O que é o “novo normal” se qualquer porvir já nasce velho?

Será preciso reinventarmos nosso luto se desejarmos sobreviver à nova realidade que se escancara no horizonte

Diego A. Moraes Carvalho

Especial para o Jornal Opção

Um dos assuntos mais debatidos em diversas esferas da opinião pública recente diz respeito ao que devemos esperar de um “novo normal” que se avizinha. É fato que a situação pandêmica conclama um olhar para o nosso cotidiano e seus desdobramentos que outrora não estavam no horizonte de expectativas de parcela significativa da sociedade. Ainda que sejamos, por força de tradição e discurso teológico, inclinados a uma certa escatologia, a alternativa da redenção aparece como mercadoria justa pelo suposto sacrifício dos desejos e paixões. E, por essa razão, a esperança na maioria dos casos emerge como bálsamo para um desiderato comum a todos nós: o encarar (d)a finitude. E é como se não estivéssemos preparados para lidar com algo que escapa a metaforizações bíblicas — a não ser, claro, se tivermos uma boa dose de exegese (fantasia?) particular.

Arte do húngaro Dániel Taylor

A pandemia (s)urgiu como uma modalidade de praga que atravessou os continentes com uma força globalizadora e isonômica nunca esperada. Lidar com os seus efeitos vem requerendo, acima de tudo, um posicionamento ético frente ao mundo que se reorganiza, forçosamente, pelas transformações que surgem com(o) uma avalanche de incertezas. Posto isso, e considerando a ética como um campo de reflexão sobre nosso agir moral, de que forma ressignificamos nossa cadeia de valores frente a essa nova realidade que se desvela? A propósito, teríamos, de fato, uma nova forma de realidade? Ou teríamos um “novo normal”, isto é, um novo conjunto de regularidades que pautam a vida cotidiana e os modos como os indivíduos passam a reorganizarem suas relações? A resposta, como tudo na vida, depende do referencial. Salvo naqueles setores da cultura que creem ter a resposta para todas as indagações humanas. E aqui o verbo crer não é conjugado aleatoriamente.

Mas, retomando, o termo para tal pergunta acarreta uma ambivalência.

Algumas questões se colocam. Será que realmente teremos um “novo normal” ou apenas uma simples atualização de modos de vida em que a ideia de normalidade talvez nunca tenha passado de mera quimera ou retórica? Aposto nessa última hipótese. Em geral, as pessoas que advogam a certeza de um “novo normal” partem de uma premissa, a meu ver, equivocada: havia um padrão de normal civilizacional ao qual estávamos acostumados. Ou melhor, havia uma normalidade, em si. Ledo engano.

O escritor mineiro Guimarães Rosa, em seu belo e definitivo romance “Grande Sertão: Veredas”, testemunhou com a força de sua letra: “Um menino nasceu — o mundo tornou a começar!…”. Em palavras mais cruas, o mundo não cessa de se renovar a cada amanhecer e o que chamamos de normal não passa de uma tentativa de enquadre ideológico, ou performativo, de um tipo de vida psíquica e social que se espera (deseja?).

Em termos clínicos, a psicanálise ilustra que a fronteira entre o normal e o patológico é dado muito mais por uma relação de quantidade do que de qualidade.

Numa perspectiva culturalista, o “normal” diz respeito a um aspecto de auto-referenciamento valorativo frente aquilo que é tomado como indesejável a um padrão social constituído. Não existe, portanto, a priori: esse é conceito vazio a ser preenchido com a dinâmica da conveniência humana, posto que não-o-é algo em essência.

Arte de Dániel Taylor

Em suma, a ideia de que experiencia(re)mos um “novo normal” já nasce requentada, seja pela ausência de um referencial absoluto constitutivo sobre o que é normalidade, seja porque a vida reclama, a cada segundo, um ciclo de re-atualizações. Qualquer tentativa de enquadrar a experiência passada numa forma de regularidade soa ingênua. Tal qual a premissa conservadora que toma o passado como algo idealizado e perfeito, sendo o presente e futuro sempre uma degeneração que precisa ser combatida em nome dos valores sempiternos. Há mofo nisso. Não espanta a conjugação de ambas.

