Euler de França Belém
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Perito da Unicamp garante que Gil Rugai não matou seu pai

Ricardo Molina sugere que o assassinato de Luiz Carlos Rugai e Alessandra Troitino pode ter ligação com o tráfico de cocaína e maconha. Dono de produtora tinha patrimônio incompatível com sua renda

Gil Rugai: júri popular (quatro votos a três) condenou o jovem ao concordar que ele matou o pai e sua companheira Alessandra Troitino, em março de 2004

Gil Rugai: júri popular (quatro votos a três) condenou o jovem ao concordar que ele matou o pai e sua companheira Alessandra Troitino, em março de 2004

O perito Ricardo Molina garante que Gil Rugai não matou o pai e a companheira deste, Alessandra Troitino. Um dos mais polêmicos textos de seu livro “O Brasil na Fita — De Collor a Dilma, do Caso Magri à Lava Jato, O Que Vi e Ouvi em Mais de Vinte Anos” (Record, 403 páginas) é o capítulo “Gil Rugai: in dubio pro reo?” (de 29 páginas). Alerto que o especialista da Unicamp foi contratado pela defesa de Gil Rugai, por intermédio da escritora e especialista em criminologia Ilana Casoy.

Gil Rugai foi condenado pela Justiça por ter “matado” Luiz Carlos Rugai, dono da produtora de vídeo Referência Filmes, e Alessandra Troitino, em 28 de março de 2004, na Rua Atibaia, em São Paulo.

Em 2012, convocado por Ilana Casoy, Ricardo Molina diz que estudou “meticulosamente o caso” e concluiu que a escritora “estava certa”: “não” há “provas válidas” para incriminar Gil Rugai. “O processo” está “cheio de falhas de toda natureza”. O perito trabalhou com a ás da criminologia e com os advogados Thiago Anastácio e Marcelo Feller — da Toron, Torihara e Szafir Advogados.

Dada a demonização de Gil Rugai, produzida pela mídia, notadamente por programas de televisão, era e é muito difícil defender o jovem, na avaliação de Ricardo Molina. Os integrantes do júri chegaram para julgar o jovem com a cabeça feita, quer dizer, a culpa já estava definida. Tratava de se enviar um “monstro” para a cadeia. “A sociedade brasileira, cansada da impunidade, clama por punição, não por justiça”, afirma o perito.

Eram quatro os pilares da acusação: o motivo, a testemunha, a arma e o pé na porta.

O motivo

Luiz Carlos Rugai “descobrira” que Gil Rugai havia desviado 200 mil reais da empresa para capitalizar sua agência de publicidade. Um desfalque neste valor é fácil de ser comprovado. Mas, segundo Ricardo Molina, o inquérito e o julgamento não conseguiram provar sua existência. “O contador da produtora, Edson Tadeu de Moura, testemunhou garantindo que nunca houve desvio de dinheiro. Chegou a frisar que uma quantia de tal porte não poderia ser desviada sem que ele percebesse, uma vez que a quantia alegada seria mais do que o dobro do faturamento bruto mensal da produtora, cerca de 90 mil reais.”

Depois, como não comprovaram o desfalque, a polícia passou a sustentar que Gil Rugai falsificava a assinatura do pai em alguns cheques. Todos, “somados, não chegavam a 5 mil reais”. Seria o motivo da briga. O contador contrapôs que Luiz Carlos Rugai autorizava o filho a assinar os cheques “para pagar despesas cotidianas da produtora”.

Com as dúvidas, persistia uma certeza: a briga entre pai e filho “acontecera”. O braço direito de Luiz Carlos Rugai na produtora, Agnaldo Souza Silva, disse que presenciou o conflito, que durou quatro horas, das 19h às 23h — “cinco dias antes do crime”. Mas a defesa derrubou o testemunho, “que apresentou a Estação Rádio Base (ERBs — denominação dada em um sistema de telefonia celular para antenas) de localização do celular de Gil Rugai no dia 23 [de março]. Às 21h, Gil estava no restaurante América, da Avenida Paulista, muito longe da produtora, local da suposta briga. Além da nota fiscal do estabelecimento, várias ligações foram registradas indicando que a captação foi feita por uma antena nessa área”.

