Os Murdoch do mundo e a imprensa como serviçal do poder

Lendas. Fantasias de bem montados e luxuosos gabinetes, cujas vítimas são sempre contadas aos milhares de milhares

Halley Margon

De Barcelona

“Aqui é o Oeste, senhor. Quando a lenda vira um fato, publique-se a lenda.” Do filme O Homem Que matou o Facínora

Ao senador Ransom Stoddard (James Stewart) quem sabe ainda restasse alguma dúvida sobre quem teria matado Liberty Valance (Lee Marvin), se ele próprio ou se Tom Doniphon (John Wayne) — no filme “O Homem Que Matou o Facínora”, de John Ford, 1962. Pode ser que, por conveniência, comodidade ou fosse lá pelo que fosse, tenha se convencido da autoria do ato heroico que livrou a pequena Shinbone dos desmandos do facínora. Mas a partir do senador Stoddard, não há quem não saiba que no Oeste (assim como no Leste…) o que conta é a lenda, e não quem de fato executou o fora-da-lei permitindo que o Estado se impusesse para agasalhar o fabuloso progresso.

Lee Marvin, John Wayne e James Stewart: estrelas do filme “O Homem Que Matou o Facínora” | Reprodução

Se a economia vai bem, a quem interessa se fulano ou sicrana fez ou deixou de fazer um boquete no mais alto mandatário da nação sem o devido consentimento da primeira-dama? E, convenhamos, que importância tem um boquete ou quem o pratica e em quem? O que, sim, deveria importar, é a hipocrisia dos ferrenhos defensores da família burguesa, dos matrimônios perfeitos, da fidelidade implacável e do controle do desejo. Mas à República, o que importa a hipocrisia?

O cuidado com a imagem, para a qual a condescendência da imprensa e a boa vontade do (e)leitor em acreditar e mesmo ser enganado é parte decisiva, chega aos detalhes. Se Barack Obama concede uma entrevista a algum dos grandes jornais do planeta, as normas estabelecidas pelos aparatos de comunicação que estão por detrás do ex-presidente chegam ao disparate de fornecer as fotografias que serão utilizadas na publicação da matéria. Para evitar descontinuidades, ruídos ou capturas indesejadas à manutenção e engrandecimento do ícone os ângulos, fundos, filtros e demais apetrechos que afinal produzem uma imagem fotográfica deverão ser rigorosamente controlados e repetidos — é assim para a Coca-Cola, por que não seria para Obama?

Aos mais desavisados talvez espante que a imprensa (ou as grandes empresas de comunicação) aceite participar dessas encenações. Mas quem dera fosse esse o único tipo de encenação na qual essas empresas aceitam participar. E a questão já não é mais naturalmente apenas a de construir ou manter lendas: a invenção de fatos e a mentira pura e simples passaram a ser parte permanente dos relatos.

Os tambores da guerra

Claudio Abramo: o jornalista que revolucionou as redações dos jornais “Estadão” e  “Folha de S. Paulo” | Foto: Reprodução

E, no entanto, nós, em certos momentos, quase que chegamos a mitificar a pureza e as boas intenções da imprensa. E, sim, é verdade, há alguns breves lapsos nos quais aqui e ali mesmo as grandes empresas de comunicação (porque é delas afinal que estamos falando) se comportam com decência cumprindo à risca o que asseguram ser seu dever de ofício: “ter o rabo preso com o leitor”. Mas são apenas lapsos onde uma articulação muito específica dos astros faz com que os interesses desses senhores ou famílias se aproximem e quase se confundam com os de uma parte considerável da nação. A “Folha de S. Paulo” de meados dos anos 1970, por exemplo, quando a sociedade civil dava mostras de haver se cansado da ditadura, enxergou naquele momento a grande oportunidade de se tornar a voz e a cara do país que estava para nascer. Quem dentre nós que nos opúnhamos à ditadura não amava a “Folha” criada pelo diretor de redação Claudio Abramo? E, não, a “Folha” não era um jornaleco de militantes de esquerda; ao contrário, rapidamente se tornou o maior diário do país, com seguidos recordes de vendas e assinantes. Exatamente, parece, porque teve o rabo preso com o leitor.

Pena que durou pouco. Logo tornou-se o standard dos grandes jornais de qualquer país, disposto a sacrificar a verdade conforme as conveniências políticas, forçar tendências e maquiar fatos para favorecer seus mais ou menos estreitos grupos de parceiros e amigos — os Grandes Interesses. (Um ou outro sinal indica que, face ao agigantamento do monstrengo para o qual elas próprias abriram as portas em meados da década passada, as grandes empresas de comunicações brasileiras estão agora mesmo entrando em novo surto de bom-mocismo, tentando se reconciliar com a nação. Veremos até onde vai.)

O que me vem à cabeça é a empáfia dos liberais e dos planejadores e associados no comando do Estado anunciando a perfeição do mundo construído à imagem e semelhança dos seus próprios apetites e do seu incontrolável egoísmo

Não há nada de muito novo, tanto aí, no sul do hemisfério, quanto aqui, no norte, tanto a leste do Atlântico, quanto no Oeste bravio, tanto agora quanto no longínquo despertar do século 20, quando um austríaco desaforado fundou seu próprio jornal (“Die Fackel”, “A Tocha”) para desancar a imprensa do império e o servilismo dos seus colegas jornalistas aos inconfessáveis interesses dos magnatas.

