Euler de França Belém
Euler de França Belém

A paixão de Fernando Henrique Cardoso pela bela atriz sueca Ingrid Bergman

Ex-presidente diz que Jair Bolsonaro é um “direitista inconsciente”, afirma que adora Bola de Nieve e sugere que Otavio Frias Filho “tem a alma torturada”

Ingrid Bergman e Fernando Henrique Cardoso: o ex-presidente da República demonstra entusiasmo pela beleza da atriz sueca que fez sucesso em Hollywood

No campo intelectual, aos menos nos “Diários da Presidência” (o comentado é o terceiro volume, que vai de 1999 a 2000), Fernando Henrique Cardoso parece nutrir certo menosprezo pelos intelectuais — que, em tese, seriam nefelibatas. O crítico literário e sociólogo Roberto Schwarz é apontado como integrante da intelligentsia que vive imerso no mundo dos conceitos, longe da realidade. O sociólogo e cientista político Leôncio Martins Rodrigues, estudioso do sindicalismo brasileiro, “pouco sabe das coisas concretas” do mundo de Brasília.

Ofilósofo José Arthur Giannotti, para ficar atento à realidade, precisa de suas informações a respeito da realpolitik. Fica-se com a impressão de que é o intelectual prêt-à-porter de FHC.
FHC demonstra apreço por cinema e literatura. Em outubro de 1999, conta que foi ao cinema, com sua primeira mulher, a antropóloga Ruth Cardoso (faleceu em 2008), ver “De Olhos Bem Fechados”, de Stanley Kubrick. Mas não faz nenhum comentário a respeito da qualidade do filme. Em janeiro de 2000, relata que ouviu a trilha sonora de “Casablanca”, que avalia como “admirável”. O filme contém “alguns diálogos entre a Ingrid Bergman e o Humphrey Bogart que são de uma beleza, de uma força extraordinária”.

Em 1962, Fernando Henrique, Ruth Car­doso, o filósofo Bento Prado Júnior e Lú­cia Seixas Prado assistiram uma peça de Ibsen, “Hedda Gabler”, no Théàtre Mont­par­nasse, em Paris. Era estrelada por In­grid Bergman, que o presidente percebe como “aquela maravilha de mulher”. “Quando saímos do teatro, fazia muito frio, o meu carro congelava — era um carro antigo, um Dauphine — e nós tínhamos que botar um óleo para lubrificar o acelerador, senão o acelerador ficava duro. Tínhamos de queimar jornal e botar embaixo do carro para o óleo esquentar e podermos sair. Enquanto fazíamos isso, de repente quem surge perto de nós? Ingrid Bergman! Foi um susto para todos, ela uma mulher de uma beleza, de uma força, de uma presença incrível.” Mesmo vários anos depois, o tucano parece mesmerizado pela beleza e pelo glamour da atriz sueca que conquistou Hollywood e o mundo.

Bola de Nieve, pianista e cantor cubano, é ouvido por Fernando Henrique. O ex-presidente diz que gosta “muito” de sua música, “sobretudo o CD ‘Para Siempre’, que tem uma música chamada ‘Vete de mí’ [https://www.youtube.com/watch?v=lDTLIwhF4XE], cantada de uma maneira admirável”. Difícil discordar do tucano. Ao lado de Bebo Valdez, Rubén González e Chucho Valdez, Bola de Nieve é mesmo uma das maravilhas musicais de Cuba. E, claro, há os excepcionais cantores Ibrahim Ferrer (de voz aveludada como a de Mel Torme), Compay Segundo (penso nele quase como o Martinho da Vila de Cuba), Omara Portuondo, Célia Cruz.
Fernando Henrique qualifica de “admirável” o filme-documentário “Buena Vista Social Club”, dirigido pelo alemão Wim Wenders e produzido pelo guitarrista americano Ry Cooder. “É um filme muito interessante, cantores cubanos que estavam já sem cantar, homens de muita idade, com energia, entusiasmo e a simpatia desse povo cubano que é de tão fácil aproximação conosco. É espantosa a similitude, a raiz negra, provavelmente, é o que mais pesa na cultura cubana, e aqui também sobretudo na música.”

A Orquestra Filarmônica de Berlim é apontada como extraordinária por FHC. “Recordo de tê-la ouvido tocar em Berlim há uns vinte anos [o registro dos “Diários” é de julho de 1999], fiquei fascinado, creio que era o [Herbert von] Karajan quem dirigia.”