“Estranhamente”, registra o perito, Agnaldo Souza Silva “não foi arrolado como testemunha de acusação”. Optou-se por ouvir o instrutor de voo de Luiz Carlos Rugai — Alberto Bazaia Neto. “Em quase seis horas de depoimento no júri, em nenhum momento o delegado [Rodolpho] Chiarelli conseguiu explicar por que Bazaia Neto foi depor no inquérito.” Porém, “surpreendentemente, seu depoimento se tornou uma peça-chave para incriminar Gil Rugai”.

Bazaia Neto encontrou-se com a vítima três ou quatro vezes. Mesmo assim, na sua versão, Luiz Carlos Rugai teria lhe dito “que havia colocado o filho para fora de casa após uma discussão motivada por desvio de dinheiro da empresa e admitiu ter medo de Gil, a quem classificou como perigoso”. O empresário diria isto a um estranho? O perito acredita que não. “Por que amigos mais chegados e familiares não sabiam de nada?”, indaga Ricardo Molina. Mas o brasileiro percebe alguém como “estranho” depois de alguns contatos? É provável que não.

O perito da Unicamp revela que o Aeródromo de Itu, onde Bazaia Neto trabalhava e no “qual seu pai já tinha sido diretor”, havia sido “citado na CPI do Narcotráfico como porta de entrada de drogas no Brasil”. Grandes quantidades de cocaína — a polícia apreendeu de uma só vez 200 quilos — passavam pelo local. “No closet de Luiz Carlos Rugai foram encontrados cerca de 400 gramas de maconha, a maior parte embalada em 25 saquinhos individuais. Também na geladeira havia um pote plástico com maconha. A droga da geladeira, certamente, era para consumo próprio — não era segredo para ninguém que a vítima usava drogas. Mas isso não explica a existência de maconha embalada em 25 saquinhos individuais, algo que aponta, no mínimo, para uma relação estreita com traficantes”, afirma Ricardo Molina. Acossado pela defesa, no julgamento, o delegado Chiarelli disse que, “tecnicamente, Luiz Carlos teria de ser classificado como traficante”.

Teoricamente, a única fonte de renda de Luiz Carlos Rugai era a produtora, mas seu patrimônio era incompatível com o faturamento da empresa. “Oficialmente, com um movimento mensal bruto de 90 mil reais, Luiz Carlos Rugai, aos 42 anos, tinha uma mansão de quase mil metros quadrados em bairro nobre de São Paulo, barco em Angra dos Reis, avião em Itu, estava comprando uma Mercedes blindada, enfim, bens que valiam mais de 20 milhões de reais”, conta Ricardo Molina.

“A forma como as vítimas foram executadas — tiros certeiros, com um último na nuca (o chamado ‘tiro de conferência’) — é típica ação de profissionais do submundo do narcotráfico, não de um filho revoltado agindo sob forte emoção”, relata o perito.

Apesar das referências ao narcotráfico, “por que o delegado Chiarelli não desenvolveu uma linha investigativa nessa direção? Por que confiou cegamente no frágil depoimento de Bazaia Neto?”
Ricardo Molina conclui que “o motivo do crime alegado pela acusação em nenhum momento foi confirmado”. O “pilar da acusação — ‘o motivo’ — não se sustenta”.

A testemunha

A casa da família Rugai, no bairro de Perdizes, tem duas entradas, uma pela Rua Atibaia e outra pela Rua Traipu. A arborização da Traipu atrapalha a iluminação pública e prejudica a visibilidade. “À noite, não se distingue nada a mais de 20 metros de distância, especialmente quando chove. Chovia na noite do crime”, frisa Ricardo Molina. Apesar disso, o vigia Domingos Ramos de Oliveira Andrade garantiu “ter visto Gil Rugai e mais uma segunda pessoa saindo da casa após o crime. Mas não disse isso no seu primeiro depoimento ao delegado. Pelo contrário: afirmou que, de onde estava, não vira nada. Escutou uns estampidos, mas achou que eram fogos de artifício. Esse primeiro depoimento era coerente. A guarita de Domingos ficava a mais de 80 metros do portão da casa. À noite, com chuva, seria mesmo impossível ver alguma coisa”.

