O sociólogo alemão Max Weber e sua pedagogia da coragem

A “tarefa primordial” do mestre “é a de levar seus discípulos a reconhecerem que há fatos que produzem desconforto — os que são desagradáveis à opinião pessoal”

Arnaldo Bastos Santos Neto

Especial para o Jornal Opção

Em 1917, Max Weber (1864-1920 — viveu 56 anos), o grande sociólogo alemão, pronunciou um discurso intitulado “A ciência como vocação”, texto que foi considerado por seu biógrafo John Patrick Diggins como um dos grandes documentos da nossa época. O objetivo de Weber era apresentar a vocação da ciência para um público de estudantes, atormentados pela difícil escolha de uma profissão diante de uma ordem política e social incerta.

Weber era um atormentado por seu ofício. Numa carta enviada a Mina Tobler, no ano de sua morte, lamentou que “lecionar na universidade era um dever — um dever de modo algum agradável”. Dever ao qual se dedicou com afinco, até o esgotamento, atendendo a toda sorte de palestras e compromissos acadêmicos. Para o autor de “A Ética Protestante e o ‘Espírito’ do Capitalismo” (Companhia das Letras, 336 páginas, tradução de José Marcos Mariani de Macedo), a dupla exigência de combinar pesquisa e ensino, já presente em sua época, faziam com que a vida acadêmica se tornasse “um risco louco”.

Sua honestidade intelectual e personalidade vigorosa eram um atrativo para os jovens, que compareciam em bom número aos seus cursos. Um aluno recordou que Weber palestrava com grande ênfase, acompanhando os ritmos de sua fala com os braços, como um maestro. Apesar de seus textos serem densos e complexos, com grande uso de conceitos abstratos, Weber explicava com clareza, relacionando seus estudos com descobertas recentes. Ernest Toller, um desses alunos, escreveu: “Nunca vi um orador que transmitisse conhecimento de forma tão conscienciosa, e nem antes nem depois estive tão profundamente consciente de ter aprendido”.

Professor deve incentivar a curiosidade e o debate franco

Em sua jornada como professor, Weber teve a coragem cívica de defender os estudantes e professores judeus na universidade alemã. Via o antissemitismo de alguns dos seus colegas como um mecanismo de autoproteção dos medíocres, sempre dispostos a eliminar os pesquisadores judeus mais aplicados da concorrência. Sua irritação com o antissemitismo o levou a declarar que aceitaria em seus seminários “somente russos, poloneses e judeus; nenhum alemão”. Os alunos judeus o chamavam de “o nosso Max”.

Das muitas reflexões pedagógicas contidas na palestra sobre a vocação da ciência que mencionamos no começo, uma reteve especialmente a minha atenção. Sobre tal observação já meditei mais de uma vez. Weber nos diz que a “tarefa primordial de um professor capaz é a de levar seus discípulos a reconhecerem que há fatos que produzem desconforto, assim entendidos os que são desagradáveis à opinião pessoal de um indivíduo”. Obviamente, não basta tão somente tomar conhecimento de tais fatos, é preciso aprender a refletir sobre eles. Se o professor fracassa neste ponto, diria que falha em tudo o mais.

Max Weber, sociólogo alemão, autor do livro clássico “A Ética Protestante e o ‘Espírito’ do Capitalismo” | Foto: Reprodução

Na falta de imaginar uma expressão melhor, eu chamo esta convicção weberiana de “pedagogia da coragem”. Se a vocação do professor exige até mesmo um certo heroísmo, ensinar tal coragem intelectual aos alunos constitui um enorme desafio. Weber diz que sempre existem “fatos extremamente desagradáveis” para qualquer opinião, inclusive para suas próprias opiniões. A alma atormentada do cientista, sempre lidando com a busca da verdade, encontrou sua expressão na frase lapidar do pensador alemão: “faço ciência para saber até onde posso suportar”.

Aceitar ser confrontado com tais fatos é um exemplo que o professor deve dar, antes de cobrar tal atitude de seus alunos. Ao contrário, ensinar que seus alunos evitem o confronto com tais fatos, corresponde ao ensino da covardia intelectual.

O professor, caso queira que seus alunos amadureçam moralmente e aprendam a difícil lição da honestidade intelectual, deve praticar a difícil arte de abalar certezas, confrontando verdades provisórias. Uma boa aliada nesta tarefa é a ironia socrática, que se subestima diante do interlocutor como forma de causar aceitação do seu argumento. É conhecida a passagem do livro “A República”, de Platão, em que Sócrates discute com Trasímaco sobre a Justiça e diz: “Acho que essa investigação está além das nossas possibilidades, e vós, que sois inteligentes, deveis ter piedade de nós, em vez de zangar-se conosco”. Trasímaco responde: “Eis a costumeira ironia de Sócrates”. A estratégia irônica também diz o contrário do que pensa, de forma perceptível, para provocar a dúvida.

O professor deve estimular a curiosidade e o debate franco. Sem curiosidade não existe vida intelectual digna deste nome.  Sem debate não há confronto de ideias nem o aprendizado da coragem das próprias convicções, o dever de dizer sem medo o que pensa.

A moderna psicologia já descobriu que não é algo fácil apresentar fatos desagradáveis às pessoas. Temos uma tendência a buscar confirmações para as nossas crenças e hipóteses que é conhecido como “viés de confirmação”. Nos dias atuais, em que a sociedade está polarizada e as pessoas fechadas em bolhas ideológicas, tal viés é sempre presente. Mas de nada adianta fugirmos das réplicas da realidade… é conhecida a teimosia desta última, sempre disposta a dar a última palavra.

Arnaldo Bastos Santos Neto, professor da Faculdade de Direito da UFG, é colaborador do Jornal Opção.

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