Euler de França Belém
Euler de França Belém

Paul Krugman não percebe que a China e não a Rússia é o grande adversário do país de Donald Trump

Artigo do economista Paul Krugman, Nobel de Economia e professor de Princeton, mostra certa loucura analítica, denotando que a raiva trava a razão, e não percebe o racionalismo do republicano

Donald Trump: o presidente eleito dos Estados Unidos parece maluco, sobretudo quando fala em construir muro para evitar a entrada de mexicanos, mas, em termos de economia, ao se aproximar da Rússia e declarar que a China é o principal adversário econômico, mostra racionalismo político

Donald Trump: o presidente eleito dos Estados Unidos parece maluco, sobretudo quando fala em construir muro para evitar a entrada de mexicanos, mas, em termos de economia, ao se aproximar da Rússia e declarar que a China é o principal adversário econômico, mostra racionalismo político | Reuters/Jim Young

Só dois países são rivais econômicos dos Estados Unidos: a China e a Ale­manha. O país governado por Angela Merkel menos. Porque, dado o desastre da Segunda Guerra Mundial, quando se tornou imperialista, controlando grande parte da Europa, sua política atual é cautelosa. Porém, ressalvando o possível excesso do que se dirá, pode-se indicar que a Alemanha democrática e pacífica conseguiu, pela economia, controlar a Europa — excetuando, quem sabe, a recalcitrante Inglaterra, daí o Brexit. Não se pode sugerir, de maneira enfática, que a Europa é uma colônia alemã. Mas se pode usar, ao menos, a palavra “quase”. Percebe-se a força do povo de Goethe e Thomas Mann ao se pegar um táxi em Lisboa. Dificilmente deixará de ser um Mercedes. A Alemanha é páreo para os Estados Unidos porque sua produção é, no geral, de alta qualidade, portanto um competidor duro, especialmente no campo tecnológico. Entretanto, embora esteja tentando espraiar seus negócios pelo mundo, receia o apodo de imperialista, daí sua relativa cautela.

A China, pelo contrário, não tem receio algum de lutar em vários campos com os produtos dos Estados Unidos e da Alemanha. Pode-se afiançar que o país fez uma espécie de acumulação primitiva de capital fabricando produtos de baixa qualidade, mas frequentemente atraentes, e vendendo-os em quase todo o mundo. Com sua mão de obra barata, praticamente serva e próxima da escravidão, os chineses conseguiram um fenômeno: derrubaram os preços de seus produtos, tornando-os altamente competitivos. O mercado mundial de tênis, sapatos, bolsas, guarda-chuvas, óculos, brinquedos mudou depois da produção da terra do filósofo Confúcio e do escritor Mo Yan. Vários industriais brasileiros, para ficar com um exemplo, quebraram. Outros transferiram suas indústrias para a própria Ásia com o objetivo de voltarem a ser competitivos.

As bugigangas chinesas — quando mata um pernilongo com uma raquete, o brasileiro está gerando empregos na China de Deng Xiao Ping (1904-1997) — continuarão sendo comercializadas na maioria das cidades do mundo oriental e ocidental. Mas equivoca-se aquele que pensa que a China está produzindo apenas bugigangas, produtos de baixa qualidade, para conquistar os camelódromos internacionais. Para um conhecimento do país, das nuances de um povo complexo e de cultura riquíssima, vale a leitura do excelente livro “Sobre a China” (Objetiva, 576 páginas, tradução de Cássio de Arantes Leite), de Henry Kissinger, possivelmente um dos americanos que mais conhecem o país de Mao Tsé-tung.

A China fabrica computadores — a Lenovo é chinesa —, automóveis, máquinas pesadas, entre outros produtos. Não importa se, em alguns casos, componentes (para computadores e automóveis) não são chineses. Nos computadores alemães e americanos, ao menos em parte deles, os componentes são produzidos em vários países — da América, da Europa e da Ásia. Os judeus de Israel são produtores de chips e armas da mais alta qualidade. Os automóveis chineses, com componentes produzidos em outros países, como Alemanha (da Bosch, por exemplo), ainda não são dominantes e não agradam os consumidores sofisticados. Mas, com seus preços atrativos, estão se tornando conhecidos e, cada vez mais, consumidos. A médio ou, sobretudo, longo prazo, os veículos produzidos pela China terão mais qualidade e disputarão mercado com produtos americanos, alemães, japoneses, coreanos e ingleses. É uma questão de tempo. Os chineses têm capital e, principalmente, excedente de mão de obra, que, de desqualificada, está se qualificando rapidamente — assim como a mão de obra da Índia —, dado o alto investimento em educação.

