Euler de França Belém
Euler de França Belém

Pesquisa mostra que mulheres podem ajudar Lula a se eleger e a derrotar Bolsonaro

O presidente não resolve a crise econômica, foi mal no combate à pandemia da Covid-19 e é grosseiro. O que disse de Dom Phillips e Bruno Pereira indica insensibilidade

O presidente da República representa todos os brasileiros, independentemente de credos políticos, ideológicos e religiosos. Portanto, quando governa e fala, tem de estabelecer um diálogo com a sociedade, com o geral, e não apenas com os “convertidos” ou “aliados”.

O presidente Jair Bolsonaro, do PL, não fala com os brasileiros, e sim com “segmentos” da sociedade que, supostamente, o apoiam. O Brasil geral quase sempre é ignorado.

Como fala aos convertidos, como se estivesse numa igreja, Bolsonaro ignora os demais brasileiros, que, aparentemente, estão buscando suas “turmas” — como a petista de Lula da Silva. O petista-chefe, ao perceber que o presidente se comunica com “nichos”, se comporta de modo diferente e fala para todos. Daí ter escolhido um vice conservador, Geraldo Alckmin, do PSB, para tornar sua chapa mais representativa do Brasil real, e não do imaginado.

As grosserias de Bolsonaro, não raro dirigidas às mulheres — como jornalistas —, podem até parecer engraçadas para os “convertidos”, mas não são para a maioria dos brasileiros.

Bruno Araújo Pereira, indigenista brasileiro, e Dom Phillips, jornalista britânico: assassinados na região amazônica | Foto: TV Globo/Reprodução

Recentemente, ao falar do assassinato do indigenista brasileiro Bruno Araújo Pereira — um apaixonado pela causa indígena que trabalhou para a Funai, que Bolsonaro está transformando em “Finai” — e do jornalista Dom Phillips, o presidente exibiu, mais uma vez, toda a sua insensibilidade humana e, até, política.

No lugar de palavras de conforto para a família e de afirmar que irá combater a violência na região amazônica, Bolsonaro “atacou” o jornalista britânico. Ele disse que Dom Phillips era “malvisto” na região do Vale do Javari, na Amazônia, porque teria escrito reportagens criticando garimpeiros. O repórter era um profissional que estava preocupado em compreender o que acontecia na região (que amava) — e não era adepto do jornalismo sensacionalista.

Bolsonaro frisou que, antes de fazer uma “excursão”, Dom Phillips deveria ter “redobrado a atenção consigo próprio”. O jornalista e Bruno Pereira (poucas coisas são tão encantadoras quanto o indigenista cantando com os indígenas, e na língua deles) “sabiam do risco que corriam naquela região”, segundo o chefe do Executivo nacional. O trabalho do indigenista e do jornalista é examinado pelo presidente como uma “aventura não recomendada”.

Ou seja, sem perceber, o presidente está admitindo que o Estado está praticamente ausente da região. Pois se um cidadão, brasileiro ou estrangeiro, tem de se preocupar com sua própria segurança, ou seja, com sua vida, está comprovado que, ao menos na área, o Estado faliu. O local está controlado por outro Estado, paralelo — o da criminalidade, da força bruta.

Numa entrevista da qual participou Dom Phillips, que falou de maneira civilizada, ainda que questionadora, sobre a necessidade de preservação da Amazônia, Bolsonaro, com o semblante fechado, disse que a floresta é do Brasil. Pelo visto, não é. A Amazônia tem outra dona — a Violência.

Pode se dizer que Bolsonaro é ótimo para jogar pedras. Nenhuma erra o alvo. Todas acertam sua cabeça. As palavras sobre Bruno Pereira e Dom Phillips certamente destoam do que pensa a maioria dos brasileiros.

O recado das mulheres para Jair Bolsonaro

Jair Bolsonaro, presidente da República: agressividade e negacionismo da ciência não agradam as mulheres l Foto: Reprodução

A eleição para presidente será disputada daqui a três meses e 13 dias. Portanto, nenhum marqueteiro dará conta de mudar o perfil agressivo e grosseiro de Bolsonaro. Se o fizer, em cima da hora, só vai conseguir descaracterizá-lo. Se isto acontecer, não ganhará apoiadores novos e poderá perder muitos dos antigos.

De qualquer forma, Bolsonaro e seus seguidores mais radicalizados deveriam ler uma reportagem da revista “Veja”, com o título de “Pesquisa inédita mostra como o voto das mulheres pode definir a eleição”. O levantamento, produzido pelo instituto Genial/Quaest, foi feito no início de junho em 26 Estados e em Brasília.

A pesquisa indica que as mulheres são as eleitoras que estão colocando Lula da Silva em primeiro lugar e Bolsonaro em segundo lugar. Elas parecem decididas a derrotar o presidente e a pesquisa expõe seus motivos.

O CEO da Quaest, Felipe Nunes, afirma que “a variável mulher está se sobrepondo a outros recortes, como religião e região do país”.

Lula da Silva lidera as pesquisas de intenção de voto, tanto entre homens quanto entre mulheres. Porém, quando se contabiliza tão-somente o voto feminino, a frente do petista-chefe sobe: 50% a 22%. Entre os homens, a vantagem do postulante do PT é de 9 pontos percentuais. Entre as mulheres sobe para 28 pontos. Portanto, as mulheres podem — e devem — decidir quem vai ser o próximo presidente da República. Frise-se que representam 53% do eleitorado do Brasil.

