Euler de França Belém
Euler de França Belém

O Popular não entendeu que a “morte” do jornalismo factual é um fato

O jornalismo não morreu, está sendo reinventado e, mesmo na internet, vão sobreviver os jornais que combinarem cobertura factual precisa e análise rigorosa do que está acontecendo

Cristiano Câmara e Jaime Câmara Júnior: não basta mudar o formato do jornal; é preciso investir em conteúdo e torná-lo mais substantivo

Jaime Câmara Júnior e Cristiano Câmara: não basta mudar o formato do jornal; é preciso investir em conteúdo e torná-lo mais substantivo

Escuta-se de leitores qualificados: “‘O Popular’ piorou desde que adotou um novo design”. A história, de tanto ser repetida, tornou-se uma “verdade” que, digamos, não é verdadeira. Como a piora do jornal coincide com a mudança do formato standard para germânico conclui-se que o julgamento dos leitores é apropriado. Mas não é.

“O Popular” não piorou ao se tornar germânico — formato dos principais jornais europeus. Tornou-se, inclusive, mais fácil de manusear, tanto em escritórios quanto nos meios de transporte.

Na verdade, “O Popular” piorou porque seus editores e dirigentes parecem não ter percebido que o jornalismo, em todos os países, passa por uma mudança profunda. Edições impressas, que se tornam velhas assim que são impressas, não podem ser meramente factuais. A cobertura estritamente factual deve ficar para a versão da internet, que pode ser atualizada rápida e instantaneamente.

Compreender que o jornalismo impresso, se for exclusivamente factual, não tem como competir com a internet — com o rádio e com os canais de televisão — é fundamental para se promover mudanças. Ao não entender isto, “O Popular” radicalizou, no jornal impresso, o jornalismo factual. Por isso se pode dizer, sem medo de errar, que “O Popular” morre quando nasce — ao ser impresso.

O jornalismo factual é necessário, até fundamental, mas em sites que podem ampliá-lo rapidamente, acrescentando ou corrigindo informações. Mas o jornalismo factual fixo, exibido no jornal impresso, está literalmente morto e enterrado. Portanto, o jornal que não for capaz de interpretar e explicar os fatos — deixando unicamente de registrá-los — pode convocar um padre e encomendar a extrema unção. Está fadado à extinção.

Mesmo sites que circunscreverem-se à cobertura tão-somente factual perderão leitores para os sites que, paralelamente à cobertura factual, apresentarem análises substanciosas.
Pode-se dizer que o jornalismo não está morrendo, só está sendo reinventado. O que vai sobreviver, sempre, é o jornalismo de qualidade — aquele que explica aos leitores o que de fato está acontecendo. Se persistir só factual, e mesmo na internet, está fadado a ser abandonado pelos leitores.

Por que Cristiano Câmara deixou e seu pai, Jaime Câmara Júnior, retomou o comando do Grupo Jaime Câmara? Em linhas gerais, porque o mais jovem, o primeiro, parece não ter compreendido com precisão o que está acontecendo com o jornalismo — tanto o dos jornais impressos quanto o das emissoras de televisão. Os dois são empresários competentes, de história altamente positiva e seriedade exemplar, mas precisam entender que o jornalismo dos tempos atuais é mutante e exige uma participação mais ativa — com conteúdo substantivo — e interpretativa.

Jornais também precisam ter identidade e, para tanto, devem produzir seu próprio conteúdo — não devem “comprá-lo” quase que inteiramente de outros jornais e agências. Formar mão de obra qualitativa impediria que “O Popular” se tornasse parecido, como atualmente, com uma sucursal de outros jornais. A cobertura cultural do jornal hoje é praticamente a mesma da “Folha de S. Paulo”. O leitor pode concluir que é melhor ficar com a matriz, abandonando a sucursal.

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