Euler de França Belém
Euler de França Belém

Octavio Paz defende concretistas e João Cabral e aponta “omissão” de Drummond de Andrade

Numa entrevista concedida à revista “Veja”, antes de receber o Nobel de Literatura, o poeta e ensaísta mexicano fala da modernidade de João Cabral de Melo Neto e de sua paixão por Fernando Pessoa

Octavio Paz, poeta, crítico e ensaísta mexicano, era um leitor sagaz da poesia e da prosa brasileiras, mas comete um engano sobre a poesia de Carlos Drummond de Andrade e a respeito do escritor argentino Jorge Luiz Borges

O livro “Veja — A His­tó­­ria é Amarela” (Abril, 326 páginas) contém 50 entrevistas históricas das páginas amarelas da revista semanal mais vendida do país. Há entrevistas de Nelson Rodrigues, Pelé, Salvador Dalí, Chico Buarque, Octavio Paz, Sergio Buarque de Holanda, Elis Regina, Glauber Rocha, Gabriel García Márquez, Carlos Drummond de Andrade, Jorge Luis Borges, Fidel Castro , Margaret Thatcher, João Kenneth Galbraith, Gorbachev, Mario Vargas Llosa e de várias outras personalidades nacionais e internacionais.

Uma das melhores entrevistas foi concedida pelo poeta e ensaísta mexicano Octavio Paz (1914-1998). Em fevereiro de 1974, quando falou com a revista, entrevistado por Hugo Estenssoro, o autor de “Signos em Rotação” e “O Labi­rin­to da Solidão” ainda não havia recebido o Prêmio Nobel de Literatura, que lhe foi concedido em 1990.

Hugo Estenssoro, ótimo entrevistador, às vezes escorrega e é corrigido educada e rapidamente por Octavio Paz. O repórter assinala que o escritor francês André Breton “disse que o México era um país surrealista” e o mexicano ressalva: “Breton não disse que o México é surrealista, mas ‘o país de eleição do humor negro’. Ora, o humor negro é um dos componentes do surrealismo, mas não sua totalidade. Breton ficou muito impressionado com a importância que tem a imaginação no México”.

O México e o Brasil têm, frisa Octavio Paz, “o gosto pelas contradições”. Na América Latina, “a começar pela língua” — o português está cercado pelo espanhol por todos os lados —, “os grandes excêntricos são os brasileiros”.

O jornalista pergunta se, para além da integração econômica, é possível a integração cultural da América Latina. A integração econômica, afirma Octavio Paz, “é muito desejável, mas a integração cultural seria funesta. As diferentes culturas não devem integrar-se. Ao contrário, cada uma deve desenvolver suas características próprias. O que é preciso é uma maior relação, um me­lhor reconhecimento de cada cultura pela outra”. A América espanhola perde “grandes coisas ao ignorar a civilização brasileira. É o caso por exemplo de nosso desconhecimento da literatura brasileira, a qual me parece essencial em nosso tempo”.

Octavio Paz diz que a poesia concreta, de Haroldo de Campos (que o traduziu), Augusto de Cam­pos e Décio Pignatari, foi, para ele, uma grande “descoberta”. “Não so­mente pelas suas realizações, isto é, as obras, os poemas, mas também pela elaboração teórica, que é fundamental. Sua influência é clara na minha obra; tenho inclusive escrito poemas concretos em homenagem à poesia brasileira.” A poesia concreta tem sua importância, mas é mesmo possível que tenha influenciado, no geral, a criação artística do autor mexicano? É provável que muito pouco. Há na poesia e na reflexão teórica de Octavio Paz uma profundidade (filosófica), uma abrangência e uma abertura que não se vê, no geral, na poesia concreta (que é quase ditatorial). É provável, até, que se possa falar numa “integração” maior com Haroldo de Campos, cuja poesia é distinta da de Augusto de Campos, quiçá, este sim, o mais concretista dos poetas concretos, seguido de Décio Pignatari.

Jorge de Lima, Carlos Drum­mond de Andrade, “que é um grande poeta”, Manuel Bandeira e João Ca­bral de Melo (“Veja” escreve Mel­lo) Neto eram poetas lidos por Octavio Paz. “João Cabral é um dos poetas capitais dessa época. Ao falar dos poetas da minha geração, nunca deixo de citar João Cabral.”

Hugo Estenssoro inquire se Octavio Paz “está de acordo com a definição da cultura atual como uma cultura cosmopolita”. O poeta-filósofo admite que “toda a literatura moderna é de alguma maneira cosmopolita, pelo menos nas figuras fundadoras. Dizer que o irlandês James Joyce é um escritor inglês não passa de uma metáfora. Ele escreveu em inglês, mas a essência de sua obra é a assimilação de todas as literaturas e linguagens do Ocidente. O inglês de Joyce é uma língua universal”. Ele cita também o francês Stéphane Mallarmé, o russo Vladimir Maiakóvski e os surrealistas. Em seguida, decide conceituar: “Cosmopolitismo é simplesmente um sistema de referências universal. A aceitação de que os outros, diferentes de nós, também existem, o que nos livra de reduzir o mundo a uma imagem única”.