Fabrício Silva do Santos, vigia da Traipu, que “ficava a apenas 36 metros do mesmo portão, afirmou não ter visto ninguém sair da casa por essa rua”. Valeriano Rodrigues dos Santos, vigia da Rua Atibaia, “afirmou não ter visto ninguém entrando ou saindo da casa”. Ele estava a poucos metros da residência de Luiz Carlos Rugai. “Disse ter sofrido forte pressão do delegado para que ‘dissesse a verdade’. Porém, como insistia em afirmar que de fato não havia visto nada, em um certo momento chegou a ser coagido. Quando um policial questionou se ele já poderia ser liberado, o delegado teria dito ‘não sei se ele vai sair daqui hoje’, dando a entender que se Valeriano ‘não colaborasse’ poderia se complicar”.

Como os vigias não viram nada, “a investigação caíra em um beco sem saída”. Aí incendiaram a guarita do vigia Domingos Ramos. Este passou a ser protegido pela polícia e, estranhamente, mudou seu depoimento. Aos policiais, disse que, “de dentro da guarita, teria visto Gil Rugai e outra pessoa saírem da casa pela Rua Traipu. Disse que viu Gil fechando a porta com a chave. Ora, qualquer um que se coloque na guarita onde ficava Domingos pode constatar facilmente que essa história não poderia ser verdadeira. A distância e a iluminação precária, sem falar na chuva que caía, não permitiriam que Domingos identificasse alguém”. Em seguida, o vigia mudou a versão mais uma vez: disse que, fora da guarita e escondido atrás de uma árvore, teria visto Gil Rugai e a outra pessoa.

O vigia Fabrício Silva relatou que, ao ouvir os tiros, procurou Domingos Ramos, que estava dentro da guarita. Apesar de sua visão quase “microscópica”, Domingos Ramos não conseguiu definir a altura, se era gordo ou magro e a cor do acompanhante de Gil Rugai. Mas conseguiu perceber que o filho de Luiz Carlos Rugai usava “capa de chuva caramelo e suspensórios”.

De cara, o perito duvida que Domingos Ramos, um homem simples, usaria a palavra “caramelo” para definir uma cor. “Certamente essa expressão ‘caramelo’ foi plantada no seu depoimento, para que se ajustasse perfeitamente à capa que Gil, de fato, possuía. Durante o julgamento, um dos advogados de defesa perguntou a Domingos qual era a cor de uma enorme bolsa caramelo portada por uma mulher na plateia. Domingos emudeceu”, anota o perito.

Ricardo Molina pergunta: “Se Gil estava de capa, como Domingos enxergou suspensórios?”

O perito indaga: “Por que haveria uma segunda pessoa em um crime de motivos tão pessoais? Quem se candidataria a ser cúmplice de um duplo homicídio tão bárbaro?” No caso, Ricardo Molina não é preciso ou realista: Gil Rugai poderia ter contratado um profissional para fazer o que planejara, mas não tinha coragem de executar pessoalmente.

Os testemunhos de Domingos Ramos, sempre variando, parecem mesmo não ter “pé nem cabeça”. A mulher do vigia concedeu uma entrevista ao “Fantástico”, da TV Globo: “O que está valendo é o primeiro depoimento que ele deu. Ele deve ter dado outro depoimento, sendo obrigado a falar o que não deveria falar. Você vai depor um depoimento e o cara fica ameaçando: ‘Ah, se você não falar vou lhe prender, se você não falar vou lhe bater’”.

Ao “Cidade Alerta”, da TV Record, a mulher de Domingos Ramos afirmou: “O que ele disse pra mim foi que não viu. O meu marido, ele é uma pessoa, ele nem sabe falar direito. Ele é meio perturbado. Começa a afobar ele, começa a falar uma coisa, ele não fala coisa com coisa. Ele nem sabe o que ele falou, nem o que ele não falou. Ele conversa todo atrapalhado”. O perito conclui que a “bombástica declaração da esposa de Domingos já deveria ser suficiente para desqualificar o testemunho do vigia”. A denúncia de “fraude processual”, feita pela defesa, não foi aceita. Ricardo Molina diz que há indício de “coação policial”. Mas por quê? Nem o perito sabe responder direito. O fato é que o depoimento de Domingos Ramos, ainda que “descabido e incoerente, acabou sendo um forte argumento da acusação”.

