Orquestra Sinfônica Jovem mostra paixão pela música (para além da erudita) e emociona Bela Vista

Sucesso de orquestra liderada pelo maestro Eliel Ferreira inspira cidade a ter banda após apresentação para mais de 3 mil pessoas  

Orquestra Sinfônica Jovem de Goiás em ação na cidade de Bela Vista e Goiás | Foto: Candice Marques

Nilson Gomes

Muito obrigado às moças e aos rapazes da Orquestra Sinfônica Jovem de Goiás (OSJG), que se apresentaram na noite de sábado, 9, em Bela Vista de Goiás, na Grande Goiânia. O sucesso foi absoluto: mais de 3 mil pessoas, metade delas sentada em cadeiras na frente dos músicos, outro tanto espalhado pelos arredores, às margens do Lago Sussuapara, no centro da cidade. Mas não é essa a medida do sucesso, porque o som de má categoria que zune em rádios do País inteiro também reúne multidões. O que dá ideia do êxito é a emoção provocada. Rebeca tem 20 meses, é filha de um músico local, Oséas Figueredo, e tomou um susto quando os primeiros acordes povoaram o ar. Foi o tempo inteiro assim: ela imitou o maestro Eliel Ferreira ao movimentar uma batuta imaginária, sorria, aplaudia. A prefeita Nárcia Kelly chorou em alguns momentos da apresentação. Não foi a única. Na fila atrás de onde estava o repórter, ao menos uma pessoa foi às lágrimas quando tocado o tango “Por una cabeza”, que Al Pacino dança em “Perfume de mulher”.

Por isso, por tudo, muito obrigado aos rapazes e às moças da Orquestra Sinfônica Jovem de Goiás (OSJG). Vocês não têm ideia do serviço que prestaram não apenas à orquestra, mas à música. Não à erudita apenas, mas à música. Música. Até porque a erudição está onde menos se espera. O maestro Eliel exibiu um repertório que incluiu “Boate azul” e Tom Jobim, clássicos do sertanejo e Felix Mendelssohn. Aliás, quando foi mostrada a Marcha Nupcial, usada por casamentos em Bela Vista e no restante do mundo, o maestro perguntou à plateia se alguém sabia o nome do compositor. Outra surpresa: algumas pessoas responderam, todas elas corretamente. Mas a surpresa do público foi maior: de todas as dezenas com as quais o Jornal Opção conversou ao fim da apresentação, a frase que resume é “eu não sabia que eles iam tocar música que eu sei cantar”. E tocaram. E o público cantou junto. E aplaudiu.

Então, muito obrigado, rapazes e moças da Orquestra Sinfônica Jovem de Goiás. Valeram a pena seus esforços intermináveis e sua dedicação total à música. Valeu a pena vocês ficarem horas e horas ensaiando, dias e dias aprendendo, semanas após semanas repetindo as notas até a perfeição, meses e meses recebendo um salário ridículo (e agora, ao menos, estão empregados, porque a maior parte do tempo nem isso). Valeu a pena investirem os melhores anos de sua vida para que 3 mil pessoas pudessem ter as melhores carícias que seus ouvidos já receberam, o toque da música de qualidade. Se estivessem na plateia vendo a alegria de uma gente que nunca havia ouvido uma orquestra, vocês concluiriam que valeu a pena passar a juventude treinando, treinando, treinando, porque esse treino resultou em felicidade para alguém, para milhares de alguéns, e quem faz uma pessoa feliz acabou de encontrar um sentido para duas vidas, a própria e a do beneficiado. E vocês encontraram um sentido para a vida: a audição.

Muito obrigado aos músicos. É o agradecimento de quem não sabe tocar nem “Parabéns a você”, mas multiplica por 3 mil os parabéns a vocês por esta noite de sábado em Bela Vista de Goiás. Alguns desses milhares nunca haviam visto um fagote. E o maestro, lá em cima, explicou pacientemente o que era e como funcionava cada instrumento. Muito obrigado, Eliel, por sua didática. Um homem realizado não é apenas o que planta árvore, tem filho e publica livro. Um homem se realiza também semeando a boa música no interior do Estado e, sobretudo, no interior das pessoas. Um homem se realiza com um filho, que é como você trata cada músico, pois a orquestra é, ela própria, uma filha, daquele tipo que realiza apenas por existir – e que bela existência tem essa filha de Deus chamada Orquestra Sinfônica Jovem de Goiás. Não sei em qual dos dias da semana Deus criou o som, mas as noites de sábado Ele criou para você tocar em Bela Vista de Goiás. Aquele Céu lindo na noite foi outra obra d’Ele exclusiva para as notas acariciarem os ouvidos não apenas dos filhos de Deus, mas subirem até alcançá-Lo no Paraíso.

