Euler de França Belém
Euler de França Belém

Pat Tillman, astro do futebol americano, morreu por fogo amigo no Afeganistão

 

Leitor de Noam Chomsky e Ralph Waldo Emerson, formado em história, Pat Tillman consagrou-se como excelente jogador de futebol americano. Aos 25 anos, era uma espécie de Neymar ianque, num esporte diferente e mais agressivo. O atentado às torres gêmeas do World Trade Center, que matou dezenas de pessoas, deixou-o emocionalmente impactado. Decidiu que, no lugar de filosofar em gabinetes refrigerados, sobretudo por não apreciar a retórica dos políticos, precisava lutar por sua pátria. Alistou-se no exército dos Estados Unidos, enfrentou treinamento duro e se tornou um ranger. Descobriu, anotando quase tudo num diário, que o governo estava mandando para a guerra, no Iraque e no Afeganistão, meninos de 18 anos, em regra despreparados para a batalha e para a vida. Um de seus amigos, na caserna, era o brasileiro Túlio Tourinho, professor universitário nos Estados Unidos. Túlio admirava a pertinácia e a retidão sem concessões de Pat Tillman. A história do jogador-militar rendeu um livro emocionante, sem pieguice, de Jon Krakauer — “Onde Os Homens Conquistam a Glória — A Odisseia de um Soldado Americano no Iraque e no Afeganistão” (Companhia das Letras, 401 páginas, tradução de Ivo Korytowski). Krakauer mostra que a história de um indivíduo singular, como Pat Tillman, pode ser útil para entender a história coletiva. Segue o que disse David Grossman, escritor israelense que perdeu um filho na guerra Israel-Hizbollah: “Sem investigar as trajetórias individuais a discussão histórica jamais poderá ser completa, impossibilitando estabelecer um vínculo emocional entre as gerações posteriores e os acontecimentos históricos”. Grossman diz que é preciso repetir uma pergunta de modo incessante: “O que eu preciso matar dentro de mim para ser capaz de matar outras pessoas ou tolerar o morticínio silenciosamente?”

Casado com Marie Tillman, um relacionamento feliz, e filho de uma família de classe média, Pat Tillman era um jovem bem-sucedido, uma figura exemplar, o que não quer dizer perfeito. Havia recebido uma proposta para trocar o Arizona Cardinals pelo Seattle Seahawks. A proposta era milionária. Preferiu honrar o compromisso com o Cardinals, percebendo apenas 512 mil dólares por ano. Em seguida, valorizado por suas excelentes atuações, assinaria um contrato de 3,6 milhões, em 2002, com o Cardinals. Mas havia se alistado e, mesmo sob pressão familiar, de seu time e de seu agente, Frank Bauer, decidiu cumprir aquilo que havia estabelecido como meta. O governo americano tentou utilizá-lo como peça publicitária; entretanto, com sua dignidade habitual, não concedeu entrevistas nem aceitou que sua imagem fosse usada publicamente — optando pelo silêncio. Nos treinamentos, não aceitava privilégios e atuava como outro soldado qualquer. Já no Exército, nas anotações de seu diário, manifestou dúvidas e chegou a admitir que poderia ter cometido um erro. Mesmo assim, ao lado do irmão Kevin, que também havia se alistado, foi para o Iraque. Lá mais observou do que participou da luta. Quase sempre desencantado com a violência, muitas vezes desnecessária, dos militares americanos: “Tivemos líderes dando ordens de atirar em pessoas inocentes, ordens estas ignoradas por soldados rasos com a cabeça mais no lugar”. No diário, anotou: “Eu com certeza ouvirei meus instintos antes de mergulhar fundo em qualquer trama insensata” dos comandantes militares.

Ao voltar para os Estados Unidos, seu agente frisou que, se quisesse, poderia deixar o Exército. Havia uma brecha legal. Pat Tillman não aceitou a proposta: “Devo a eles três anos. Não voltarei atrás na minha palavra. Vou permanecer no Exército”.

Ao lado de Kevin, com quem mantinha forte ligação, Pat Tillman foi enviado ao Afeganistão, para enfrentar as forças dos rearticulados Talibã e Al-Qaeda, na Operação Tempestade na Montanha, em abril de 2004.

