O que Thomas Mann e Camus têm a dizer, em um mundo tomado pelo medo, sobre a atualidade da peste

Em poderosos livros — metáforas políticas —, Thomas Mann e Albert Camus fazem diagnósticos do homem sob pressão de eventos trágicos                                                    

Brasigóis Felício

Especial para o Jornal Opção

“Na manhã de um dia 16 de abril dos anos de 1940, o Dr. Bernard Rieux sai do seu consultório, e tropeça em um rato morto.” Esta é a frase, aparentemente prosaica, e nada literária, que abre o famoso romance “A Peste” (Record, 288 páginas, tradução de Valerie Rumjanek), do escritor franco-argelino Albert Camus, Prêmio Nobel de Literatura de 1957

O romance volta a ser vendido e certamente lido e refletido pelos leitores que contam com nova edição, da Editora Record. O súbito renovar do interesse pela leitura deste romance decorre de sua analogia temática com o drama vivido por países como a China, quase toda a Europa, Estados Unidos, e países do continente latino-americano, a exemplo do Brasil.

A ação romanesca suscita reflexões de cunho filosófico e psicológico, sobre as transformações sociais e mentais de sociedades e pessoas que de modo súbito e devastador, passam sofrer com a iminência ou a possibilidade da morte, que pode chegar a todos e a qualquer vivente de sociedades, comunidades e países, sem que a medicina possa fazer muito para evitar o desenlace rápido e fulminante, a exemplo do que acontece em tsunamis, inundações e precipitações diluviais e terremotos.

A angústia que a todos assalta, e os enche de desespero, é o sentimento de impotência, a consciência da fragilidade humana, a sensação de se estar perto de deixar de existir, de ser criatura defunta e perempta, em meio a uma calamidade devastadora e cruel, que a todos alcança, não importando sua posição de relevo na economia, na política, ou seu prestígio artístico e intelectual.

“O que é mais original na nossa cidade é a dificuldade que se pode ter para morrer. Dificuldade, aliás, não é o termo exato: seria mais certo falar em desconforto.

Nunca é agradável ficar doente, mas há cidades e países que nos amparam na doença e onde podemos, de certo modo, nos entregar. O doente precisa de carinho, gosta de se apoiar em alguma coisa”. Este é um trecho que se pode chamar de inicial, na trama do romance. Começa por descrever o espanto causado pelas formas “anormais”, ou demasiadamente brutais, de morrer — mortes nas quais nem o carinho e o afeto dos familiares pode se fazer presente — nem nos velórios, que em decorrência de “cuidados sanitários”, os mortos tenham que partir solitários.

Albert Camus, escritor franco-argelino | Foto: Reprodução

Este é o drama vivido por personagens de diversas categorias sociais, no romance de Camus – desde o intelectual Tarrou, o médico, Dr Bernard Rieux, quem primeiro se deu conta do fato de não ser normal, tantos ratos estarem a morrer, em todos os cantos da cidade de Oran, passando por Paneloux e Cottard. Cada um deles representa um papel emocional e existencial, representando um ponto de vista e um dilema existencial e moral, no decorrer da trama – e do drama, que a todos atinge e destrói, desde gente do clero, da política, dos trabalhadores mais pobres e humildes, alcançando intelectuais e artistas.

Segue o narrador do romance, mais adiante: “Em Oran, porém, os excessos do clima, a importância dos negócios que se tratam, a insignificância do cenário, a rapidez do crepúsculo e a qualidade dos prazeres, tudo exige boa saúde. Lá o doente fica muito só”.

O que dizer então daquele que vai morrer, apanhado na armadilha por detrás das paredes crepitantes de calor, enquanto, no mesmo minuto, toda uma população, ao telefone ou nos cafés, fala de letras de câmbio, de conhecimentos ou de descontos? Compreenderão o que há de desconfortável na morte, mesmo moderna, quando ela chega assim, num lugar seco”.

Ser estrangeiro

O que é ser estrangeiro, em uma cidade sitiada, tomada por um surto incontrolável de peste? O que fazer, senão tentar escapar? Contrata trabalhadores, que em tosca embarcação poderia levar o estrangeiro, em uma viagem noturna e perigosa, para longe do cenário da tragédia coletiva que se abatia sobre a cidade litorânea de Orão.

Quando este já está na iminência de se encontrar com os pescadores, para o embarque e a fuga , que seria a salvação de um destino inesperado e terrível, o estrangeiro reflete sobre a covardia do seu gesto; é assaltado pelo dilema moral e filosófico que seria escapar, sendo um indiferente, em relação à rede de solidariedade que subitamente formam os cidadãos de Orão (que há muito havia esquecido este valor inerente e potencial, na existência humana).

Sua dúvida passa ou é movida pela angústia de não saber se seria de fato moral e decente, escapar da tragédia coletiva de maneira astuta e covarde, tendo a chance de reencontrar seus familiares, e ter com eles uma vida confortável, “segura, refinada e burguesa, quando tantos estavam condenados a morte.