Em agosto de 2000, FHC viu o filme “Cronicamente Inviável”, de Sérgio Bianchi. “Bom filme, forte, mostra um lado desagradável do Brasil, mas que precisa ser visto, aumenta a consciência sobre nossas mazelas.” Um pouco antes, assistiu “Eu, Tu, Eles”, filme “produzido pela Flora Gil, mulher do Gilberto, o diretor [Andrucha Waddington] é um rapaz muito bom”. Em abril e maio de 1999, embora tenha visto “O Resgate do Soldado Ryan”, de Steven Spielberg, e “Além da Linha Vermelha”, de Terrence Malick, o presidente não os comenta. Em abril de 2000, assistiu “Beleza Americana”, de Sam Mendes, mas nada diz sobre o conteúdo. “A Vida é Bela”, de Roberto Benigni, é “um filme interessante, muito bom, gostei bastante”. O filme “Chá Com Mussolini”, de Franco Zeffirelli, é “admirável”.

Jair Bolsonaro, Otavio Frias Filho, Bola de Nieve, Caetano Veloso e Carlos Fuentes são mencionados no livro do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso

Em dezembro de 2000, Fernando Henrique disse que leu “uma entrevista admirável” do cantor e compositor Caetano Veloso, que havia lançado o disco “Noites do Norte” (que não é comentado). FHC sublinha que o artista queixa-se da mesma maneira que ele: “De estarmos sujeitos aos caprichos da imprensa. E, disse ele, isso não tem solução, porque a imprensa é medíocre e muda o que se escreve ou diz de forma medíocre. Transformam a ironia, o gosto por certa irreverência, autoirreverência, em uma boutade boba”. Difícil discordar, no geral. Há textos na imprensa brasileira que deixam desanimado o mais paciente e delicado dos leitores, e nem se está falando de possíveis distorções. Porém, a conclusão que extraio das reclamações frequentes, em várias páginas dos “Diários”, é que o ex-presidente não tem nenhum apreço pela imprensa crítica. Quando um jornal, como o “Estadão”, elogia seu governo ou suas ideias, aí é pródigo nas loas aos repórteres e, sobretudo, articulistas.

Se Deus está nos detalhes, o poder parece não ter retirado a capacidade de Fernando Henrique perceber a turma quase invisível que trafega pelos palácios e gabinetes dos ministérios. Ele conta que uma das faxineiras do Palácio da Alvorada pediu-lhe “uma bibliografia sobre o regime militar de 1964 até o Sarney, 1985”. “Dei o Boris Fausto e Jorge Caldeira. Perguntei para quê, é porque ela está fazendo o sétimo ano do curso e quer ler sobre esse tema. Isso é uma coisa boa, bem brasileira. O pedido em si e também pela empregada que vem e pede ao presidente da República um livro e o presidente entrega os seus livros pessoais com dedicatória dos autores. Ela ficou contentíssima, é um novo Brasil”. O curioso é que o sociólogo, muitíssimo bem informado, não arrolou autores mais qualificados a respeito do período (Boris Fausto e Jorge Caldeira são excelentes, mas a respeito de outros temas e períodos históricos). Mas é fato que Daniel Aarão Reis, Elio Gaspari e Ronaldo Costa Couto publicaram livros de excelente qualidade posteriormente à anotação de FHC, que é de outubro de 1999.

Millôr Fernandes talvez tenha sido o crítico mais corrosivo da literatura de José Sarney. Num texto polêmico, o filósofo do humor disse que, quando o maranhense escreve, a Língua Portuguesa grita… de dor. Fernando Henrique parece não concordar: o livro “Crônicas do Brasil Con­tem­porâneo” não seria de má qualidade. “Sar­ney é um homem inteligente.” “Mui­tas” das crônicas, publicadas na “Folha de S. Paulo”, são de “boa qualidade”.

Em agosto de 1999, Fernando Hen­rique leu a biografia “Rio Branco — O Bra­sil no Mundo”, de Rubens Ricupero. A única coisa que diz é que se trata de uma “edição muito caprichada” e que leu o livro “a fundo”. FHC diz que “Notícias do Planalto”, de Mario Sergio Conti, é um re­trato preciso da imprensa nos tempos de Fer­nando Collor como candidato e, de­pois, como presidente da República. “Memórias de Adriano”, romance histórico de Marguerite Yourcenar, “é muito bom”.

