Euler de França Belém
Euler de França Belém

O Popular omite que Iris e Vanderlan estão empatados e que o fato novo é a ascensão do segundo

O jornal deixa de perceber que, além do evidente empate, era fundamental registrar uma informação: o candidato do PSB está em ascensão e o do PMDB, não

Thiago Albernaz e Vanderlan Cardoso | Foto: Divulgação

Vanderlan Cardoso e Thiago Albernaz: candidatos a prefeito e a vice de Goiânia | Foto: Divulgação

O que se vai ler a seguir é uma crítica ao modo como “O Popular” interpreta mais uma pesquisa do instituto Serpes. Por isso, até para evitar o achincalhe típico dos tempos eleitorais, potencializado pelas redes sociais, um esclarecimento: não há nenhum problema com a pesquisa e se dirá não que a interpretação do jornal é inteiramente equivocada, e sim que os dados permitiam uma interpretação mais arrojada e, aí sim, verdadeira ou mais precisa. Frise-se que, durante um bom tempo, dada a leitura “estranha” das pesquisas, “O Popular” indicava vitória de Iris Rezende no primeiro turno.

Iris Rezende durante coletiva, após votação no Marista; acompanhado do vice, Major Araújo e o senador Ronaldo Caiado | Foto: Paulo José

Iris Rezende com seu vice, Major Araújo, e o senador Ronaldo Caiado | Foto: Paulo José

A margem de erro da pesquisa, que ouviu 601 eleitores, é de “4 pontos porcentuais para mais ou para menos”. O dado é relevante e deveria ter sido levado em conta quando os editores de “O Popular” fizeram os títulos. O título da primeira página é: “Pesquisa sinaliza eleição voto a voto”. É o título que, embora pareça perfeito, não diz nada; não há sequer identificação de local, embora se saiba que há segundo turno noutra cidade de Goiás —em Anápolis.

A pesquisa estimulada mostra Iris Rezende (PMDB) com 41,9% e Vanderlan Cardoso (PSB) com 39,3%. Como a média de erro é de 4%, e a diferença entre os dois é de 2,6% (informação omitida na primeira página), os dados autorizam a sinalizar que os candidatos do PMDB e do PSB estão rigorosamente empatados. Em termos de votos válidos, o peemedebista tem 51,6%, enquanto o socialista tem 48,4%, o que indica uma diferença de 3,2%. De novo, se tivesse levado em conta a margem de erro, o jornal deveria ter modificado sua interpretação, a partir dos títulos.

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Observe, o leitor, outra curiosidade. Ao buscar os dados para explicar que Iris Rezende lidera, o repórter Eduardo Sartorato usa os votos válidos, quando a diferença pró-Iris Rezende é maior, de 3,2% — esquecendo-se do levantamento estimulado, que aponta uma diferença menor, ou seja, de 2,6%. Pode ter sido uma leitura indutiva? Talvez não. É provável que tenha levado em conta que, ao final da apuração, o que se conta são os votos válidos. Mas deveria, pelo menos, ter notado as diferenças dos dados, o que não se faz em nenhum momento. Na capa, o que se fornece é a diferença maior, pró-Iris Rezende.

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O repórter Eduardo Sartorato afirma que a margem de erro é de 4,5% e o quadro que expõe a metodologia indica uma margem de erro de 4 pontos porcentuais. O jornalista ressalva, porém, que há diferenças entre os cálculos da pesquisa estimulada e dos votos válidos. Estranhamente, a informação não aparece na metodologia da pesquisa, que só aponta a margem de erro de 4%. A Justiça Eleitoral deveria verificar a informação do jornal.

A interpretação do jornal para a pesquisa espontânea é ainda mais sui-generis, pois sugere que não acredita nas informações privilegiadas reveladas pela pesquisa do instituto que ele próprio contratou. Diz o título: “Peemedebista lidera espontânea e também é o mais rejeitado”. A informação mais relevante, do ponto de vista do eleitor, era outra: Vanderlan Cardoso está atrás de Iris Rezende apenas 2%. O que, claro, caracteriza um empate técnico flagrante. O postulante do PSB tem 37,6% e o postulante do PMDB tem 39,6%.

Um dos fatos mais graves, que deriva de como o jornal vem cobrindo as eleições — sugerindo uma empatia subliminar por Iris Rezende? —, é o fato de que não se nota, com a devida ênfase, a ascensão de Vanderlan Cardoso. Ao término do primeiro turno, a diferença entre ele e o candidato do PMDB era de 7% e agora caiu, na pesquisa estimulada, para 2,6% (e 2% na pesquisa espontânea). Quaisquer reportagem e análise objetivas não podem deixar de registrar isto. Não se pode dizer que a edição de “O Popular” é suspeita, dada a seriedade histórica do jornal, mas é possível sugerir que é, no mínimo, estranha, até muito estranha. A edição da pesquisa, não se sabe se deliberadamente, quase “esconde” os dados para não indicar, o que é verdadeiro, que Vanderlan Cardoso está empatado com Iris Rezende; porém, com uma vantagem: está em ascensão. A expectativa de poder, ao menos no momento, e do candidato do PSB. Se na próxima pesquisa, Vanderlan Cardoso aparecer em primeiro lugar, caracterizada a tendência de ascensão, o que “O Popular” dirá? Que não interpretou corretamente os dados de sua própria pesquisa?

Note-se que, apesar do resultado ruim para Iris Rezende, o repórter Jarbas Rodrigues, da coluna, “Giro”, de “O Popular”, escreve: “Apesar de ter respondido mal ao resultado do primeiro turno, Iris demonstra reação”. Pura torcida? É o que parece.

Não há problema algum numa publicação torcer para o candidato “x” ou para o candidato “y”. O que não se deve é esconder a torcida, sob o manto de uma velha ficção: “Jornalismo deve ser imparcial”. Não há jornalismo imparcial. O que há é jornalismo que se escuda pelo menos na objetividade mínima.

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