Euler de França Belém
Euler de França Belém

Orlando Brito provou que fotografia pode ser reportagem de primeira linha

Mostrando a corte de Brasília, as Diretas Já ou indígenas pobres, o repórter-fotográfico conseguia dizer mais do que muitos textos

Uma imagem vale por mil palavras? Millôr Fernandes, o filósofo do humor, contestou: “Diga isto sem palavras”. Mas há fotografias que são, por si, reportagens tão relevantes que valem mesmo por mil palavras. A rigor, a fotografia é palavra por meio de imagem. Como tal, força a palavra a dizer mais do que às vezes diz.

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Confira a fotografia que podemos denominar de “o balé dos poderosos”. Para identificar os personagens se precisa mesmo de legenda. Mas o que ela diz, além de simular uma dança de personagens que, a rigor, aos poucos foram se desentendendo no governo federal?

A reunião entre os quatro condestáveis da República acabou ou vai começar? Estão reunidos, mas em pé, como se estivessem tão próximos quanto distantes do presidente da República, João Figueiredo, de costas para os demais (e para os observadores). Mais próximo dele aparece o general Golbery do Couto e Silva, um dos principais conspiradores do golpe de 1964 e o ministro que, nos governos do presidente Ernesto Geisel e Figueiredo, contribuiu, de maneira decisiva, para “matar” a ditadura civil-militar. O Bruxo, como Golbery era conhecido por alguns, está de costas para o presidente, e, em 1981, depois do atentado do Riocentro, caiu fora do governo. Ele queria esclarecer o caso e punir os responsáveis, mas Figueiredo decidiu abafá-lo. O chefão da Casa Civil parece coçar as costas — “farejando” alguma traição?

O “acelerado” general Newton Cardoso, dos três personagens, é o único que veste terno claro. Ele parece dançar, talvez sem perceber que quem estava dançando realmente era a ditadura.

O ministro Delfim Netto, um dos homens poderosos do governo “Figa”, parece dançar ou simular um drible de Garrincha. O que ele olha? A cadeira de Figueiredo? Quem sabe. Durante certo período, o economista baixinho acreditou que poderia ser presidente, quiçá o sucessor de Figueiredo, ou governador de São Paulo. Em suma, a foto mostra um governo que parece participar da dança da desconexão. Era o fim… de uma era… a da ditadura, que, sendo militar, não deixava se ser civil (o que prova Delfim Netto na corte dos homens de verde).

A fotografia é de Orlando Brito, que morreu em Brasília na sexta-feira, 11, aos 72 anos, de complicações derivadas de uma cirurgia de intestino. Sua percepção de cena, como se fosse um diretor de teatro dos mais sutis, é impressionante. Teria percebido a dança, os políticos falando pelos passos, e não com as bocas, no momento em que fez a fotografia? Não se sabe. Mas o enquadramento perfeito, com detalhes de praticamente todos os personagens — só não se tem os passos de Golbery, que fala com as mãos, como se dissesse: “Este governo me dá urticária”.

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Há outra fotografia magnífica de Orlando Brito. Mesmo se tiver sido posada, diz muito sobre o poderoso e a solidão do poder. Fernando Henrique Cardoso, como presidente, aparece só — olhando o infinito. Lá fora, mais próximo, há uma escultura de duas pessoas e árvores. Ao longe divisa-se edifícios. O gestor federal pode perceber o que se está descrevendo, mas parece distante, apartado da sociedade. Nos seus diários, FHC, hoje com 90 anos, fala da solidão do poder e do fato de que determinadas decisões eram solitárias. O que o repórter fotográfico capta, de maneira magnífica — como se fosse um artista plástico, que sabe usar luz e sombras, como o italiano Caravaggio —, é a “alma” de um indivíduo poderoso, que pode ter tudo à mão, mas também, às vezes, é só. Pode-se ser solitário no meio de uma multidão. Um presidente talvez seja este tipo de solitário. Há quem postule que, no poder, os homens “envelhecem” mais rápido. Talvez seja mesmo verdade. O envelhecimento é duplo. Primeiro, o grau de responsabilidade, imenso, desgasta a pessoa física e mentalmente. Segundo, dependendo do seu grau de consciência, de absorção do que vive e faz, o gestor amadurece em quatro anos o que não havia amadurecido em toda a sua vida de adulto. O conhecimento dos homens, de sua força e de sua fraqueza, pode gestar um ditador. Porém, dependendo de uma absorção inteligente, pode tornar o indivíduo mais tolerante.