O perito ressalta que há forte indício de que a guarita de Domingos Ramos foi incendiada por policiais. “Valmir Salaro, experiente repórter policial da TV Globo, em matéria para o ‘Fantástico’, disse: ‘A corregedoria abriu uma sindicância para apurar o possível envolvimento de policiais civis no incêndio da cabine. A investigação começou a partir da denúncia de uma testemunha que anotou o prefixo do carro dos policiais. O número é de uma viatura do Departamento de Homicídios, que investiga o assassinato do casal’”. Ricardo Molina acrescenta: “Uma testemunha ocular teria visto policiais do Departamento de Homi­cídios e Proteção à Pessoa (DHPP) ateando fogo à guarita”.

Era de “areia” o alicerce do segundo pilar da acusação, “o testemunho destrambelhado do vigia Domingos”, sustenta Ricardo Molina.

A arma

Uma pistola calibre 380 foi encontrada, em 2005, um ano e três meses depois das mortes, no prédio onde Gil Rugai mantinha na época do crime uma sala comercial. Era a arma usada nos dois assassinatos. O zelador do edifício, no primeiro depoimento, revelou que a arma havia sido achada na caixa de esgoto. “O advogado de defesa que representava Gil Rugai na época descobriu que a caixa de esgoto teria sido limpa seis meses antes da data em que a arma foi encontrada. Ora, se a arma não foi encontrada na limpeza da caixa de esgoto, então ela só poderia ter sido colocada depois disso. Mas Gil Rugai estava preso desde 6 de abril de 2004 e assim permaneceu até 18 de abril de 2006. Gil não poderia ter colocado a arma na caixa de esgoto”.

Aí, afiança Ricardo Molina, era preciso mudar a história, ajustá-la aos fatos. O zelador disse que a arma havia sido encontrada noutro lugar — na caixa de águas pluviais. A limpeza da caixa teria sido feita por um carroceiro. O zelador assegurou que pagou-o com o dinheiro do próprio bolso, o que o perito percebe como inverossímil. O carroceiro tampouco apareceu.

Ricardo Molina indaga: se era “perigoso”, “dissimulado” e “engenhoso” — como apresentado pela acusação —, Gil Rugai seria estúpido ao ponto de jogar a arma do crime dentro do prédio onde tinha seu escritório? “Por que manter a prova do crime tão perto de si?”

Outro detalhe é intrigante, avalia o perito: “A arma foi encontrada dentro de um saco plástico, ou seja, de tal forma que a preservaria para um eventual exame balístico futuro. Por que o ‘inteligente’ Gil produzia uma prova contra si mesmo?”

Portanto, nota Ricardo Molina, o terceiro pilar da acusação, a arma, “tem uma origem duvidosa, baseia-se numa história inverossímil e presume uma grande imbecilidade por parte do acusado”. O pilar, destaca o perito, “não fica de pé”.

Luiz Carlos Rugai e Alessandra Troitino: com um rendimento empresarial bruto considerado apenas razoável, 90 mil reais, dono de produtora tinha casa de quase mil metros quadrados em bairro nobre de São Paulo, barco em Angra  dos Reis, avião e ia comprar Mercedes blindada. Aos 42 anos, tinha bens no valor de mais de 20 milhões de reais

Luiz Carlos Rugai e Alessandra Troitino: com um rendimento empresarial bruto considerado apenas razoável, 90 mil reais, dono de produtora tinha casa de quase mil metros quadrados em bairro nobre de São Paulo, barco em Angra dos Reis, avião e ia comprar Mercedes blindada. Aos 42 anos, tinha bens no valor de mais de 20 milhões de reais

A porta e o pé

A acusação diz que uma marca de solado de sapato na porta que foi arrombada, na casa de Luiz Carlos Rugai, é uma prova de que Gil Rugai é o assassino. Baseia-se num laudo assinado por cinco peritos do Instituto de Criminalística. A marca seria de um sapato do filho do dono da produtora de vídeo e compatível com sua altura. “O laudo do IC é uma piada. A impressão do pé direito na porta foi comparada com o solado do sapato esquerdo de Gil, absurdo que foi classificado pelo perito [Issamu] Yonamine durante o julgamento como ‘pequeno lapso’”, ataca Ricardo Molina. O lapso não é pequeno, avalia o perito da Unicamp.