Porém, é fato que o que experienciamos nos últimos meses não possui precedentes na nossa história. A expectativa, a médio e longo prazo, de uma vacina/cura, reclama que alteremos nosso cotidiano de maneira substancial para darmos conta das medidas de isolamento necessárias (ainda que obliteradas por parte de uma massa crescente de pessoas). Mesmo que a ciência encontre a solução farmoquímica para o nosso apocalipse laico, dificilmente nossa rotina retomará nos moldes em que estávamos acostumados (entorpecidos?). E isso, com tudo o que aparentemente tem de bom e, ao mesmo tempo, incerto.

Para muitos, a dinâmica do trabalho remoto chega modificando nossas relações de trabalho. Em setores nos quais o network (palavra sofisticadamente corporativista para indicar o vulgar Q.I.) ditava as normas de contratação a despeito de um processo rigoroso de currículo (escolas particulares, por exemplo), é possível que a ausência de ambientes físicos de socialização limite, em muito, a própria dinâmica das relações interpessoais. É possível que, finalmente, o mérito rompa com uma forma pela qual o mercado de trabalho se articula em diversos setores produtivos de nossa sociedade, nos quais mais vale o “quem indica” do que o “a quem se está indicando”.

No campo das supostas vantagens, afirmam os mais otimistas que aquelas reuniões presenciais intermináveis serão, por fim, economizadas (na múltipla acepção que esse significante comporta). Não teremos mais a necessidade de nos locomovermos distâncias, num trânsito cada dia mais caótico — que outrora fazia inveja a Nova Deli (seja pela estética ou pelos bovinos que insistem em tirar habilitação) — subtraindo a perda de tempo, combustíveis, ar puro etc, para darmos conta de tarefas que podemos resolver ali mesmo, no interior de nossas casas. A combinação de terno, gravata, bermuda e chinelo continuarão a agradecer.

Arte de Dániel Taylor

O “novo normal” afia seus espinhos da imprevisibilidade
nesse imenso orquidário que se transformou a vida urbana

Porém, nem tudo são flores, naturalmente. A propósito, esse “novo normal” afia a cada dia mais os seus espinhos da imprevisibilidade nesse imenso orquidário que se transformou a vida urbana, sobretudo. Há contingências que ainda estão por se dialetizarem. Com a possível volta, no futuro, de uma vida mais interativa para além dos pacotes de dados e dezenas de aplicativos concorrentes, começamos a prospectar uma série de questões. Como se darão nossas relações íntimas do ponto de vista sanitário? Como se dará a nossa própria constituição de intimidade e de entrelaçamento social? De que forma iremos [como estamos] ressiginificando nossos processos de perda?

É bem possível então que, por exemplo, a dinâmica do trabalho remoto mostre o seu revés. Já não é incomum as notícias de pesquisas apontando o aumento da violência doméstica, do estresse além do que já é registrado (motivado, em parte, pela urgência em “mostrar serviço para não ser demitido”), aumento no número de divórcios, etc. A clínica psicanalítica — ainda que impactada pelas limitações que a virtualidade do encontro incide sobre o atendimento — calcula hoje um número expressivo de procura por uma acolhida e escuta qualificada. O futuro tende a ser, portanto, uma update do presente com um algoritmo a mais de indeterminação.

Há um importante texto psicanalítico chamado “Luto e Melancolia” (1915). Nele, Freud examina a diferença clínica entre duas formas de (lidar com a) perda. A primeira, o luto, trata-se de um fundamental e necessário trabalho a ser feito diante de qualquer perda significativa. Uma vez realizado esse intento, o sujeito pode voltar a reinvestir sua vida de uma energia funcional, direcionando-a a outro objeto, reinaugurando seus laços. A seu turno, a melancolia é um estado em que a perda não é simbolizada, havendo uma extensão do processo de luto infindável.

Dito isso, é possível que tenhamos sérios problemas em nossos processos de perda. Não é só aquela pretensa regularidade de outrora que se vê evanescente, mas a própria vida em seu sentido literal. Ao chegarmos à casa de 50 mil mortes pela Covid-19 no Brasil, a nossa finitude deixa de ser um enredo a embalar as mercantis teologias, e passa a ser um vizinho que a qualquer momento pode bater em nossa porta pedindo uma xícara de açúcar ou nossa própria alma. São dois tipos de mortes que reclamam de nós as suas eficientes simbolizações, sob o risco de nos arrastarmos para uma melancolia que não se cessará com facilidade. Teremos que ser capazes de lidar com nossa própria necessidade de renascimento, que, a cada dia que passa, urge frente as vidas que estão sendo sepultadas pela força das mudanças que chegam a galope (ou por vias aéreas).