Fala-se em Orlando Brito, nos obituários — todos, por sinal, corretos e respeitosos —, como “fotojornalista”, o que, de fato, era. Mas talvez seja possível retomar outra “definição”. Era um repórter que mostrava a realidade — sem adornos mas com arte — por meio de imagens. Estas eram suas palavras. Então, como “pintor da realidade”, um artesão da imagem, nos deu uma abrangente visão do mundo do poder em Brasília. Embora não fosse tão-somente um “retratista” do poder e dos poderosos. Suas fotografias de pessoas pobres, como de indígenas, falam e, até, gritam. Sobretudo, são fotografias com alto grau de perfeição, lembrando, aqui e ali, as de Sebastião Salgado, ainda que sejam mais cruas e menos, digamos, estetizadas.

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De repente, um homem robusto — o que não quer dizer gordo — surge ante nossos olhos. Será um mergulhador? Será um ás da natação? Pois é: de algum modo, a fotografia de Orlando Brito retira a roupa do presidente e o mostra com um cidadão não muito diferente de nós. Fernando Collor está seminu, ou seja, apenas com um calção de banho escuro, exibindo sua força dentro da água, e uma corrente, possivelmente de ouro e, quiçá, com um algum santo a enfeitá-la.

O que se vê, além da nudez parcimoniosa do presidente? Percebe-se que a intenção da “fonte”, Fernando Collor, talvez seja mostrar energia, capacidade para enfrentar os problemas do país. O corpo, tanto pernas quanto braços, está em sincronia. Os olhos parecem fechados — uma maneira de protegê-los. Entretanto, com o país em crise, olhos fechados, expostos pela fotografia, podem indicar que, ao nadar — como se tudo estivesse bem —, podem sugerir que se estava contornando a realidade. “Viver” (insular-se) na água, ainda que por alguns minutos, indica, quem sabe, um alheamento da realidade. Mas o que Orlando Brito realmente pretendia? Talvez apenas fazer uma bela fotografia.

Há outro aspecto, e talvez se esteja exagerando: Fernando Collor está no “fundo” da piscina (se for uma piscina). Seria uma metáfora do país sob seu governo?

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Numa segunda fotografia de Fernando Collor, alguém, não sei quem, segura um espelho para o presidente Fernando Collor se olhar. Ele estaria cortando o cabelo? É provável. Mas o que se capta muito bem é a ideia do duplo. A fotografia parece mais um quadro e o homem, com a camisa dobrada e um relógio no pulso esquerdo, deixa a impressão de que está mostrando um quadro para o chefe do Executivo olhar.

Fernando Collor exibe um olhar imperial e, ao mesmo tempo, ligeiramente assustadiço. Estaria pensando: “Aquele ali sou eu?” Porque, quando uma pessoa se olha no espelho, parece, por vezes, perceber outra pessoa — seu duplo, ou o eu escondido, que, se outro pode ver sempre, eu mesmo não posso. E o ser humano é dúplice, ou até múltiplo. Os homens do poder, mais do que o homem comum, têm várias caras.

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Em 1984, o Brasil “trocou” ser a “pátria de chuteiras” pela defesa de eleições diretas para presidente da República. Multidões saíram às ruas, numa confraternização democrática, e só pediam uma coisa: queriam votar livremente e eleger todos os seus representantes (governadores já podiam ser eleitos desde 1982). O povo, este “ser” às vezes invisível, pressionava os poderes, e exigia poder para si, por intermédio do voto. Orlando Brito, um craque da perspectiva, como se fosse um fotográfico-pintor, no lugar de mostrar a multidão de frente, flagrou-a de lado, possivelmente porque queria mostrar com destaque os braços levantados — como se fossem um só, uma luta única, coletiva. Percebe-se que além dos braços e mãos, que gritam (os pulsos fechados simbolizam força), as pessoas estão falando, num tom possivelmente único.

