Elder Dias

O Popular encarna o jornalismo pachecão e chuta longe o balde do patriotismo

Um jornal alemão não adaptaria sua logomarca pelo futebol. Mas, se agisse assim, certamente levaria a campanha além das eventualidades de vitórias e derrotas

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Fotos: Reprodução

Pacheco foi um personagem criado pela agência Alcântara Machado e oferecido para a multinacional Gillette para a Copa do Mundo de 82, na Espanha. Acabou virando um boneco e um homem vestido com sua fantasia acompanhou a seleção durante aquela memorável e fatídica campanha, quando um time de muitos craques e futebol bonito foi derrotado pela Itália, que acabou campeã.

A popularidade de Pacheco na época fez com que virasse, a partir dali, uma espécie de arquétipo de torcedor verde-amarelo. A expressão “pacheco” ou “pachecão” passou a designar o fanático pelo Brasil que joga, corre, pula e nada, ufanista e dotado da mais pura ausência de senso crítico.

Em época de Olimpíada e Copa do Mundo, não só pessoas físicas, mas instituições em geral se tornam “pachecas”. Os veículos de comunicação não fogem à regra. Mas algumas coisas deixam bem nítido como a questão do patriotismo se resume a vencer ou não determinada competição. Assim, se a seleção brasileira (ou Ayrton Senna, ou Gustavo Kuerten) ganha, “eu sou brasileiro, com muito orgulho e com muito amor”; se a seleção (ou Rubinho Barrichello, ou o Baloubet du Rouet de Rodrigo Pessoa), aí rasga-se a fantasia como a túnica de Caifás, com o grito: “Amarelou!”. E o alvo da devoção vira fonte de rejeição, instantaneamente. Aquilo não é mais “Brasil-sil-sil”.

Nesse sentido, “O Popular” fez algo bem sintomático. Desde 12 de junho, o dia de abertura da Copa do Mundo, a marca do jornal (o nome do jornal em branco sobre um fundo azul) vinha acompanhada por um laço verde-amarelo à esquerda. O jornal se posicionava: estava na torcida. Justo. A pergunta que persistia era: torcida por quem? Pela seleção, como qualquer outro brasileiro? Ou pelo sucesso do evento em terras brasileiras, o que seria algo mais institucional, neutro e, portanto, mais próximo do perfil de um veículo de comunicação?
No dia 7, quando a edição apresentava a semifinal Brasil x Alemanha como seu principal destaque, com o título “Joguem por ele, vençam por nós” — referindo-se a Neymar, o craque alijado da Copa e quase aleijado pelo zagueiro Zúñiga, da Colômbia —, lá estava o realce bicolor. Aí veio o desastre dos sete gols. Sem nenhuma coincidência, com a eliminação da Copa, o lacinho patriota foi retirado de imediato já na edição do dia seguinte.

Fotos: Reprodução

Fotos: Reprodução

Ficou claro então que a torcida era de um pachequismo autêntico: ou hexa ou nada. Entende-se a decepção de um cidadão brasileiro que investiu seu tempo e seus sentimentos na “corrente pra frente”; mas um jornal é um jornal justamente por pensar além do imediato e dos sentimentalismos. A fitinha verde-amarela — um artifício que não é nenhuma novidade, mas nem por isso deixa de transmitir uma mensagem eficaz — foi abandonada antes do fim da Copa no Brasil e mesmo antes do fim da participação da seleção no Mundial: haveria ainda a disputa do 3º lugar com a Holanda. Um jogo contestável, mas no qual o time também representaria a Nação.

A Alemanha que ganhou de 7 a 1 da seleção pentacampeã é a mesma que, jogando em sua terra a Copa de 2006, foi aplaudidíssima por seu povo ao conquistar o 3º lugar. Ao tirar o pequeno adereço verde-amarelo de sua capa antes da hora, o Pop repetiu o patriotismo de ocasião que o torcedor comum tem. É uma questão de cultura e relação com a nacionalidade: um jornal alemão provavelmente não mudaria sua logomarca temporariamente por conta de futebol. Mas, se mudasse, certamente levaria a campanha além das eventualidades de vitórias e derrotas.

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