Esse contexto recoloca, para cada um de nós, a necessidade que temos de encarar a vida em sua contingência maior. Não podemos recalcar o fato de que nossa finitude cobra seu gargalo num momento de pandemia, nos fazendo “esquecer” que a morte é uma das únicas certezas que possuímos. E isso nos cobra uma atitude, uma nova forma de viver nosso cotidiano. O afeto posto, claro, é o da angústia — daí a importância em simbolizarmos nossas perdas para que não sejamos devorados por essa sensação que nos corrói a alma.

Por fim, há um segundo texto freudiano — pequeno, belo e denso — chamado “Sobre a Transitoriedade” (1916). Trata-se de uma conversa entre Freud e um poeta sob as ramas de num campo florido. O escritor lamenta que no advento do outono todas aquelas flores estariam mortas ao mesmo tempo em que relata sua alegria por estar na presença de lindas pétalas. Ao que Freud responde que justamente pelo fato das flores serem passageiras é que tomamos ciência da necessidade de frui-las.

Para o psicanalista, a transitoriedade do que é belo não implica na perda de seu valor. Ao contrário, sugere seu aumento: o valor da efemeridade é proporcional à sua escassez no tempo. “A limitação da possibilidade de uma fruição eleva o valor dessa fruição.”

Essa passagem freudiana — que poderia muito bem figurar em qualquer haikai japonês a metaforizar o significado de uma Sakura — dá a tônica para compreendermos como se formula nosso funcionamento como sujeitos, assim como pelo que nos atravessa nos dias de hoje sob o signo da pandemia.

Neste momento, estamos mais próximos de nossa finitude. Os noticiários nos bombardeiam de notícias e o negacionismo não parece uma atitude racional (a menos que você esteja num cargo presidencial e tenha salvo-conduto para a insensatez entre seus devotos). Devemos escolher e nos posicionarmos frente às modificações que nos são impostas e, verdadeiramente, operarmos processos variados e novos de lutos. Embora, na impossibilidade que muitos de nós tenhamos de sequer enterrar os nossos (caso eles se vão), é preciso nos recordarmos que estamos mais vivos do que nunca, tal qual aquela criança que nasce no sertão, trazendo novas veredas de seu parto.

Uma coisa é certa: o fim da pandemia não representará uma volta ao ontem, como se o mundo tivesse apenas feito uma pausa de um ou dois anos (no melhor dos cenários para uma resolução sanitária) e agora retomando-se ao que era antes. Uma coisa é certa e a lição vem de uma conjunção entre o que nos ensinou Darwin e Freud: a natureza é pródiga em nos demonstrar que somente aqueles mais aptos a se adaptarem sobrevivem, e, se não formos capazes de darmos nome e ressignificação a nossa angústia, continuaremos paralisados, sendo atropelados na esteira da vida que nos clama movimento. A metáfora naturalista e a prescrição freudiana nos arrebatam com uma força de dar inveja a qualquer módulo de autoajuda, vendido ao preço de uma cloroquina importada dos Estados Unidos. Se não formos capazes de alterar nossa forma de lidar com as contingências do hoje, o amanhã tenderá a nos cobrar um preço que nem a maior das utopias e/ou crenças políticas e (quando não) religiosas será capaz de pagar por nossa fiança de bem-estar alienante.

É fato que nossa rotina de outrora, a dinâmica de nossos relacionamentos, a própria cadeia produtiva e os impasses da economia contemporânea estão (restarão ainda) em suspenso. Alguns deles desfeitos ou rarefeitos. E sabemos que certas coisas são insubstituíveis na cadeia de aparição e singularidade. Vive(re)mos processos de perda. E, fundamentalmente, esse “novo normal” nos conclama uma urgência em lidarmos com nossos tais. Será preciso reinventarmos nosso luto se desejarmos sobreviver, literal e simbolicamente a essa realidade que se escancara no horizonte. Retomando Guimarães Rosa, precisaremos ser como aquela criança que aporta no mundo encarnando em si o novo (normal?).

Diego A. Moraes Carvalho é professor pós-doc no IFG/UFG e membro do Latesfip-Cerrado (Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise do Centro Oeste). Coordena o GEA-TCP (Grupo de Estudos Avançados em Teoria e Clínica Psicanalítica-GO). É colaborador do Jornal Opção.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.