Orlando Brito capta a participação espontânea das pessoas, que foram às ruas por iniciativa própria.

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O passeio do presidene na Praia dos Artistas, em Natal. Foto Orlando Brito

O presidente-general Ernesto Geisel conspirou contra o governo democrático de João Goulart, o Jango, em 1964 — ao lado do presidente-general Castello Branco e de Golbery do Couto e Silva. No fim do governo de Emilio Garrastazu Médici, no qual se deu o Milagre Econômico (crescimento de mais de 10% ao ano) e ocorreram as maiores violências contra oposicionistas, Geisel, o Alemão, foi convocado para sucedê-lo. Médici perguntou ao general João Figueiredo se Geisel e Golbery do Couto e Silva estavam rompidos. “Figa” disse que “sim”. Ao assumir, o presidente imediatamente nomeou Golbery para o ministério.

O presidente era um homem sisudo, decente e, ao lado de Golbery, decidiu que era preciso acabar com a ditadura (ele é o “pai” da abertura e Golbery e Figueiredo são “tios”). Porque, disse ele, havia se tornado “uma bagunça”. Dá para imaginar o Alemão de calção numa praia — ele que era avesso à exposição pública de sua intimidade? Pois, repórter nato, Orlando Brito flagrou Geisel numa praia, com seguranças, e clicou imediatamente. O presidente aparece, de calção de banho, com o corpo aparentemente firme (a pança não é grande), mas ligeiramente, digamos, “empenado”.

Geisel ficou menor por causa da foto, dada a exposição de seu corpo — que ditadores (e não só) às vezes escondem —, ou não? Na verdade, o presidente inacessível, de estilo glacial, ficou com uma imagem mais “humana” (tipo: “gente como a gente”) depois da arte de Orlando Brito. O repórter-fotográfico, ao mostrar a semi-nudez do general, disse-nos com a imagem: “Ele é um humano como nós e é menos perigoso do que parece”.

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Algumas fotos, como as exibidas aqui, podem sugerir que Orlando Brito era o fotógrafo da “corte brasiliense”. De fato, poucos tiveram um acesso tão privilegiado aos imperiais-republicanos. Ao exibi-los, não quis mostrar apenas o poder, sua arrogância, mas também sua nudez, suas fragilidades.

Mas as ambições fotográficas do repórter Orlando Brito iam muito além da corte. Numa foto mostra indígenas Panará recebendo alguma coisa de um motorista de um ônibus (cujo nº 313 inclui o número trágico, o azar: 13), em 1974. Empobrecidos, o que recebem? Parece algum tipo de comida, talvez bolacha, ou, quem sabe, dinheiro.

A fotografia ganhou destaque em outros países, tanto por exibir a miséria dos indígenas quanto por mostrar o descaso do governo federal.

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Orlando Brito: um dos maiores fotógrafos brasileiros | Foto: Facebook

A morte é um pedacinho (minúsculo) da vida de um ser. Trata-se do desaparecimento do corpo. Mas não é a morte que conta a vida de uma pessoa. Seu retrato deriva do que fez, não importando se viveu 20 ou 72 anos. Orlando Brito deixa um acervo fotográfico dos mais abrangentes e requintados, que são histórias de uma época, retratos de momentos significativos do país. Portanto, de alguma maneira, o repórter que transformava a imagem em palavra (e vice-versa) permanece vivo.

2 respostas para “Orlando Brito provou que fotografia pode ser reportagem de primeira linha”

  1. Avatar Cris Otoya disse:

    Boa reportagem.
    Gostaria de comprar alguma das fotos do Brito.

  2. Avatar Cris Otoya disse:

    Gostaria de comprar alguma das fotos do Brito.

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