Que sentido teria escapar do drama coletivo, ser um sobrevivente do infortúnio generalizado, da tragédia terrível, que abatera-se sobre toda a população de uma cidade em que viviam pessoas anônimas e famosas, pobres, remediadas ou ricas, muitas das quais conhecera, e delas se tornara conhecido, ou amigo? A indagação que faz o estrangeiro, antes do noturno banho no mar, com um amigo, antes da tentativa de fuga é: que sentido tem ser feliz sozinho?

Morte em Veneza

Outra analogia talvez possa ser feita, para além do drama vivido atualmente pela humanidade, a partir da situação de pandemia, provocada pelo não controle do coronavírus-19. Ela passa, a meu ver, por outra trama romanesca, desta vez, concebida por um escritor alemão, Thomas Mann, cuja mãe, Júlia, era brasileira. Trata-se do romance (ou novela) “Morte em Veneza” (Companhia das Letras, 200 páginas, tradução de Herbert Caro).

O drama vivido por Aschenbach, um músico em férias na cidade tomada por uma peste que, a exemplo de outras, “convenientemente” ou covardemente ignorada pelas autoridades, vai matando lentamente, de maneira invisível e desapercebida, até ganhar velocidade e força, em sua ação destrutiva, consiste em ter tentado escapar, mas deparou-se com a má sorte de não conseguir seu intento. Ou talvez tivesse um encontro marcado com a morte ali, na cidade que ele buscara para aliviar-se das angústias decorrentes de sua estafante vida criativa.

Outra vez, como cenário de literatura e de cinema (dado que essa obra foi esplendidamente vertida para a sétima arte, pelo diretor italiano Visconti) – e também como cenário de outra peste, que desta vez veio da China, a bela e lendária Veneza está em cena, sendo notícia não só por inundações devastadoras, produzidas pelo avanço do mar, e suas marés altas. Veneza como símbolo do cenário de medo e insegurança em que se tornou grande parte do mundo e da humanidade, nestes dias turbulentos, da hora presente.

A Itália de tantos momentos, de beleza artística e de tenebrosos e constantes conflitos “revolucionários”, por vezes devastada por terremotos, aparece sendo uma das mais devastadas pela pandemia do Coronavírus-19, com as mortes multiplicando-se em escala geométrica, sem que autoridades e equipes médicas e técnicas possam fazer muita coisa, para além de enfrentarem o dilema moral terrível, que é escolher quem vai para a morte certa, e quem terá a chance de sobreviver.

Não só a Itália, mas também a França, que já apela para o fechamento do comércio e o isolamento forçado – o mesmo acontecendo no Brasil, que como o resto do mundo, não é uma ilha de paz, segurança e tranquilidade, como os versos de nossos ufanos hinos propagam e garantem.

Thomas Mann, escritor alemão (filho de uma brasileira) | Foto: Reprodução

Os dias são incertos, os planos econômicos esboroam-se, desmancham como castelos de areia, as suas projeções de crescimento certo e tranquilo. “A peste” tem variadas formas e meios de manifestação. Pode chegar como endemia causada por ratos, pode ser produzida em laboratórios de engenharia social, em experiências visando o controle do crescimento de populações).

Pode resultar de estratégias de ocultação da verdade, por parte de governos e interesses estratégicos, de modo a inspirar escritores como Albert Camus e Thomas Mann, ou de maneira a alimentar sombrias teorias da conspiração.

O certo é que nada e ninguém pode se declarar seguro e estável, quando se vive em ambiente de “peste emocional do caráter”, ou de doença da alma, no dizer de Wilhelm Reich, ou de pandemia moral, em que disputas entre nações, corporações financeiras multinacionais travam uma guerra total, em que tudo vale, desde que se alcance cada vez mais poder para interferir nas vidas e no destinos das pessoas, das sociedades e dos países e nações.

Brasigóis Felício é jornalista e escritor.

2 respostas para “O que Thomas Mann e Camus têm a dizer, em um mundo tomado pelo medo, sobre a atualidade da peste”

  1. Grande Brasigóis:
    Este seu texto merece um Bravo! Bravíssimo de todos os que acreditamos na arte como um veículo de tradução da realidade, até mesmo às vezes de predição do futuro, da utopia, da distopia, dos erros e acertos do ser humano.
    Aqui, bem próximo de nós, um escritor jovem tomou esse filão e escreveu um livro que também traduz bem traduz o afã de compreender, estender visão SOB (e não sobre como erroneamente está no título!) os domínios do medo que a Calamidade impõe aos humanos. Falo de André De Leones e seu “Dentes negros”, onde a calamidade tem epicentro em Goiás.
    De Leones nos mostra, a exemplo dos gigantes Camus, Mann, que das calamidades podemos tirar lições para o futuro, para o depois do desastre — e, se esses livros voltam a ser vendidos durante esta pandemia da hora atual, bendita seja a literatura. Afinal, como disse Mário Sabino, na Revista Crusoé, recentemente, “A literatura às vezes funciona como remédio” — no nosso caso, caro Brasigóis, quase sempre.
    Um abraço do Beto.

  2. Vera disse:

    Brasigóis, a sua reflexão sobre os dois autores conseguiu suscitar o desejo de reler seus livros 📖

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