Admitindo a margem de erro do levantamento do Serpes, de 3,46%, é praticamente impossível garantir que Vanderlan Cardoso “avançou” e que Iris Rezende “caiu”

[A 14 dias das eleições, se tiver segundo turno, a tendência é que seja disputado por Marconi Perillo e Iris Rezende]

Ao lado de Fortiori, Grupom, Datafolha, Vox Populi, Ibope, o Serpes é um dos mais qualificados institutos de pesquisa do país. Em Goiás, Estado no qual se especializou, tem como principais concorrentes o Fortiori e o Grupom, ambos respeitáveis e com históricos de acertos impressionantes. Porém, as pesquisas rigorosas do Serpes nem sempre são bem interpretadas por alguns repórteres inexperientes de “O Popular”, como Caio Henrique Salgado. É provável que o diretor técnico do instituto, Antonio Lorenzo, tenha apresentado uma interpretação para servir de baliza para Salgado, que, no entanto, deve tê-la ignorado, por motivos não conhecidos. Vamos apresentar uma série de questionamentos não sobre a pesquisa em si – a divulgada na edição de domingo, 21, pelo diário “O Popular” –, e sim a respeito da interpretação feita pelo repórter, com anuência (e responsabilidade), acredita-se, da editora-chefe, Cileide Alves.

Pop, e não o Serpes, sugere que Vanderlan “avançou”

1 – Na pesquisa divulgada em “O Popular”, o Serpes informa que sua margem de erros, “para mais ou para menos”, é de 3,46%. O repórter Salgado, porém, não levou em consideração a margem de erro ao sugerir que Vanderlan Cardoso, candidato a governador de Goiás pelo PSB, “avançou” e que Iris Rezende, candidato pelo PMDB, “caiu”. Informa o título da capa: “Vanderlan avança, Iris cai e Marconi fica estável”.

Se Vanderlan, registra o Serpes, cresceu 2,8%, saltando de 7,2% para 10%, mas a margem de erro é de 3,46%, a interpretação do jornal está, possivelmente, equivocada. O “crescimento” do socialista, estando dentro da margem de erro, não deve ser considerado, como foi, “avanço”. A rigor, ele tanto pode ter 10% (ou 10,66%) quanto 6,54%.

Não se pode dizer que Iris “caiu”, ao contrário do que frisa “O Popular”. O peemedebista tinha 25,1% e “caiu” para 22,4%, quer dizer, perdeu 2,9%. Considerada a margem de erro, de 3,46%, não se pode dizer, ao menos não com precisão, que houve um recuo. Tanto que, numa próxima pesquisa, poderá voltar a ter os mesmos 25,1%.

“O Popular” também menciona o “crescimento” do candidato do PT, Antônio Gomide – de 5,9% para 7,2%, ou seja, um “avanço” de 1,3%. Nem é preciso mencionar a margem de erro, de 3,46%, para observar que o dado não pode ser considerado, tecnicamente, crescimento.

Curiosa mas estranhamente, “O Popular”, ou Salgado, só acertou mesmo ao dizer que o candidato do PSDB, Marconi Perillo, estabilizou-se, crescendo de 39,3% para 40,4%. Mas não ressaltou um ponto que será apontado por nós na nota 3.

2 – No título interno, o jornal diz: “Iris perde terreno, mostra Serpes”. Será que o instituto mostra exatamente isto? Ora, a diferença entre o peemedebista e o candidato do PSB ainda é de 12,2%, quer dizer, um número considerável e muito difícil (mas não impossível) de ser superado – a 14 dias das eleições.

Tucano pode ganhar no primeiro turno

3 – A pesquisa Serpes forneceu um dado relevante, talvez decisivo, mas “O Popular” não o ressaltou na primeira página nem no título da página 19. O Serpes apurou que todos os candidatos, juntos, têm 40,4% das intenções de voto. Marconi, sozinho, tem os mesmos 40,4%. Noutras palavras, a possibilidade de o tucano-chefe ganhar no primeiro turno não é nada pequena. No entanto, “O Popular”, ou Salgado, afirma que se trata de uma incógnita. Ignorar os próprios números, que estão sugerindo o contrário, aí, sim, é uma incógnita, até uma grande incógnita.

