Euler de França Belém
Euler de França Belém

Para além do tédio, tendo à vista Jorge Braga e Paulo Garcia, vivamos o direito de sorrir, sem censura

Adalberto de Queiroz

Numa crônica que poderia classificar como aguda, o escritor Otto Lara Resende dizia que todos temos “direito ao tédio”.

Seu argumento — se isso é matéria de preocupação do cronista (decisão que deixo para especialistas) — vem de tecer o curto fio da meada com Afonso Arinos, Drummond, até chegar a Paul Valéry (síntese):

“Les événements m’enuient”

(Os acontecimentos me entediam). “Ou me chateiam, na tradução livre”, diz o Otto em sua página de 1991.

— “Outro dia me apanhei bocejando de tédio diante da televisão”, diz o cronista que era do tipo insone. É o bastante em matéria da Razão para me fazer refletir sobre como outro grande — o poeta gaúcho Mario Quintana traduzia esse tédio. E sobre a política (a realidade) o que tens a dizer, poeta? — teria lhe perguntado um jovem repórter.

— Ah, eu nada tenho a ver com ela. Só estou imerso na realidade. É tudo.

E se não foi exatamente isso que disse o poeta gaúcho, assim é que me entrou o dito memória adentro; sendo o caldo que me resta na memória, e com o qual desejo levar o leitor, agora, a pensar sobre o episódio de nosso alcaide contra o humorista (Garcia versus Jorge Braga — prefeito vs. humorista de O Popular).

(…) Ah, sim, agora recuperei os versos do Quintana:

Soneto V

Eu nada entendo da questão social.

E faço parte dela, simplesmente…

E sei apenas do meu próprio mal,

Que não é bem o mal de toda a gente,

 

Nem é deste Planeta… Por sinal

Que o mundo se lhe mostra indiferente!

E o meu Anjo da Guarda, ele somente,

É quem lê os meus versos afinal…

(…)

E este cronista-blogueiro, poeta-menor, imerso que está nessa coisa chamada realidade política, vê na crônica de Otto uma acuidade, uma agudeza notável, que a faz tornar viva.

Viva no justo momento em que o partido do nosso prefeito municipal tenta impor ao país sua vontade de controlar a imprensa, surge uma polêmica que intitulei “Garcia versus Braga”.

E assim sinto-me como o Quintana (aquele diante da questão social), ou como o Otto Lara Resende (este diante da pena-de-morte). Semelhante a tantos outros, diante da mesmice da discussão sobre censura em nosso país (e alhures): “Dessa discussão não nasce Luz, só perdigotos” (O.L.R.) . E, portanto, a crônica de Otto se reedita, pois, morro de tédio.

Afinal, “le monde est frivole et vain, tant qu’il vous plaira. Pourtant, ce n’est point une mauvaise école pour un homme politique”, afirmava o escritor Anatole France em outro contexto. Sou forçado a concordar que “Ah, o mundo — o mundo é frívolo e vão, de tal modo que até ao choro pode nos levar. No entanto, não é de modo algum má escola para um homem político…”.

Veja, sr. prefeito, aonde nos leva a escola do mundo.

E se a algum leitor, a quem a política não tenha destituído ainda o senso de humor (e espero que nunca detenha o direito) de rir ou chorar; se para esse leitor persiste válida a crença de que uma charge não pode nos fazer entrar em choque com a crença maior nos valores da democracia, repito: o tédio não ataca nem por tão pouco o riso se aplaca… Vivamos o direito de sorrir e chorar, sem censura!

E mesmo que pareça “off-topic”, finalizo recomendando (re)leitura de um texto famoso (agora reabilitado por Daiana, em administradores.com) intitulado “Mensagem a Garcia” — algo que só um herói (como diz a Daiana no blog linkado — “…o herói é aquele que dá conta do recado: que leva a mensagem a Garcia! – seja humorista ou anônimo portador de u’a mensagem importante.

Porque Braga não é Rowan, o alcaide só tem Garcia no sobrenome, mas a história vale a pena pelo que nos ensina sobre valores hoje tão ausentes — “Mensagem a Garcia” é uma expressão corrente, para designar uma tarefa muito difícil e espinhosa, mas que é absolutamente necessária, e precisa ser realizada de qualquer maneira, sob risco de grandes perdas para a empresa”.

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Post-Post.: Aos advogados do alcaide, ressalto que, em princípio, trata-se o último de texto não-censurável, pois que corre mundo em diversos idiomas, de autoria de Helbert Habbard (1899). Confira: http://bit.ly/1Jz9Lei.

Adalberto de Queiroz é poeta.

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Cassiano Brito

Excelente Reflexão! O contexto político brasileiro realmente tem causado uma grave reação tediosa nos cidadãos, nos deixando a margem de certas questões que são de extrema importância para a liberdade de expressão e democracia no país. A imprensa é o pulmão da democracia, pois ela (quando não comprada), garante a liberdade de expressão dos cidadãos e tem o poder de informar aos cidadãos o que realmente está acontecendo no cenário político e dá voz a verdadeira opinião pública e aos valores democráticos. Há uma desinformação mascarada pela propaganda política atual, enquanto nos sentimos tediosos pelas mesmas noticias de roubalheira e… Leia mais