Elder Dias
Elder Dias

O professor que fazia o mundo da leitura virar leitura de mundo

“Pensar dói”, costumava dizer Geraldo Faria Campos. Sua forma de ensinar português e sua atitude humanizadora na relação com seus alunos o fizeram mestre inesquecível de gerações

Geraldo Faria Campos, em seu discurso ao se tornar Professor Emérito da UFG

Sou jornalista por vocação. Gosto de ler, de escrever, mas não me pergunte a conjugação do verbo “ser” no presente do subjuntivo, porque te­rei de pensar muito para, quem sabe, conseguir responder corretamente. Sintaxes, mesóclises e normas gramaticais em geral formam a forma, mas nunca puderam trazer o conteúdo. Estudar assim é co­mo moldar um vasilhame que pode jamais ser preenchido.

O conteúdo, este, ao existir encontra guarida em qualquer recipiente. Basta querer recebê-lo. Ter aprendido a gostar de ler desde pequeno foi bom, mas, a virada fundamental rumo ao ser que eu seria, inclusive profissionalmente, se deu ao entrar um dia na sala de aula e encontrar o professor Ge­raldo. Aquele branquelo bonachão de olhos claros que sempre deixava um recado ao lado da redação corrigida; aquele que instigava o aluno com seus causos e que alertava, como um mantra: “Pensar dói”. Dói, sim. Mas, como dizem na aca­demia (não a de Letras), “no pain, no gain”. Com ele à frente, vie­ram a dor de pensar, o prazer de ler e a certeza de crescer.

Geraldo Faria Campos sabia co­mo ninguém tomar alunos como matéria-prima e deles formar pensadores críticos e, ao mesmo tempo, humanos, empáticos, preocupados com a realidade que os cercassem. Por isso, a língua portuguesa, seu ganha-pão sacerdotal, merecia mais do que ser e permanecer como um postulado de regras e regências; merecia ser penetrada com avidez em sua essência, ser destrinchada prazerosamente para, então, ser revelada em seu esplendor. Como fazer aquele menino aprender português? Tornando-lhe o fardo leve. Ou mais, fazendo com que o aprendizado da língua deixasse de ser um peso para se tornar uma bus­ca.

Uma redação por semana, um livro por mês. Como bem lembrou um amigo de colégio, era essa a receita de Geraldo para se fazer um leitor. Mais do que leitor, um cidadão. O verdadeiro objetivo do “Alemão”, como era chamado, não tinha como alvo o aluno, mas a pessoa que ele construía ali, na sala de aula. Educação humanizada e humanizadora, a prática da teoria tde Paulo Freire sendo efetivada da maneira mais clara possível.

Foi assim que ele vivenciou sua trajetória de meio século de vida acadêmica. Levou para o colégio sua história de vida, sua carga de ser humano solidário e altamente en­volvido nas demandas de sua comunidade (sempre morador da Vila Nova), de sua cidade, de sua Nação, do planeta que habitava.

Em 2011, no seu Colégio de Aplicação (hoje Centro de Ensino e Pesquisa Aplicada à Educação – Cepae), lançou o livro “Janelas da Liberdade” – o nome da obra já diz muito de seu autor –, em um encontro de ex-alunos. Em março de 2013, recebeu o título de Professor Emérito da Univer­sidade Federal de Goiás (UFG), por suas décadas dedicadas aos alunos do Colégio de Aplicação. Não fez mestrado nem doutorado. Talvez tenha sido melhor: será que as pós-graduações acrescentariam mais a ele do que ele aos alunos durante esse mesmo período? Di­fícil.

De todas as perdas humanas que vivemos, as mais sentidas são as das pessoas das quais não conseguimos retirar tudo o que podíamos. Aí está o maior valor dos an­ciãos: deles se extraem a sabedoria dos anos, o atalho da experiência, a economia do tempo. Geraldo Faria era inesgotável, mas a vida finda. Morreu na sexta-feira, 12. Fiquei sa­bendo de sua morte pelas redes sociais. A triste notícia foi a primeira da manhã. Não tinha como não compor um texto, por reles que fosse, e reles seria qualquer um que tivesse o objetivo de rqualificar o que aquele homem tinha sido na formação de seus alunos. E interessantemente notável foi o esforço inconsciente que muitos de seus alunos, durante o dia, fizeram para es­crever algo de que o professor fosse merecedor. Era nossa última redação (veja frases nesta página).

Geraldo tinha 80 anos e deixou um legado inestimável: uma legião de alunos que ganharam na loteria por tê-lo tido como mestre. Ga­ro­tos e garotas que, se conseguiram entender a riqueza de sua didática aplicada, tornaram-se pais, mães, profissionais e cidadãos com uma visão além do alcance médio e um senso único de humanidade. Co­mo profissional do jornalismo e tra­balhando em um veículo de co­municação que preza o amplo debate, lamento ter protelado uma longa entrevista com o mestre, ainda mais ao recordar tantas horas de gravação e tantas páginas transcritas com quem muitas vezes não mereceria uma nota de rodapé. Mais do que dar minha contribuição para a posteridade sobre um ser grandioso, entrevistar o “Alemão” seria um encontro lúdico.

Às vezes, para ser extraordinário, basta ser genuinamente simples. Poderia dizer que Geraldo Faria foi nosso Rubem Alves; a comparação encontra parâmetros, mas é injusta com ambos, que souberam, cada um a seu jeito, ainda que de formas semelhantes, viver a vida e ensinar a vivê-la. Nesta redação vai faltar aquele recado. Vai, Geraldo.

Geraldo Faria Campos, por seus alunos

“Há 80 anos, Deus enviou um anjo para tentar melhorar a Terra. Geraldo Faria Campos foi muito mais do que professor de Português, foi um mestre de vida, um ser iluminado que transformou a vida de todos com quem conviveu”
Ana Cláudia Rocha, jornalista

“Ele me chamava de ‘manequim’ e aquilo amenizada a vergonha de ser uma adolescente magricela. E claro: ele me chamava assim porque sabia ler além dos textos; ele sabia ler as pessoas”
Meire de Jesus Leonel,
assistente de gestão do conhecimento do MP-GO

“Geraldo foi o mestre despretensioso que, mais do que ensinar, plantava em nós o germe da rebeldia, do questionamento. (…) Foi ele quem nos infectou com a incurável doença de amor aos livros
e, sobretudo, nos transformou em contempladores de ideias”
Carlos Stuart Palma,
assessor jurídico MP-GO

“Devo ao Geraldo as atividades
que mais me proporcionam prazer na vida,
que são a leitura e a escrita”
Gustavo Henrique Pessoa Chaves,
servidor público federal

Sua empatia indescritível, umas pitadas de Paulo Freire, um recheiozinho de Stanislaw Ponte Preta, uns bons causos e pronto!, a mágica acontecia: levar gerações de crianças de escolas públicas a driblar as estatísticas e chegarem à UFG, UNB, USP, UNICAMP, UFRJ”
Sérgio Souza Silva,
professor e publicitário

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