O que o Riocentro pode ensinar aos brasileiros 40 anos depois

Operando à margem da estrutura formal do Exército, o radicalismo de direita buscava fabricar adversários, mesmo que imaginários. Como hoje?

Bernardo Pasqualette

Especial para o Jornal Opção

Barra da Tijuca, Rio de Janeiro, 30 de abril de 1981. Um show organizado pelo Centro Brasil Democrático (Debrade) no Riocentro, realizado na véspera do feriado pelo Dia do Trabalho, aparentava ser apenas mais uma confraternização entre jovens em um país que rumava a passos largos (mas não necessariamente rápidos) rumo à normalidade democrática.

Uma bomba explodiu no Puma e matou um militar e feriu outro militar | Foto: Reprodução

Em marcha estava o processo de abertura política iniciado ainda no governo do presidente e general Ernesto Geisel e cuja consolidação ficara a cargo de seu sucessor, o general João Baptista Figueiredo. Desde que tomara posse, em março de 1979, o novo presidente convivera com sistemáticos atentados a bomba, realizados por um grupo de militares que se opunha ao retorno à democracia.

Aquela tenebrosa noite seria o estopim desse processo. Após os atentados adquirirem novo patamar — de bombas detonadas com cuidado para não haver vítimas, passara-se a atentados letais —, a violência alcançaria um nível ainda mais alarmante. Dois militares à paisana estavam no estacionamento do Riocentro em um Puma. Oficialmente, cumprindo uma insólita “missão de informações”, como as autoridades afirmariam alguns dias depois.

Dentro do veículo, algo assustador: duas bombas. A partir das 22h30 da noite daquele dia, porém, tudo o que poderia dar errado para a “missão de informações”, errado deu. O artefato explosivo acabou por ser deflagrado precocemente no colo do sargento Guilherme do Rosário. Matou-o instantaneamente e estripou o outro militar que o acompanhava, o capitão Wilson Machado.

Puma no qual explodiu a bomba | Foto: Reprodução

Pela dimensão do público que comparecera ao evento — fontes oficiais afirmavam ser cerca de 10.000 pessoas, mas os jornais na época estimavam pelo menos o dobro —, a ação poderia ter gerado uma tragédia de grandes proporções. Mais do que isso, se levada a cabo com êxito, a temerária ação poderia servir como subterfúgio para que o processo de abertura política não fosse levado adiante, pois a motivação mais provável do atentado seria apontar como responsáveis grupos de esquerda radical.

“Não poderia haver burrice maior”

Nada disso, no entanto, ocorreu. A detonação precipitada do explosivo fez explodir outra bomba — dentro do governo Figueiredo. Ao seu estilo, o presidente reverberava como percebia a questão: “Se foi coisa do lado de lá, não poderia ser mais inteligente. Se foi coisa do nosso lado, não poderia haver burrice maior”.

Constatada a falta de inteligência do ato em si, faltou a apuração com rigor. Até hoje não se sabe quem são os responsáveis. O Inquérito Policial Militar (IPM) aberto em 1981 suspeitava de grupos radicais de esquerda. Àquela altura dos acontecimentos, nada mais anacrônico. Os grupos de esquerda que combateram com armas em punho a ditadura militar já haviam sido extintos quase uma década antes. O IPM acabou sendo arquivado apenas com vagas suspeitas, mas sem responsabilizar ninguém.

Ernesto Geisel e João Figueiredo: artífices da distensão e da Abertura | Foto: Reprodução

Há quarenta anos, permanece a dúvida: qual era o objetivo daquela obscura ação?

Conjecturas à parte, o fato é que o caso Riocentro permanece inconcluso. A lição que fica daquela tenebrosa noite é um importante alerta para o momento atual. Operando à margem da estrutura formal do Exército, o radicalismo de direita buscava fabricar adversários, mesmo que imaginários. A ameaça subversiva, realçada pelo vermelho do onipresente perigo comunista, sobrevivia apenas na imaginação daqueles que cobiçavam a manutenção do poder indefinitivamente.

Se as versões sobrevivem aos fatos, o receio de uma infiltração comunista no Brasil sobreviveu ao tempo. No final de 1984, circulavam cartazes contendo uma foto de Tancredo Neves, uma foice e um martelo. Houve ainda uma pequena variante, dessa vez não em cartazes, mas em pichações: “Tancredo Já — PCdoB”.

Em 1987, já fora da Presidência da República, Figueiredo revelou o seu maior temor àquela altura: “Vamos ter de sofrer muito e vai haver sangue neste país, vai haver luta fratricida, guerra civil. Senão, o comunismo toma conta”.

Lembrava, em muito, a sua primeira impressão sobre o Riocentro, quando cogitou os comunistas como responsáveis pelo atentado. O que lhe passava pela cabeça no final da década de 1980, no entanto, não é capaz de eliminar a sequência de fatos que mudou o mapa-múndi pouco tempo depois: o muro de Berlim caiu em 1989 e a URSS se desintegrou em 1991.

Desde então, a ordem global é outra e a experiência totalitária do comunismo ficou relegada a países sem expressão no contexto geopolítico mundial. A pretensa ameaça vermelha hoje é forma destituída de conteúdo. Por completo. Uma revolução socialista forjada por grupos de esquerda soa tanto ultrapassada quanto implausível, mas o certo é que ainda fomentam cobiças sinceras. Ontem, como hoje, podem servir de pretexto para a tentativa de manutenção do poder.

Em setembro de 1984, o Brasil viveu algo parecido. Em reunião com os ministros militares, foi sugerido a Figueiredo que “virasse a mesa” no caso de vitória de Tancredo Neves no Colégio Eleitoral a ser realizado um pouco mais adiante. O pretexto para tanto era mais do mesmo: a pretensa infiltração comunista na candidatura da oposição.

Constantemente lembrado pela leniência de seu governo na apuração do caso Riocentro, naquele momento Figueiredo pôde demonstrar toda a sua coragem. Precedidas por murros na mesa, sua resposta incisiva não deixou margens à dúvida a quem quer que fosse: “Virada de mesa só comigo morto ou deposto”.

Que sirva de exemplo para 2022.

Bernardo Pasqualette, advogado, é autor do livro “Me Esqueçam — Figueiredo: A Biografia de uma Presidência” (Record, 797 páginas).

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