Em outubro de 1999, Fernando Henrique leu o livro “Shadow: Five Presidents and the Legacy of Watergate”, de Bob Woodward. O presidente diz que o livro é interessante e que o caso “Watergate mudou a vida da Presidência americana”. Entre outras coisas, levou o presidente Richard Nixon à renúncia e fortaleceu o jornal “Washington Post”, no qual o então “foca” Bob Woodward trabalhava. A cobertura independente tornou o “Post” um jornal mais nacional — ainda era meio provinciano —, um par para o “New York Times”.

Socialismo e atraso

Numa conversa com Ronaldo Lessa, governador de Alagoas, em agosto de 2000, Fernando Henrique sugere que leia o livro “Les Cartes de la France”, de Hubert Védrine, o chanceler da França. “Ronaldo, você, que é uma pessoa de cabeça mais aberta, precisava ler essas coisas, para ver o que o [Lionel] Jospin diz, ver o que pensam os socialistas da Europa, porque o socialismo no Brasil virou um atraso, virou uma burrice, você não é assim.” Lessa respondeu: “Mas eu não leio em francês”. FHC replicou: “Leia em português, leia o último do Hobsbawm. Não ‘A Era dos Extremos’, que eu li recentemente [“O Novo Século”] e é sobre o século 21. Abra a cabeça, você não pode deixar que o PSB, que a esquerda, se confunda de tal maneira com o atraso como está acontecendo. Vocês são contra o que é bom para o país, tudo que é progressista!”

Embora cite o filósofo inglês John Gray, o presidente parece que não conhece sua obra. Ou não conhecia, em abril de 1999, quando fez a anotação. Mas elogia outro autor. “Li [em junho de 1999] um artigo do Manuel Castells, que está aqui conosco, gostei muito. Chama-se ‘Information Technology in Global Capitalism’. Um texto brilhante, em que ele analisa o sistema capitalista atual em termos de redes, networks, como fluem os capitais”. Em janeiro de 1999, FHC leu “Quando Nietzsche Chorou”, de Irvin D. Yalon. “Gostei muito.” José Serra emprestou-lhe o romance histórico-filosófico (e até psicanalítico).

Durante a posse de Vicente Fox, presidente do México, em dezembro de 2000, Fernando Henrique encontra-se com Gabriel García Márquez e Carlos Fuentes. O autor de “Cem Anos de Solidão” o tratou de maneira “amável”. “Almocei com Carlos Fuentes, que foi me ver, gosto do Carlos Fuentes, temos relações boas, antigas.” Mas o presidente não diz se leu obras do colombiano e do mexicano.

Jair Bolsonaro

Num comentário de abril de 2000, Fernando Henrique, dono de um estilo meio seco, roça o literário: “… e esses campos aqui ao lado de Brasília, que eu conhecia agreste quase, sem agricultura, hoje dão a impressão de que estamos percorrendo o Meio-Oeste americano. Avisto até mesmo alguns pedaços da Europa e um colorido bonito da soja, algumas já prontas para ser colhidas, alguns setores ainda verdes, muito bonito realmente, assim como lá na fazenda [está falando de sua propriedade no município de Buriti, em Minas Gerais], os passarinhos cantando, aquelas veredas extraordinárias lá à la Guimarães Rosa do ‘Grande Sertão: Veredas’. Vereda é um buritizal, a água que corre”.

Fernando Henrique gosta de jogar pôquer, algumas vezes com o historiador Boris Fausto. Critica Jair Bolsonaro: “É um não digo que sem caráter, mas é um obsessivo, um direitista inconsciente”. E relata, meio surpreso, que Jader Barbalho “é uma pessoa que lê bastante e tem certa visão das coisas”. Leu “Diplomacia”, de Henry Kissinger, e “Setenta e Seis Anos de Minha Vida”, de Hjalmar Schacht. Num ataque brutal, FHC diz que o diretor de redação da “Folha de S. Paulo”, Otavio Frias Filho, Otavinho, “tem uma alma torturada”. A relação do ex-presidente com a “Folha”, espécie de “seu” jornal, é de amor e ódio. l

Uma resposta para “A paixão de Fernando Henrique Cardoso pela bela atriz sueca Ingrid Bergman”

  1. Este presidente lia… e o sucesso dele o que fazia no tempo livre?
    Os ex-presidentes franceses até Giscard D´Estaing tinham o hábito de lançar uma antologia do melhor da poesia francesa. Imaginam isso na era pós-FHC?

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.