicionais. Primeiro, a máquina do PT, ou do Lulopetismo, está em ação, buscando demolir a imagem de Aécio Neves, tanto nos programas de televisão e pílulas quanto nas ruas e redes sociais. Segundo, a propaganda da petista está explorando sua ligação com os pobres e os setores menos aquinhoados das classes médias. O postulante tucano desmente, todos os dias, que não vai acabar com programas sociais, mas, do ponto de vista popular, onde há fumaça há algum fogo, brando ou não. Terceiro, os programas eleitorais da presidente estão acrescentando propostas populares, por exemplo na área de habitação, que tendem a agradar os eleitores dos setores da sociedade mais pobres.

As explicações garantem o crescimento de Dilma Rousseff e o ligeiro recuo de Aécio Neves? Primeiro, é preciso dizer que são pertinentes. Segundo, embora a campanha de Dilma Rousseff seja agressiva e bem feita, Aécio Neves tem apresentado vacinas que às vezes funcionam. Se não funcionassem, não teria 48% dos votos válidos.

Vamos à micropolítica, àquilo que não tem sido examinado com o devido cuidado, mas que talvez possa contribuir para o debate.

A presidente Dilma Rousseff faz 67 anos em 14 de dezembro. É uma senhora, com dois ex-maridos, uma filha e um neto. Trata-se de uma mulher e política com imagem intocada de seriedade. Há corrupção em seu governo, como houve no governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso — até porque o PT apenas assenhorou-se, no poder, de uma base que havia sido construída pacientemente pelo tucanato ao longo de oito ou dez anos (contabilizado o período do presidente Itamar Franco, no qual FHC foi “primeiro-ministro”) — e possivelmente houve no governo de Aécio Neves em Minas Gerais. Ocorre que, no caso de Dilma Rousseff, assim como no de FHC e Aécio Neves, fica-se com a impressão de que ela não conspurcou-se. Por mais que haja sujeira no governo petista, não  há nenhum indício de envolvimento pessoal da presidente. É provável que ela não combata a corrupção com veemência, dada a necessidade de garantir a governabilidade — parece óbvio que o PT “comprou” sua governabilidade —, porque precisa de uma base política no Congresso nacional e, também, de uma base eleitoral nos Estados.

Nos programas eleitorais e nos debates, Aécio Neves “bate”, com certa implacabilidade na presidente Dilma Rousseff. Chama-a de mentirosa, sugere que é ignorante. O eleitor está gostando da pancadaria? Há quem acredite que sim, que as pessoas gostam de ver os poderosos “apanhando” e “sangrando” em praça pública. Mas um jovem, bem-vestido, bem-nascido, bonito e saudável, dizer publicamente que uma senhora de quase 70 anos é mentirosa — uma mulher com histórico de seriedade — e que “não” sabe das coisas, quase uma analfabeta funcional, agrada mesmo os eleitores? Talvez Aécio Neves esteja pegando muito pesado. As críticas devem ser feitas, e podem ser duras na formulação, mas os eleitores podem estar entendendo que estão sendo feitas à mulher Dilma Rousseff, percebendo-as mais como ataques e, até, desrespeito. É provável que, indiretamente, as críticas de Aécio Neves estejam transformando a petista numa espécie de vítima. Vítima tanto do tucano quanto de aliados “malandros” do PMDB, do PP e do próprio PT.

Dilma Rousseff também está batendo, e com crueza, mas mantém as aparências, por assim, diluindo, com habilidade, as críticas — envelopando-as com algumas ideias e propostas. A presidente faz a crítica direta parecer indireta, contextualizada, enquanto a crítica de Aécio Neves parece direta demais. Daí que a petista parece mais construtiva e o tucano mais destrutivo. Na verdade, os dois são construtivos e, ao mesmo tempo, destrutivos.

Há outro aspecto sobre o qual os aecistas e seus marqueteiros deveriam repensar: por que Aécio Neves ri tanto? Não seria mais adequado, para um candidato a presidente da República, um pouco mais de sobriedade? Aécio Neves, que deixa a impressão de que está sempre debochando da adversária, é um político da linhagem de Tancredo Neves, seu avô, mas parece que está esquecendo disto.

Por mais que gagueje, por mais que às vezes pareça desnorteada — a indivíduo Dilma Rousseff parece ser muito rígida e, confrontada, descontrola-se —, a presidente tem uma imagem de estadista, apresenta-se com seriedade, mesmo quando faz críticas exageradas contra Aécio Neves e Fernando Henrique Cardoso.

O comentário sugere que Dilma Rousseff está reeleita e Aécio Neves já perdeu? De forma alguma. Porém, se mantiver o marketing do “já ganhou”, se não eliminar a cara de hiena — está rindo em demasia, como se não estivesse levando a disputa a sério, e sim se divertindo — e se não reduzir a pancadaria contra o indivíduo Dilma, não apenas a presidente, vai ser muito difícil, senão impossível, Aécio Neves dar a volta por cima. Os brasileiros não apreciam aqueles políticos que, ainda candidatos, se apresentam como praticamente eleitos.

Há tempo para mudar? Como os números estão “colados” — a eleição está sendo disputada unha a unha, como costuma dizer o excelente pesquisador Gean Carvalho, do Instituto Fortiori —, há, sim, possibilidade de reversões. Tanto pode ganhar Aécio Neves quanto Dilma Rousseff. Quem errar menos, na reta final, irá para o pódio.