“O Popular” desmereceu tanto a informação que só lhe deu espaço no sexto parágrafo da reportagem, em módicas três linhas. Jornais apreciam títulos de impacto, mas “O Popular” parece que fez questão de ignorar uma informação, crucial, que poderia ter resultado num título que, além de verdadeiro, provocaria mais interesse nos leitores, provavelmente. Um título mais ou menos assim: “40,4% a 40,4%: Juntos, todos os candidatos têm o mesmo número de pontos de Marconi Perillo”.

Marconi supera Iris em Goiânia

4 – O jornal também não deu destaque a uma informação nova apontada pela pesquisa Serpes. No oitavo parágrafo, quase no fim da reportagem, Salgado publica: “… a nova rodada mostra, pela primeira vez, Marconi à frente de Iris em Goiânia”. Ora, se é a primeira vez, “O Popular” deveria ter destacado o dado, altamente importante e inteiramente fora da margem de erro. Iris caiu – e agora caiu mesmo – de 36,9% para 25,3%. Uma queda de 11,6%! A exclamação, mesmo num texto analítico, é inevitável. Por três motivos: 1 – Iris caiu em Goiânia, a capital na qual foi prefeito – apontado como bem-sucedido –, deixando o poder em 2010, e conseguindo eleger o sucessor, o petista Paulo Garcia. 2 – Marconi tinha 30% e passou para 30,1%, isto é, manteve-se estável, mas agora à frente de Iris. 3 – Marconi agora está em primeiro lugar em todas as regiões do Estado, mas nem assim “O Popular” ousou, ou melhor, não quis ousar, aparentemente.

“O Popular” comete o erro de, com base na pesquisa, não explicar o suposto “crescimento” de Vanderlan. O motivo? Não se sabe. Talvez seja possível arriscar uma explicação: o “crescimento” de Vanderlan, barrado pela margem de erro, não foi visto como considerável pelo Serpes, e sim apenas pelo jornal.

Salgado, ante um dado espetacular – a queda de Iris em Goiânia, cidade onde é uma espécie de ícone –, deveria ter perguntado a Antonio Lorenzo (já que parece não ter lido a pesquisa com a devida atenção e interesse): os votos que Iris perdeu foram “transferidos” para quais candidatos? Para Marconi, não foi. Para tanto, Salgado deveria ter observado a pesquisa com mais interesse em busca dos dados que, quem sabe, poderiam explicar o suposto “crescimento” de Vanderlan e Gomide. Seriam votos de Goiânia? Vanderlan estaria “tomando” votos do peemedebista-chefe na capital? É uma informação importante – se verdadeira –, mas os leitores de “O Popular” não tiveram acesso a ela.

5 – Na pesquisa espontânea, Marconi aparece com 32,5% e os demais candidatos, somados, têm 30,2. O tucano supera todos, com 2,3% de dianteira. “O Popular” não deu nenhum destaque à informação.

Pesquisa não mostra “alta de rejeição” de tucano

6 – Ao tratar a rejeição dos candidatos, Salgado e “O Popular” novamente ignoraram a margem de erro. A rigor, nem se pode dizer que a rejeição de Marconi subiu. Pois, se a margem de erro é de 3,46%, e a rejeição “subiu” 2,5%, não se pode, como sabem os pesquisadores Antonio Lorenzo, Gean Carvalho (Fortiori) e Mário Rodrigues (Grupom), falar em “alta”. No caso de Iris Rezende, é aceitável sugerir que a rejeição subiu, pois o crescimento foi de 4,1%, quer dizer, 0,64% acima da margem de erro. Ainda assim, não se trata, em comparação com a rejeição anterior, e aceitando-se o peso da margem de erro, de um crescimento forte. Portanto, o título da matéria correlata, “Líderes têm maior alta de rejeição”, é impreciso, como, de resto, praticamente toda a reportagem (Salgado parece ignorar a lógica).

Há outras impropriedades, mas as apontadas bastam para que o leitor, examinando por si, a partir de nossas indicações, tire suas próprias conclusões. Dada a seriedade de “O Popular” – seus repórteres e proprietários não têm histórico algum de manipulação de dados –, é muito difícil concluir, ou meramente insinuar, que há uma tentativa de forçar a realização do segundo turno, daí o “incentivo” a Vanderlan. É mais provável que a pesquisa foi entregue para um repórter sério mas inexperiente, caso de Salgado, interpretar e ele não soube perceber a qualidade e nuances do levantamento, tecnicamente perfeito, do Serpes.