Jorge de Lima, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Guimarães Rosa e Haroldo de Campos: escritores brasileiros que eram lidos por Octavio Paz

Drummond e Cabral

Octavio Paz diz que “a crítica é um método de criação. A crítica não é apenas o exame da realidade exterior, mas também o da linguagem. A literatura moderna tem sido uma literatura crítica.(…) Hoje, essa crítica analisa sua própria razão de ser e vira crítica da linguagem. O poema critica o poema, o romance critica o romance. A crítica deixa de ser somente visão para converter-se em criação”. O bardo mexicano diz que uma “atitude crítica” pode ser vista tanto na poesia concreta quanto em Guimarães Rosa, “cuja obra consiste justamente em ver a linguagem a partir de seu interior, em introduzir-se na linguagem. Já em Drummond essa crítica não é tão constante. Mas em Cabral o rigor de sua poesia é admirável”. João de Cabral é mesmo uma vate admirável, e de um rigor por vezes milimétrico. Mas a leitura de Octavio Paz da poesia de Drummond de Andrade deriva, possivelmente, da leitura dos teóricos do concretismo, que aspiravam que fosse mais inventivo, além de mestre no sentido poundiano, sem entender que o poeta mineiro devorou a poesia universal, das mais tradicionais às mais modernistas, e produziu a poesia mais moderna do país, ao lado da de João Cabral. O­corre que, como em geral não teorizava sobre sua própria poesia, enquanto os concretistas desenvolveram uma teoria mais ampla do que sua própria poesia, que é mignon, Drummond de Andrade deixa a impressão de que era menos moderno do que o poeta pernambucano. Mas, quarenta e três anos depois da entrevista de Octavio Paz, há leituras suficientes da poesia de Drummond de Andrade que atestam a sua qualidade, a sua vitalidade e sua interlocução crítica com a poesia universal. A leitura de Octavio Paz é, claramente, redutora.

“Quais seriam os pontos de encontro e divergência da literatura brasileira em relação à hispano-americana?”, indaga Hugo Estenssoro. Octavio Paz sublinha que “é difícil dizer, pois a literatura hispano-americana não é uma entidade única. Há vários polos de atração: o polo representado pelo romancista [nota do Jornal Opção: é duvidável que o ensaísta mexicano tenha qualificado o escritor argentino de “romancista”; prosador, sim, pois é ótimo contista e grande poeta] Jorge Luis Borges, o polo [Pablo] Neruda etc., até chegar à minha geração. A literatura hispano-americana, assim como a brasileira, tem-se definido em referência às literaturas francesa e inglesa. O que falta, justamente, é definirem-se as duas mutuamente, definirem-se uma em relação à outra. Precisamos influenciar-nos uns aos outros”. Hoje, o que sabemos da produção literária do Uruguai, da Colômbia, do Chile, da Argentina e o que eles sabem da literatura brasileira? Quase nada. Uma grande poeta como Cristina Peri Rossi, nascida em 1941, não é mencionada nos jornais e mesmo na academia. Mariana Enriquez, prosadora, crítica e biógrafa de Silvina Ocampo, integra a nova geração, faz sucesso na América Latina, mas é escassamente lida e divulgada no Brasil. Nas minhas viagens para Buenos Aires e Montevidéu, tenho visto o esforço para se ler Clarice Lispector e até João Paulo Cuenca, mas o intercâmbio cultural é escasso.

Fernando Pessoa foi “descoberto” por Octavio Paz por meios dos surrealistas. Uma revista surrealista começou a publicar poesias do criador português e o mexicano começou a lê-lo. “Imediatamente comecei a traduzi-lo, pois para mim o trabalho de tradução está muito ligado ao de criação. Em toda a minha obra, a tradução dos poemas de Pessoa é uma das coisas que mais me satisfazem.”

Octavio Paz era um poeta surrealista? “Minha participação no surrealismo foi apenas tangencial. Breton [de quem era amigo] era um homem com incrível magnetismo pessoal. […] Cheguei tarde ao surrealismo. Por isso, não se pode dizer que fui um surrealista. Na realidade, ninguém foi totalmente surrealista”. O surrealismo foi, na opinião do poeta e crítico, “talvez o movimento de maior magnitude da nossa época. Porque foi um movimento espiritual, um movimento político, além de estético”.

O ensaísta não tinha apreço pela poesia engajada politicamente. “Eu não acredito em literatura comprometida.” Octavio Paz está dizendo não que a política não seja importante, inclusive para a literatura, e sim que mesmo a grande literatura absorve a política. Mas o escritor não deve se submeter a partidos políticos, não pode se tornar porta-voz de militantes. “Borges é um conservador e, como não deseja que o mundo mude, afirma que o mundo não pode ser mudado pela literatura”, afirma o poeta. Será que o escritor argentino, profundamente apaixonado pela literatura, pensava mesmo assim? É provável que, mesmo sendo conservador, pensasse diferente. Ocorre que Borges era irônico e misterioso, o que dizia, às vezes quiçá para chocar seus críticos e supostos adversários literários e políticos, não tinha necessariamente correspondência em sua obra — moderníssima, apesar de beber intensamente na tradição, inclusive em autores menores que, em suas mãos, ficavam, de alguma maneira, maiores (é o caso de Robert Louis Stevenson, um escritor adorável).

Rufino Tamayo (1899-1991) é apontado por Octavio Paz como um dos mais importantes pintores mexicanos. “Surge como uma reação contra o muralismo e é justamente um dos fundadores da grande pintura latino-americana contemporânea.” Recorri à internet para verificar sua pintura. Conhecem a pintura de Siron Franco? É parecida, em parte, com a de Rufino Tamayo.
No fecho da entrevista, Octavio Paz afirma que “o latino-americano é um excêntrico”. Hugo Estenssoro perdeu a oportunidade de perguntar ao poeta-filósofo sobre possíveis aproximações entre Juan Rulfo, autor de “Pedro Paramo”, e Graciliano Ra­mos, autor de “Vidas Secas”.

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ADALBERTO DE QUEIROZ

Excelente.