O que se está dizendo é que, como está dando seu salto de qualidade — em seguida a uma rápida e consistente industrialização (diferente da revolução industrial da União Soviética-Rússia, sob Stálin, que não tornou o país competitivo, exceto em armas e petróleo, que é um recurso natural) —, a China está incomodando os Estados Unidos. São os chineses que, dia a dia, tomam empregos dos americanos, com seus produtos com preços acessíveis e numa quantidade espantosa. Não são mexicanos, brasileiros, hondurenhos — cucarachas, como dizia o cartunista Henfil —, atuando no subemprego, que estão ocupando postos de trabalho que interessam aos americanos. São os chineses, além de outros orientais, como sul-coreanos e japoneses — estes dois povos com uma tecnologia de ponta das mais afiadas —, que retiram nacos da hegemonia econômica dos Estados Unidos. Na Europa, a Alemanha, com sua qualidade e capital farto, é seu competidor mais sólido e, ao menos lá, praticamente invencível.

Barack Obama

Há oito anos, depois de um presidente bélico, George W. Bush, os Estados Unidos precisava teoricamente de um estadista relativamente apaziguador, ao estilo de Franklin D. Roosevelt. Daí Barack Obama, que seria um indivíduo para gerir o Império num tempo em que os EUA eram cada vez mais malvistos. Na teoria, ao menos, seria um conciliador.

Barack Obama é visto como um homem de esquerda, talvez seja uma espécie de socialdemocrata. Mas o que se deve dizer de um presidente de um país que, mais do que um país, é um Império, o mais poderoso da História —, ao lado do Romano —, é que não pode nem será inteiramente apaziguador. Daí que precisa criar uma espécie de duplo. O da prática é forte, de um realismo imperturbável. Realpolitik incontornável. O da teoria, que se mistura com a prática — pois é como será visto —, é conciliador, ameno, daí a retórica poderosa do estadista democrata.

Barack Obama parece mas não é dúbio. Quem o percebe como dúbio, ou até indeciso, não conhece a história americana ou a observa com as lentes estreitas do preconceito. Os homens do Pentágono e da CIA percebem o presidente democrata como um indivíduo duríssimo. É a percepção real. Porque o primeiro gestor negro da história americana não chegou ao poder, posto lá pelo establishment, para contemplar a diversidade racial do país. Nada disso. Trata-se do gestor para um tempo — o da primazia dos atos implacáveis acoplados à retórica ligeiramente suave. Os Estados Unidos, depois de uma recessão que beirou a depressão — os americanos de hoje são filhos, netos e bisnetos dos homens da depressão do fim da década de 1920 e início da década de 1930 —, precisavam se recolher, ao menos em parte, para criar estratégias de recuperação econômica. Barack Obama era o homem apropriado para o tempo da reconstrução.

Donald Trump

Pós-Barack Obama, quando os Estados Unidos se reorganizaram — paradoxalmente, numa nação liberal, o Estado contribuiu, de maneira decisiva, para reformatar o capitalismo do país —, os americanos mudaram a percepção a respeito do poder. Quer dizer, não basta recuperar a economia interna, recompondo o sistema de consumo e crédito. É de vital importância criar uma retórica mais agressiva do que a de Barack Obama para enfrentar os competidores externos, notadamente a China, mas não só. Daí os americanos terem optado por Donald Trump, do Partido Republicano, contra Hillary Clinton, do Partido Democrata. Os eleitores da terra de Henry James e William Faulkner não quiseram dar um novo mandato, ainda que indireto, a Barack Obama.

Os adeptos de Hillary Clinton dirão: “A candidata democrata teve quase 3 milhões de votos a mais do que Donald Trump”. É um fato. Mas há outro fato: o sistema americano é assim — é preciso acatar o resultado que sai do colégio eleitoral.

Pode-se criticar Donald Trump por vários motivos, como a retórica excessiva, a pressão psicológica sobre os hispânicos (latinos, para ser menos impreciso), mas, durante a disputa, seguiu as regras institucionais. Ganhou licitamente, portanto. Num artigo publicado no “New York Times”, “Eleição maculada” (publicado no Brasil pelo “Es­tadão”, com tradução de Terezinha Martino), o economista Paul Krugman, prêmio Nobel de Economia de 2008, mais parece um militante adolescente do PC do B ou do PSOL.

Adiante, retomaremos o artigo, mas antes uma retomada da temática anterior. O grande adversário dos Estados Unidos hoje não é mais a Rússia. O país presidido por Vladimir Putin faz barulho, ameaça e pressiona a Geórgia e outros países próximos, e envolve-se no conflito da Síria contra a oposição interna e o Estado islâmico, mas não tem mais expressão mundial. Ah, tem armas nucleares. Tem, é claro. Mas, assim como os Estados Unidos, não tem como utilizá-las. Ter armas nucleares é como se ter certeza de que não se poderá usá-las.