A marca do solado está na altura da fechadura — o lugar ideal quando se quer arrombar uma porta. “Encontrar uma marca de pé na altura da fechadura não significa nada. Está perfeitamente dentro das expectativas, seja lá qual for a altura de quem arrombou a porta. A associação marca do pé/altura do réu pelo IC é mais uma bobagem — levada muito a sério, entretanto, pela acusação”, critica Ricardo Molina.

Há outro problema, conforme o perito: “Não faz sentido ter encontrado apenas uma marca de solado. Tratava-se de uma porta de madeira maciça e pesada, impossível de ser arrombada apenas com um golpe, ainda mais se considerarmos que o acusado é de porte pequeno, medindo pouco mais de 1,60m. Deveria haver mais marcas se tivesse sido Gil o arrombador. Além disso, a tal marca seria de um sapato com sola simples de couro liso. Esse tipo de sapato é muito pouco apropriado para arrombar uma porta”. Gil Rugai, de acordo com Ricardo Molina, não tem condições físicas suficientes para arrombar uma porta de madeira maciça — ainda mais com um só golpe. Aí o delegado disse que o jovem lutava jiu-jítsu. “O jiu-jítsu brasileiro não usa os pés para desferir golpes, é uma luta essencialmente no chão”, corrige o especialista da Unicamp.

Um laudo do legista Daniel Muñoz, titular da cadeira de Medicina Legal da USP, concluiu que não havia lesão no pé, o do chute na porta, de Gil Rugai. A radiografia “não mostrou nada”. O “assassino”, se quisesse, não precisaria ter feito o exame. Mas, indicando que “não é” responsável pelos crimes, aceitou fazer um segundo exame. Uma ressonância magnética apontou um microedema interno nos ossos cuneiformes. “O laudo do legista Daniel Muñoz relata apenas a existência dessa microlesão. No entanto, de forma desautorizada, os peritos do IC, sem nenhuma especialização médica, associaram essa microlesão ao arrombamento da porta. Muñoz, em seu testemunho no júri, frisa diversas vezes: ‘Meu laudo não tem porta, meu laudo não tem porta!’ Com isso, deixa evidente que a associação lesão/arrombamento era de inteira (ir)responsabilidade do IC.”

O laudo foi feito 40 dias depois do crime. Pode ter dado tempo de o organismo de Gil Rugai, um jovem, se recuperar? Sim. Porém, realça Ricardo Molina, “na madrugada do crime Gil foi com a mãe até o local dos fatos e aparece andando normalmente em imagens gravadas pela TV. Seu passo era firme e regular, nenhum sinal de contusão do pé”.

Mas há outro ponto misterioso: “A perícia de local não registra marca de pé na porta arrombada. A tal marca de pé só aparece, misteriosamente, quatro dias após a perícia feita no local. Será que essa marca existia mesmo?” A defesa pediu as fotografias feitas pela perícia. “Verificamos que não havia mesmo qualquer imagem de uma sola de sapato na porta.” Mas não destacaram “uma pequena mancha de sangue na sala de ginástica”.

Para piorar as coisas, o sapato e a porta desapareceram. “Em qualquer país civilizado, o desaparecimento de uma prova material é o suficiente para absolver o réu ou, no mínimo, anular o julgamento. E por uma simples razão: a defesa tem o sacrossanto direito de fazer a contraprova, com seu próprio especialista. Algo que nos foi vetado”, ressalva Ricardo Molina.

O perito da Unicamp faz mais três questionamentos. Primeiro: “Já que o assassino arrombou a porta, por que matou Luiz Carlos no cômodo vizinho em vez de na sala de TV? Não havia sinal de luta nem vestígio de o corpo ter sido arrastado?” Segundo: um armário estava afastado da parede. A polícia concluiu que o dono da produtora havia tentado se esconder atrás dele. Ricardo Molina contrapõe: “Ninguém se esconde atrás de armários. Ainda que a vítima conseguisse afastar suficientemente o pesado móvel, não se tornaria invisível por causa disso”. Terceiro: “Nas fotos de local vê-se que existem dois cartuchos ejetados da arma perfeitamente alinhados com a soleira da porta da sala de TV, onde o pai de Gil teria se escondido segundo a hipótese da polícia. (…) Com a porta já arrombada, os cartuchos, cilíndricos, teriam rolado mais e parado em pontos diferentes. Luiz Carlos Rugai, ao contrário da tese da polícia, teria sido morto antes de a porta ter sido arrombada”.