Muito obrigado a vocês que trabalham contentes. É um risco imenso fazer evento num sábado espremido de feriadão. O resultado costuma ser uma catástrofe. A prefeita Nárcia acreditou no contrário. Estava correta. É uma aposta louca levar uma orquestra sinfônica a um local famoso pelas atrações sertanejas. Nárcia moveu o mundo para conseguir a orquestra dizendo que o povo de Bela Vista gosta de música, seja ela popular, erudita, sertaneja, nova, tradicional, de dupla, de trio, solo, e por mover o mundo entenda-se contar com a representante do município na Assembleia (Eliane Pinheiro), na Câmara dos Deputados (Jovair Arantes), no Senado (Wilder Morais) e no governo (o secretário de Desenvolvimento, Francisco Pontes), além do governador Marconi Perillo e do vice, Zé Eliton. Prestigiaram o evento ainda o vice-prefeito Juliano Moreira, os vereadores e a vereadora do município, o deputado federal Delegado Waldir e os prefeitos de São Miguel do Passa Quatro (Márcio Ceciliano) e Aparecida (Véter Martins, vice que está no cargo durante a viagem de Gustavo Mendanha a Israel). No final, tudo deu certo.

Deu certo por isso, porque os meninos e as meninas da Orquestra Sinfônica Jovem de Goiás trabalham contentes. A dedicação deles é assombrosa. Não têm noites, não têm férias, não têm fim de semana, não têm folga, não há tempo sem o instrumento. E que instrumentos! O maestro Eliel, ao mostrá-lo e explicá-los ao público, estava apresentando o filho, a árvore e o livro daqueles meninos, daquelas meninas. Aqueles instrumentos são sua realização. Eles tocaram para 3 mil pessoas. Mas tocariam com o mesmo talento para 300 ou para 30. Ou para eles mesmos. Porque o contentamento desses meninos e meninas não é juntar muita gente, é tocar a sua corda, a sua madeira, o seu metal, a sua percussão. Não coincidentemente, as quatro são chamadas de famílias. Não apenas sua família, é a sua vida. O violino é a vida do rapaz apresentado como “ombro” do maestro. O fagote é a vida da moça que divina e alegremente o manuseou ante a plateia. Meu nome é tambor, mas pode me tratar como filho. Eu me chamo oboé, porém, para você eu sou árvore. Fui batizado como contrabaixo, todavia, para você eu sou livro. Os instrumentos que são a árvore, o livro e o filho desses meninos e meninas realizam não apenas eles e elas, mas o futuro da música. É dessa certeza que vem a alegria de todos eles, de todas elas.

Muito obrigado por colocarem um sorriso no rosto da multidão. Ao final da bem-humorada apresentação, o público pediu para o maestro continuar. Um senhor, que a tudo assistia de pé, gritou após Eliel anunciar que só tocariam mais duas músicas: “Vá embora não!”. Outro, sentado do outro lado, fez coro: “Mas já?”. O maestro ouviu ambos e respondeu: “‘Nóis’ tem que ir”. Regeu a orquestra e a alegria da plateia durante a hora e pouco de apresentação. Convidou alguém da audiência para substituí-lo. Solícitos, vários se propuseram, e entre tantos ele escolheu a prefeita Nárcia Kelly. Mais aplausos, mais sorrisos, mais engajamento da multidão. Eliel merece o termo maestro em todos os seus significados, até porque ele provou em Bela Vista que significa muito para a música. E Bela Vista provou um pouquinho do que é música. Neste ano, a OSJG tocou o que a plateia conhecia de um jeito que a plateia nunca vai esquecer, pois foi tocada pela música. Em 2018, que a prefeita garantiu que vai insistir com o governo até levar novamente a orquestra para a cidade, torce-se para ampliar o repertório. Tocar mais Mendelssohn e menos modão. O repertório flexível conquistou Bela Vista. Até a próxima primavera, o pessoal já ouviu mais música de qualidade, inclusive porque Nárcia anunciou a fundação da Banda Sinfônica da cidade, e estará pronta para mais erudição.

Antes do encerramento, houve queima de fogos, como os de réveillon. A prefeita Nárcia conseguiu patrocínio (e o empresário que pagou estava lá) e o Encanto da Primavera ganhou cores. Integrantes da orquestra, quais meninos e meninas (que, aliás, são), ficaram olhando para cima. Com razão: o show de cores foi para vocês, que por seus dedos e sopros transportaram a felicidade a milhares de pessoas (às presentes se somavam ao público das redes sociais, pois dezenas transmitiram por seus perfis, e o que ouviam das casas vizinhas). As cores liberadas pelos fogos encontram-se com os sons libertados por vocês.

Enfim, moçada da Orquestra Sinfônica Jovem de Goiás, muito obrigado pelo que vocês estão fazendo em prol do bom gosto musical. Lembram da Rebeca, a criancinha de 20 meses filha do Oséas? Pois é. A cidade dela nunca havia visto uma sinfônica. Muito obrigado por cuidar do futuro de nosso Estado. Já os aplaudimos de pé. Já reconhecemos que vocês transformaram a vocação em missão e a missão em forma itinerante de levar felicidade. Mas a dedicação de vocês à arte só pode ser agradecida com uma palavra que o maestro ensinou à plateia no início do concerto: bravo! É isso o que vocês são: bravos, bravíssimos!

Nilson Gomes, jornalista, é colaborador do Jornal Opção.

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hermano araujo

arrebentou com um texto que so falou verdades; esses pequenos lembretes poucos leem mas a gente lava a alma ao ver e ler palavras tão bonitas! em nome da música e do músico que sou fico emocionado ao ler uma coisa tão valorizada!!! obrigado bela vista pelo evento e cobertura!!