Se Vladimir Putin ainda tem certa influência política, derivada em parte de sua retórica e presença espetacular, a Rússia não tem a mesma expressão econômica de Estados Unidos, China, Japão, França, Inglaterra e Brasil. Se na competição política perdeu força, considerando que a Rússia neste campo não é mais páreo — exceto em áreas facilmente localizadas, como Geórgia e Síria —, por que Donald Trump deve se preocupar com o país do czar visceralmente corrupto da terra de Púchkin e Liev Tolstói?

À primeira vista, as palavras de Donald Trump podem parecer que resultam apenas de impulso e falta de tato. Na prática, há estrategistas ao seu lado, e são homens de visão. O que pensam difere do que a esquerda liberal pensa (especialmente a que escreve em jornais e revistas). Ideias diferentes das nossas não devem ser vistas tão-somente como equivocadas, e sim como são: diversas do que pensamos. Se o perigo econômico não vem mais da Rússia, e sim da China, por que ficar discutindo com os russos de Vladimir Putin, por que não torná-los aliados geopolíticos?

Vladimir Putin e Paul Krugman: o presidente da Rússia teria influenciado a eleição americana, para prejudicar Hillary Clinton e beneficiar Donald Trump. Já o economista de Princeton parece não perceber que a China, do ponto de vista econômico, é o país que ameaça os Estados Unidos

Vladimir Putin e Paul Krugman: o presidente da Rússia teria influenciado a eleição americana, para prejudicar Hillary Clinton e beneficiar Donald Trump. Já o economista de Princeton parece não perceber que a China, do ponto de vista econômico, é o país que ameaça os EUA

Paul Krugman

Retomando Paul Krugman. Trata-se de um dos mais importantes economistas americanos, dotado de uma capacidade analítica que pensa o mundo, e não apenas os Estados Unidos. Entretanto, no artigo sobre Donald Trump, parece um esquerdista dos mais radicais, endossando teorias conspiratórias — ainda que, de fato, tenham base na realidade.

Ora, independentemente da possível interferência do FBI e dos russos de Vladimir Putin, não é preciso respeitar a decisão dos eleitores americanos, que, por meio do colégio eleitoral, elegeram Donald Trump? Tudo bem que a regra do colégio eleitoral não seja a mais adequada, mas, se é a regra, deve ser respeitada.

Paul Krugman escreve, irado, que o FBI e a interferência russa foram decisivos para a derrota de Hillary Clinton. “Hillary perdeu em três Estados, Michigan, Wisconsin e Pensilvânia, por menos de um ponto percentual, e na Flórida por pouca coisa mais. Se tivesse vencido em ao menos três desses Estados teria sido eleita. Existe dúvida de que Putin e o FBI fizeram diferença?” O argumento parece bom, mas por que a influência do FBI e de Vladimir Putin foi seletiva, vigorando apenas em, digamos, três Estados e talvez na Flórida? Por que os americanos de outros Estados não se deixaram influenciar pelo FBI e pelos russos?

Embora seja um homem da ciência, em nenhum momento Paul Krugman detalha como exatamente a influência russa ajudou Donald Trump a ganhar as eleições. Os agentes da FSB (ex-KGB) disseminaram informações enviesadas sobre Hillary Clinton, por meio de hackers altamente especializados. Tudo bem que isto seja até verdadeiro. Mas como se deu a influência dos russos, a ponto de derrotar uma candidata como Hillary Clinton e eleger um candidato como Donald Trump? A ideia é ótima, a conspiração é de primeira linha, Vladimir Putin até contesta a informação — mas intimamente fica contente, pois terá sido o primeiro líder russo a influenciar, de maneira desequilibradora, uma eleição no país mais rico e poderoso do mundo (coisa que nem Ióssif Stálin conseguiu fazer) —, mas, de resto, não fica provado que suas ações, ou prováveis ações, tenham mesmo mudado o jogo político-eleitoral nos Steites.