Para Ricardo Molina, “a combinação da porta fechada antes da morte de Luiz Carlos e o armário afastado da parede indica que o assassino procurava algo, que não foi lá apenas para matar a vítima. Gil Rugai não teria motivos para agir assim. E quem teria?” Por que Gil Rugai não teria motivos? É uma pergunta que se deve fazer ao perito, mas ele não se faz.

Linha do tempo

Depois de demonstrar as falhas da acusação, a defesa, “com base em provas incontestáveis, registros de contas telefônicas”, elaborou “uma linha do tempo na qual” fica demonstrado “que Gil Rugai não poderia estar na cena do crime no momento dos disparos”.

Vizinha de Luiz Carlos Rugai, Gilda Knoplich avisou à polícia que havia ouvido disparos às 22h14. “Às 22h12, Gil fazia uma ligação para sua amiga Eivy do telefone fixo de seu escritório na Rua José Maria Lisboa”, expõe Ricardo Molina.

O arquiteto David Libesking (projetista do Conjunto Nacional na Avenida Paulista), numa ligação feita às 21h54, perguntou ao vigia Valeriano sobre os disparos. Voltou a ligar às 22h13, depois de ouvir novos disparos. “É comprovado testemunhalmente que Gil, antes de fazer a ligação para a amiga, às 22h12, falou com a faxineira do prédio e subiu para o seu escritório, onde tomou banho. Segundo a versão da polícia, ainda teria se livrado da arma no subsolo, antes de subir os onze andares de elevador até o seu escritório. Ou seja, seria impossível fazer isso tudo em 18 minutos”, contradita o perito.

A versão da polícia — distorcida, segundo Ricardo Molina — é que o crime aconteceu às 21h30. Portanto, “daria tempo suficiente para Gil fazer a ligação das 22h12 no seu escritório”. O perito questiona: “Ainda que se admitisse que o primeiro telefonema de David Libeskind às 21h54 tivesse sido um pouco atrasado, o que explica o telefonema da outra vizinha, Gilda Knoplich, às 22h14, para o 190? Se os tiros foram disparados às 21h30, por que alguém só chamaria a polícia 44 minutos depois de ouvir os disparos?”

Se a linha do tempo é “incontestável”, como sugere Ricardo Molina, por qual razão Gil Rugai foi condenado? Não houve tempo suficiente para explicar aos jurados os detalhes do que a defesa apurou. Os advogados tiveram apenas 20 minutos para explicar a linha do tempo. “Mais uma hora de discurso da defesa com base na linha do tempo e Gil Rugai seria absolvido”, acredita o especialista da Unicamp.

A imprensa, na opinião de Ricardo Molina, não teve um comportamento imparcial e contribuiu para a construção da imagem do “monstro” que matou o pai. O jovem era apontado como “nazista”, “viciado” e “esquisito”. “Nada disso corresponde à verdade. Estive pessoalmente com Gil por várias vezes e posso garantir: de perto ele é normal”, garante o perito.
O júri popular condenou Gil Rugai numa votação apertada. “Dos sete jurados apenas quatro votaram pela condenação, visto que três deles entenderam que o motivo do crime não teria sido devidamente caracterizado. Esse tipo de situação é um dos problemas da estrutura do júri popular tal como é praticado no Brasil. Em uma votação condenatória 4 x 3, apenas uma pessoa está decidindo. Isso é respeitar o exigido princípio do in dubio pro reo?”, inquire Ricardo Molina.

O que tenho a dizer? Como acompanhei o caso pelos jornais, lendo ao menos oito reportagens, acreditava piamente que Gil Rugai havia cometido os dois homicídios. Agora, embora não tenha certeza de que o perito Ricardo Molina está certo, tenho pelo menos (fortes) dúvidas sobre a autoria.

Uma resposta para “Perito da Unicamp garante que Gil Rugai não matou seu pai”

  1. Avatar Justiça cade voce! disse:

    Este Ricardo Molina é um advogado do diabo, que adora inocentar culpados e esta agora de querer denigrir a imagem postuma das vitimas, mais vergonha para um perito fiel a bandidos!

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