Euler de França Belém
Euler de França Belém

O western “Balas Que Não Erram” lembra a ambivalência de Henry James e a tensão de “Matar e Morrer”

O filme de Jack Arnold mantém a tensão e o interesse do espectador assim como o filme de Fred Zinnemann

Jack Arnold (1916-1992), diretor de cinema americano, não era nenhum John Ford (o Bergman da pradaria), Anthony Mann, Raoul Walsh e Howard Hawks. Mas, com “Balas Que Não Erram” (“No Name on the Bullet), de 1959, chegou perto. A tensão do filme lembra a de “Matar ou Morrer” (1952), de Fred Zinnemann, com Gary Cooper.

Um pistoleiro hospeda-se num hotel da cidade de Lordsburg (nome no mínimo curioso para uma cidade do velho Oeste) e diz em voz alta, para o atendente-barman mas dirigindo-se aos clientes, que seu nome é John  Gant. Audie Murphy está muito bem como o assassino profissional relativamente “asséptico” e vestido como um lord numa terra de seres em geral rústicos.

O método de John Gant é infalível. Hospeda-se num hotel e todos ficam sabendo que está à procura de alguém para matar. Na verdade, nem sai à procura. Pelo contrário, a pessoa, sabendo-se ou imaginando-se caçada, acaba por tentar matá-lo, o que, caracterizando legítima defesa, sempre o livra da prisão. O assassino só mata por dinheiro. Quando o xerife, um ás do gatilho, tenta prendê-lo, o profissional atira e fere um de seus braços.

Em Lordburg, uma cidade pequena e próspera, não é diferente. John Gant pouco sai do hotel, mas o encontro com o médico Canfield (Charles Drake) o torna mais reflexivo, mas não menos determinado a matar.

Canfield, indivíduo pacífico, tenta acalmar tanto o pistoleiro quanto os líderes da cidade, que tentam expulsar o criminoso. John Gant, homem tão perspicaz quanto o Riobaldo de Guimarães Rosa, ouve com atenção as ideias do médico, admira-o, mas não as acata.

O pistoleiro e o médico — o monstro e o “curador” (o matador de aluguel sugere que os dois são curadores) — jogam xadrez e, claro, discutem sobre a vida e a morte. Os dois se atraem. Canfield percebe mais do que maldade em John Gant, ao menos no início das conversas. O pistoleiro sabe que o faz-tudo (é até veterinário) é um homem bom.

Audie Murphy e a bela mocinha do filme

Os homens da cidade, em polvorosa, acusam-se. Querem se matar. Querem contratar John Gant para matar um deles. Acreditando que é o homem procurado pelo pistoleiro, o banqueiro se suicida. Afinal, usurários sempre têm inimigos figadais, tanto entre os bons quanto entre os maus pagadores. O dono de uma mina mata outro homem, que o deixa ferido.

Cria-se um clima de tensão incontrolável e, de algum modo, todos são culpados. De tudo e de nada. Há, em Lordsburg, uma culpa que não se sabe exatamente qual é. Alguém engana e odeia alguém. Os “lordes” do burgo se tornam feras… acuadas.

John Gant assiste calmamente, do salão do hotel, onde bebe-se e joga-se cartas — perto, dois bêbados velhos, shakespearianos, jogam xadrez e debatem sobre a “memória” (sabe-se lá se é sobre isto mesmo) —, a crise da cidade. Espera. Espera. Espera. Os outros se matam e ele permanece limpo, como se estivessem num desfile de roupas das melhores grifes.

John Gant (Audie Murphy) e Canfield (Charles Drake): o monstro e o médico

Mas quem John Gant está procurando? Ninguém sabe. Ninguém viu. O pistoleiro nada revela. Só espera.

Só duas pessoas sabem quem é o homem que está sendo caçado, sem que pareça que está sendo caçado: a caça e o caçador. Ah, a bela mocinha, noiva do médico, descobre quem é o homem procurado…

A caça é um homem acima de qualquer suspeita. Contrataram John Gant para matá-lo. Por quê? Queima de arquivo. É provável que tenha se envolvido num esquema ligeiramente parecido com o investigado pela Operação Lava Jato. Os mandantes do assassinato estão inquietos.

Jack Arnold: diretor de cinema

No fim do filme, John Gant encontra-se com o homem que irá matar. Mas, diferentemente de outros indivíduos, o “lord” não quer reagir, recusa-se a se deixar assassinar. Até que… Aí não posso contar mais… senão os 200 milhões de críticos de cinema (exagerando o que dizia Paulo Francis) — como João Paulo Tito, Marcelo Franco, Carlos Willian, Lisandro Nogueira, Lourival Belém, Iúri Rincón Godinho, Ademir Luiz, Arnaldo Bastos e Candice Marques — vão falar em spoiler (mesmo que seja um “spoiler do bem”).

A conclusão de “Balas Que Não Erram” é tão surpreendente quanto a de um romance de Henry James, com certa ambivalência… É um faroeste? É um drama no Oeste.

O filme pode ser encomendado na Livraria Cultura, custa R$ 29,90, ou, com sorte, pode ser visto em algum canal pago de televisão.

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