Karl Kraus: jornalista e escritor austríaco | Foto: Reprodução

Na Viena que se encaminhava para a guerra com entusiasmo fervilhante, Karl Kraus (1874-1936) foi dos poucos (junto com os comunistas e anarquistas) a se opor, encarniçadamente, à loucura nacionalista e à carnificina que se anunciava. Tinha lá suas idiossincrasias e implicâncias e brigou com igual intensidade contra a nascente psicanálise e o feminismo, mas na maioria das vezes acertou o alvo e teve a bravura de Antígona ao enfrentar o poderoso Estado austro-húngaro e seus porta-vozes de todos os matizes. Em março de 1931, Walter Benjamin publicou no Frankfurter Zeitung um texto cujo título era simplesmente “Karl Kraus” — Kraus ainda era vivo, morreu em 1936, aos 62 anos. Ainda hoje, gente de estatura escreve sobre ele. Num artigo titulado “A Guerra Perpétua”, onde se propõe a escrever uma pequena “não-introdução” a um dos grandes clássicos de Kraus (“Os Últimos Dias da Humanidade”), o crítico italiano Roberto Calasso (recém falecido) parte do que havia escrito Elias Canetti, um dos outros leitores do austríaco: “Muito dificilmente alguém poderia atrever-se a escrever uma introdução para ‘Os Últimos Dias da Humanidade’. Seria não só arrogante, mas supérflua”, escreve Canetti (Roberto Calasso, “Os 49 Degraus”, Companhia das Letras, 1997).

De Kraus a Hersh e Fisk

Seymour Hersh: jornalista americano | Foto: Reprodução

Quase um século depois, o espetáculo de artimanhas montado para que uma guerra aconteça se realiza numa enfadonha repetição de roteiros e personagens. E com a devida vênia a Kraus, dessa vez também apareceram as poucas exceções para de novo confirmar a subserviência da free press ao sistema de poder — porque quando soam os tambores da guerra e “o Estado decide convocar seus cidadãos para matar os inimigos, aí é quando o Quarto Poder se torna um batalhão de vanguarda a preparar o ânimo da tropa e o espírito da nação” (“A Noite Belga”, página 99).

Quando, logo após invadir o Afeganistão a pretexto de caçar Bin Laden, o bando de Bush decidiu ocupar também o Iraque a justificativa foi a existência de armas de destruição em massa. O pacote foi montado a toque de caixa e rapidamente distribuído para as mais prestigiosas redações do mundo civilizado. A mistura de grosseiros interesses comerciais e propaganda civilizatória de quinta categoria saltava aos olhos de quem quisesse ver. “Aquilo era um absurdo total”, conta Seymour Hersh. Mesmo assim, de bom grado os mass media fizeram com que a manchete de gabinete se esparramasse como um tsunami pelas vastas planícies mentais do planeta.

Robert Fisk: jornalista britânico | Foto: Reprodução

À frente dessa onda devastadora, uma meia dúzia de quixotes denunciavam a farsa. Hersh era naturalmente um deles, o outro, um repórter como Hersh, nascido na Inglaterra e que residiu, por décadas, no Líbano, chama-se Robert Fisk (1946-2020).

“As mentiras que forneceram uma desculpa para nossas tropas invasoras em 2003… armas de destruição em massa, laços com a Al Qaeda… Eles nos enganaram. No entanto, às vezes acho que queríamos ser enganados, que queríamos ser conduzidos… para matar e galopar até a beira do precipício com o entusiasmo desesperado do terrorista suicida” (“La Era del Gerrero”, Ediciones Destino, 2009).

No documentário sobre sua carreira (“This is not a Movie”, Yung Chang, 2020), Fisk conta que era repórter do “The Times” e o jornal simplesmente publicava o que ele apurava. Quando Robert Murdoch comprou o jornal, diz, “prometeu que não faria mudanças, que não influiria na linha editorial. Claro que fez”. E logo os títulos das matérias passaram a contrariar o conteúdo do que informava o repórter. “Então eu decidi que iria para o ‘The Independent’… (que) foi fundado para acabar com a dependência da imprensa dos impérios Murdoch do mundo.”

Rupert Murdoch: jornalismo como mero negócio | Foto: Reprodução

O ocaso no Afeganistão

Um pouco tais coisas me vieram à memória porque algumas efemérides me soam encantadoras ou, pelo menos, evocadoras. Não me ocorre uma análise das lições deixadas pelas duas décadas de ocupação do Afeganistão. Nem sei se existem ou se há interessados. Mas passados esses 20 anos, o que me vem à cabeça é a empáfia dos liberais e dos planejadores e associados no comando do Estado anunciando a perfeição do mundo construído à imagem e semelhança dos seus próprios apetites e do seu incontrolável egoísmo.

Lendas. Fantasias de bem montados e luxuosos gabinetes, cujas vítimas são sempre contadas aos milhares de milhares.

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