Euler de França Belém
Euler de França Belém

O que escandaliza em Fátima Bernardes é a abertura para o dionisíaco

 A jornalista demonstra uma alegria ímpar quando aparece em público com Túlio Gadêlha e no seu trabalho

Reprodução

O humorista e escritor Jô Soares chamou a apresentadora de televisão Fátima Bernardes de “Ótima Bernardes”. Mesmo brincando, estava e está certo.

A jornalista demonstrou competência como apresentadora do “Jornal Nacional” e continua competente na apresentação do programa “Encontro com Fátima Bernardes”, na TV Globo.

Fátima Gomes Bernardes é uma apresentadora correta, simpática mas não excessiva, e uma repórter imaginativa (no bom sentido). Seu programa atual é de entretenimento, mas é possível verificar que há um certo cuidado com a apresentação de informações precisas. Percebe-se que a jornalista está sempre inspirada, embora, devido à sua seriedade, às vezes passe a impressão de que está incomodada com os excessos do programa.

Mulher bonita, elegante, de simpatia altiva e sem vezos populistas, dotada da seriedade dos que nasceram para ser austeros, Fátima Bernardes cativa o público. Há uma sintonia fina entre ela e os telespectadores — que possivelmente são o povão e a classe média.

Quando casada com William Bonner, Fátima Bernardes era mais contida. Os dois eram contidos. Por certo, se amavam, com seus defeitos e virtudes, e até podiam ser dionisíacos, mas não demonstravam. Eram de uma discrição imensa, exceto quando apareciam com os trigêmeos — um menino e duas meninas, agora adultos.

Separados, cada um segue sua vida. William Bonner, profissional tão sério quanto competente, começou a aparecer primeiro com a namorada. A impressa sensacionalista não deixou por menos e começou a espalhar intrigas.

Pouco depois, Fátima Bernardes apareceu com seu namorado, Túlio Gadêlha, de 29 anos. Os blogs e jornais fazem questão de ressaltar que o belo rapaz, com seu jeito de intelectual descolado — pós-hippie —, é 26 anos mais novo. Por que o namoro do casal incomoda mais do que o namoro de William Bonner, de 54 anos, com uma bela jovem?

O que talvez choque em Fátima Bernardes é a descoberta de que, apesar de tudo, a vida é bela e é possível ser dionisíaco, preservando seus valores, que até podem ser tradicionais (a desgraça de certos valores é que, como sugeriu Nietzsche, não são nossos, mas adotamos como nossos e os seguimos como se fôssemos fanáticos religiosos e até autômatos).

Nota-se no rosto de Fátima Bernardes que há uma nova alegria de viver, de viver o momento, sem se importar com os julgamentos alheios. A vida é relativamente curta e não há duas juventudes. Depois, segue-se a velhice, que, como nota o escritor Philip Roth no romance “Homem Comum”, é um verdadeiro massacre (vale ver o filme “Ella e John”, com os notáveis Donald Sutherland e Helen Mirren, que exibem a velhice como é, nada elegante, e sem pieguice).

Chegou ao fim, felizmente, o tempo em que mulheres separadas, e com mais de 50 anos, “não” deviam retomar suas vidas amorosas — e a busca do prazer sexual. “Deviam” ficar em casa, curtindo fossa, escondendo o desejo, cuidando de filhos e netos e cozinhando para todos.

Aos 55 anos, numa fase de esplendor — está mais bonita e alegre, certamente cuidando mais de si, e não apenas dos filhos —, Fátima Bernardes está muito bem. Ela faz bem para Túlio Gadêlha e o jovem, que parece maduro e centrado — se, no fundo, alguém é mesmo centrado e sensato —, faz bem para ela.

A felicidade da mulher de 50 anos, e até mais, incomoda — tanto homens quanto algumas mulheres, notadamente as que, de certa maneira, renunciaram ao amor e, por vezes, aos prazeres do sexo. A atriz Susana Vieira, uma força da natureza, é extremamente ativa e, aos 75 anos, namora homens mais jovens — homens mais velhos preferem mulheres mais novas, porque, para eles, o elixir da juventude é a juventude — e não se preocupa com os mexericos. Está certíssima.

A felicidade não é sinônimo de juventude. Pode-se amar em qualquer idade. Ella e John, a dupla do filme de Paolo Virzì, são velhos — ele tem Alzheimer e ela, câncer — e se amam, tentam até, de maneira desajeitada, manter relações sexuais. São belos a amizade, a paixão e, até, o ciúme dos dois. Fica-se com a impressão de que, quando buscamos (e cobramos) menos perfeição, nos tornamos um pouco mais felizes ou, pelo menos, alegres.

Nós, brasileiros, cultivamos tanto a juventude, que deveria ser eterna — porque é o melhor período da vida de um indivíduo —, que esquecemos que, na meia idade e na velhice, também há vida, com ou sem sexo (de preferência, com sexo).

Então, leitor, apreciemos o belo relacionamento de Fátima Bernardes e Túlio Gadêlha, e sem nenhum escândalo. Ela está, não livre (ninguém é livre 100%), e sim mais livre. Porque “desamarrou-se”. Somos nós, e não os outros, que colocamos algemas no nosso comportamento e na nossa visão de mundo. Fátima Bernardes descobriu que pode continuar respeitável e, ao mesmo tempo, expor seu amor e alegria. A vida não é uma comédia, a vida não é um drama. A vida é uma tragicomédia. Quando começamos a rir de nós mesmos, e deixamos de nos preocupar com o escárnio alheio, parece que ficamos mais sãos e leves.

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Nilda

Concordo plenamente!

Vera Filgueira

jó Soares,como sempre com os seus comentários plenos.bjs