Como economista — insista-se, dos mais competentes, professor da prestigiosa Universidade Princeton —, Paul Krugman parece pensar como uma lavadeira de roupas, e desde já, peço desculpas, não ao scholar, e sim às lavadeiras. Ele afirma o que lhe parece óbvio: Donald Trump teria escolhido a Rússia como parceiro prioritário. Ora, um possível alinhamento com a Rússia, ao se perceber que o país de Vladimir Putin não é seu grande adversário no campo econômico, notadamente, não significa que Donald Trump pense que se trate de um igual. Uma possível “neutralização” da Rússia — e uma provável aliança para combater o Estado Islâmico no Oriente Médio, visto como um adversário-inimigo mais visceral que a Síria do presidente Bashar al-Assad (os sírios não atacam nos Estados Unidos) — facilitará, é o que se imagina, a luta pela competição econômica com a China. De algum modo, pode-se firmar que a Rússia é um país do passado e que a China é um país do presente e do futuro.

O marqueteiro James Carville disse ao orientar a campanha presidencial de Bill Clinton: “É a economia, estúpido!” Donald Trump parece seguir a risca a ideia: deslocando o problema político para a razão econômica. A China, e não a Rússia, é o adversário, até o grande adversário. É quem, de fato, ameaça o Império americano — suas indústrias e seus empregos. Atrair a Rússia, pacificando os negócios dos Estados Unidos, no Leste Europeu e parte da Ásia (a que fica próxima dos russos), é ganhar musculatura no circuito internacional. O que prova, se for assim, que Donald Trump nada tem de besta fera da direita.

Na conclusão de seu artigo, Paul Krugman escreve: “Estou pensando como manter minha cólera em ebulição”. A raiva o impede de pensar que, apesar da influência russa na eleição, os eleitores americanos são suficientemente esclarecidos para discernir, não são idiotas inteiramente manipuláveis. O economista subestima seus compatriotas e superestima a força dos hackers russos de Vladimir Putin.

Se os intelectuais da esquerda americana, como Paul Krugman — na verdade, mais próximo do liberalismo ou, quem sabe, da socialdemocracia —, discordam das eleições presidenciais por intermédio do colégio eleitoral, o mesmo que elegeu Bill Clinton, marido de Hillary Clinton, e Barack Obama duas vezes (juntos, representam dezesseis anos de poder), que comecem uma cruzada nacional para extingui-lo e instituir eleições diretas, ao estilo das brasileiras. Mas, enquanto o colégio eleitoral for o sistema legal — o único — é preciso aceitar o resultado das eleições, que agradem ou não democratas e republicanos.

“New York Times”, “Washington Post” e a NBC News deram amplo destaque à história dos hackers de Vladimir Putin. Mas o que dizer dos hackers americanos? Eles não influenciaram as eleições contra e a favor de Donald Trump e Hillary Clinton? Com seu jornalismo investigativo dos melhores do mundo, os Estados Unidos poderiam investigar a ação dos hackers e das redes sociais nas eleições deste ano. Talvez descubram que a influência russa pode ter sido muito menor. É provável que a investigação dos e-mails de Hillary Clinton pela polícia federal americana, o FBI — sugerindo mais do que eles continham e significavam — tenha influenciado muito mais os eleitores do que os hackers de Vladimir Putin. Diz-se: Hillary Clinton mente. Sim, mente — assim como Donald Trump e maioria dos americanos. Só que as mentiras da democrata, que nem eram tão graves assim, exceto num país de tradição puritana, como os Estados Unidos (vale ler os romances “A Letra Escarlate”, de Nathaniel Hawthorne, “A Marca Humana” e “Indignação”, de Philip Roth), pesaram mais do que as bravatas de Donald Trump.

Aos que acreditam que a Rússia é uma potência econômica como a de outrora — só tem força ainda por causa das armas, do petróleo e do gás (sem as armas, seria uma Arábia Saudita) —, resta dizer: “É a China, estúpido!” (noutras palavras, ainda é válida a frase anterior: “É a economia, estúpido!”). É o que diria, se não fosse ligado aos democratas, o marqueteiro James Carville, de 72 anos. Quanto a Paul Krugman, se não acordar da hora do pesadelo clintoniano, Freddy Krueger vai pegá-lo…

1 Comment threads
0 Thread replies
0 Followers
 
Most reacted comment
Hottest comment thread
1 Comment authors

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Adalberto De Queiroz

Mais um excelente artigo. Sabe-se que a cólera é filha do Gigante negro o Medo (Mira Y Lopez) e seu consequente: a Ira. O medo que está na raiz da cólera é, sobretudo, medo do fracasso, antecipação às vezes em fantasmas múltiplos que o cérebro do encolerizado fabrica. Levada ao extremo, a cólera pode levar à “isquemia coronarianas” que parece ser o caso de Mr. Krugman. Certo está o Sr. De França Belém quando afirma que: “A raiva o impede de pensar que, apesar da influência russa na eleição, os eleitores americanos são suficientemente esclarecidos para discernir, não são idiotas… Leia mais