Em campo, em busca dos homens do Talibã e da Al-Qaeda, Pat Tillman, demais soldados e oficiais chegaram a passar fome. “Pat sentiu um desejo de comer tão intenso que foi até a pilha onde os Rangers jogavam o lixo e vasculhou os restos de comida em meio aos ratos”, conta Josey Boatright. Krakauer revela que o Talibã e a Al-Qaeda se tornaram fortes no Afeganistão porque os Estados Unidos de George Walker Bush concentraram-se no Iraque e reduziram suas forças e gastos no outro país. Ao mesmo tempo, embora receba milhões de dólares dos americanos, o Paquistão faz jogo duplo — apoia os Estados Unidos, mas permite que seu território seja usado pelo Talibã e pela Al-Qaeda.

Dentro do território do Afeganistão, as forças às quais pertencia Pat Tillman, apesar da orientação relativamente segura do tenente David Uthlaut, começaram a se desorganizar. O soldado afegão Sayed Farhad, que lutava ao lado dos americanos, é o primeiro a cair pelo fogo amigo. Em seguida, foram atingidos, pelo fogo fratricida, Uthlaut e Jade Lane. Os soldados americanos continuaram atirando, apesar dos gritos do sargento Horney: “Aqueles lá em cima são amigos!” “Em quem vocês estão atirando? Sou Pat Tillman!” Os tiros não cessaram. Trevor Alders, exímio atirador, acertou a testa de Pat Tillman, matando-o imediatamente, em abril de 2004.

No lugar de esclarecer a morte de Pat Tillman, o comando militar no Afeganistão começou a espalhar a informação de que o “herói” havia sido morto em combate, chegando a iludir sua família, a imprensa e o público americanos. “Os indícios disponíveis mostram que o 75º Regimento de Rangers envolveu-se numa conspiração elaborada para enganar deliberadamente a família, e que funcionários de alto escalão da Casa Branca e do Pentágono apoiaram o embuste. Como salienta o depoimento de [Jeffrey] Bailey, a única razão pela qual o Exército enfim decidiu confessar tudo foi o fato de que Kevin estava prestes a descobrir a verdade por si próprio”, diz Krakauer. A pressão da mãe de Pat Tillman foi decisiva para que a história verdadeira viesse à tona.

O único exagero de Krakauer, impressionado com a integridade moral de Pat Tillman, é compará-lo ao super-homem descrito por Nietzsche. Mas acerta quando diz que o soldado foi derrubado por uma virtude trágica. Ele acreditava em noções como honradez e princípios. Militares e políticos, como Bush filho, só acreditam em realpolitik. Honra e princípios devem servir à força, ao poder.

Talibã e Al-Qaeda agem no Paquistão

“As forças do Talibã e da Al-Qaeda agora se deslocam livremente pelas regiões dos pashtuns dos dois lados da fronteira Afeganistão-Paquistão, e grande parte da comunidade de inteligência dos Estados Unidos acredita que Osama bin Laden — ainda à solta — esteja escondido em local seguro do lado paquistanês da Linha Zero. Os ataques contra as forças norte-americanas e da Otan no Afeganistão aumentaram substancialmente nos últimos três anos. Os insurgentes criaram centenas de bases e campos de treinamento novos nas Áreas Tribais do Paquistão. Seth Jones, autor de um estudo muito conceituado para o Rand National Defense Research Institute intitulado ‘Counterinsurgency in Afghanistan’ (Contra Insurgência no Afeganistão), alertou em junho de 2008: ‘Os Estados Unidos enfrentam hoje uma ameaça da Al-Qaeda comparável à que enfrentaram em 11 de setembro de 2001’.

“Existe um amplo consenso por todo o espectro político de que a expansão alarmante da insurreição afegã ocorreu porque a preocupação do governo Bush com o Iraque levou a uma estratégia apelidada de ‘economia de forças’ (um eufemismo para ‘guerra barata’) quando se tratou do Afeganistão. Mas os problemas crescentes nesta última frente são atribuíveis a muito mais do que políticas mal concebidas. As maiores ameaças à paz e à estabilidade no Afeganistão estão agora firmemente enraizadas fora de suas fronteiras, no Paquistão, onde o Talibã e a Al-Qaeda encontraram refúgio seguro desde o início de 2002. Graças à natureza intricada, incontrolável e cada vez mais volátil da política paquistanesa, subjugar as forças insurgentes que investem furiosamente dentro do Paquistão representa um dilema tão complexo que não se sabe como os diplomatas e líderes militares americanos poderão tentar atacar o problema ou mesmo achar uma solução.”

(Trecho do livro “Onde Os Homens Conquistam a Glória”, de Jon Krakauer)

1 Comment threads
0 Thread replies
0 Followers
 
Most reacted comment
Hottest comment thread
1 Comment authors

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Wando Barbosa

Os companheiros de guerra de Tillman deveriam se envergonhar, como confundem um americano com essa raça maldita!