Lula

Lula da Silva: é visto como mais sensível às dificuldades das pessoas | Foto: Divulgação

No Nordeste, onde há maior índice de pobreza, 70% das mulheres caminham com Lula da Silva e somente 11% estão com Bolsonaro.

A professora Malu Gatto, da University College de Londres, postula que “Bolsonaro ganha rejeição na medida em que se apresenta e governa de forma masculinizada, incita a violência e desconsidera as aspirações” das mulheres.

O governo de Bolsonaro é visto como “negativo” por 51% das mulheres e somente 19% o avaliam positivamente. Por isso, Bolsonaro, acossado pelos aliados do Centrão — que temem ser tragados por um possível insucesso do presidente — recomendam a ex-ministra Tereza Cristina como vice na chapa. Se confirmada, pode até dar certo. Mas, mesmo sendo mulher e tendo sido uma ministra eficiente, o perfil dela é alinhado ao de Bolsonaro. No fundo, mais do mesmo. Lula da Silva buscou um conservador para vice. Talvez Bolsonaro devesse buscar uma mulher “progressista” — não é só a esquerda que tem figuras progressistas — para vice. Noutras palavras, uma política (ou um político) de centro.

A pesquisa revela outro recorte ruim para Bolsonaro. “As [mulheres] que declaram intenção de voto em Bolsonaro são as mais propensas a pular do barco”, informa a “Veja”. “Ele só terá chance de reeleição se conseguir persuadir as mulheres a apoiá-lo”, assinala Felipe Nunes.

Lula da Silva é o preferido das mulheres por três motivos: “Personaliza um contraponto ao presidente, tem um discurso menos hostil do que o dele e se diz solidário com suas preocupações na questão econômica, a mais crucial para as mulheres”.

Aquilo que mexe com a vida doméstica mobiliza fortemente as mulheres. De acordo com a “Veja”, “a disparada dos preços e a perda do poder de compra assolam, sim, todos os brasileiros, mas são elas que sentem os impactos da crise de forma mais concreta. ‘Os problemas na economia recaem normalmente sobre as mulheres. Elas estão mais preocupadas com a desestruturação da família, pensam no filho desempregado, no marido, nas contas’, aponta a cientista política Nara Pavão, professora da Universidade Federal de Pernambuco”.

Especialistas falam numa espécie de “feminização da fome”. Numa pesquisa, quase 50% das entrevistadas reclamaram “de falta de dinheiro para comprar comida”. Os homens reclamaram menos — 26%.

A pesquisa da Quaest mostra que a pandemia aflige as mulheres. “Na população feminina, 52% ainda se consideram ‘muito preocupadas’ com a Covid-19 e 65%acham que Bolsonaro errou mais do que acertou na crise sanitária.” Levantamentos nacionais e internacionais mostram que “as mulheres se importam mais com os estragos do novo coronavírus do que os homens”.

O cientista político Jairo Nicolau enfatiza que “a pandemia tem impacto relevante no eleitorado feminino. No Brasil, Bolsonaro foi um negacionista, não se vacinou e, recentemente, se pôs contra a vacinação das crianças. Isso para as mães é muito forte”.

Bolsonaro permanece forte no Sul do país, onde há um eleitorado consolidado à direita. “As pesquisas apontam empate técnico do presidente com Lula. Mas, separando-se o segmento feminino, o placar fica 25% para Bolsonaro e 42% para o petista”, relata a “Veja”.

Beatriz Matos e Alessandra Sampaio: razão e sentimento

Alessandro Sampaio: nem seu choro dolorido sensibilizou Bolsonaro | Foto: Reprodução

Ao contrário da insensibilidade agressiva de Bolsonaro, as mulheres de Bruno Pereira, a antropóloga Beatriz Matos, e de Dom Phillips, Alessandra Sampaio, deram uma prova de humanidade.

“Os espíritos de Bruno estão passeando na floresta e espalhados na gente”, disse, bela e ternamente, Beatriz Matos.

Com a descoberta dos corpos, Alessandra Sampaio declarou: “Agora podemos levá-los para casa e nos despedir com amor”. E acrescentou que “se inicia” a jornada “em busca de justiça”.

Beatriz Matos, antropóloga: mulher de Bruno Araújo Pereira | Foto: Reprodução

As duas mulheres mostram civilidade. A busca por justiça — e seu acatamento — é um dos símbolos mais notáveis da civilização.

Bolsonaro, que certamente não se comoveu com o choro dorido de Alessandra Sampaio, é, tudo indica, um elemento do “negativo”. Parece sempre mal-humorado, contra quase tudo e contra quase todos. O presidente se esquece que não se ganha uma eleição com o voto apenas dos convertidos. Ele sabe (assim como os militares que o acompanham), por exemplo, que a urna eletrônica é segura. Mas, para efeito de arregimentação de militância, para colocá-la na rua em caso de derrota eleitoral, afirma que é possível fraudá-la. É uma pena verificar tanta gente inteligente repetindo o “mantra” do político do PL — aliado do indefectível Valdemar Costa Neto — sem fazer nenhuma reflexão.

Uma resposta para “Pesquisa mostra que mulheres podem ajudar Lula a se eleger e a derrotar Bolsonaro”

  1. Avatar Antônio Lourenço da Silva disse:

    A dona de casa que trabalha para o sustento da família, essa vai eleger o novo presidente da República, infelizmente o Lula.

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