Os grandes escritores sabem que a biografia imaginativa é um recurso válido. É possível transformar um personagem histórico num personagem literário, com a ficção iluminando os segredos da vida interior, mas sem distorcer a fidelidade fatual. Um certo exagero, longe de falsificar, pode ser útil para compreender melhor o homem por trás do mito; a vida às vezes é mais intensa do que sua descrição histórica e a literatura não raro pode oferecer, paradoxalmente, um perfil mais próximo do real. O peruano Mario Vargas Llosa, notável escritor e crítico literário, está se caracterizando por “enfrentar”, com perdas e ganhos, a biografia literária. Sob pretexto de relatar as razões de sua derrota para Alberto Fujimori na disputa pela Presidência do Peru, Llosa contou sua história em “Peixe na Água”. As memórias, escritas num registro literário, são belíssimas. Há, aí, um autor brilhante narrando uma história verdadeira como se ela fosse (quase) ficcional. A recuperação de sua infância é produto do talento de um escritor de poderosa imaginação, embora ele mesmo diga que não é muito imaginativo.

Flora Tristán, feminista francesa que morou no Peru | Imagem: Reprodução

Escritor na linhagem objetiva, pois é filho literário de Flaubert, Llosa é autor de romances poderosos, como “Conversa no Catedral”. Entretanto, nos dois últimos livros, “A Festa do Bode” e “O Paraíso na Outra Esquina” (“explicado” na capa, o título tem a ver com uma brincadeira de crianças), o Llosa historiador (ou biógrafo) está mais presente do que o escritor. “A Festa do Bode” agradou políticos porque, contando a vida do líder Rafael Trujillo, da República Dominicana, é um romance político. Como literatura, o romance é relativamente fraco e perde até mesmo para “A Guerra do Fim do Mundo”, uma revisitação pela Canudos descrita pioneiramente e com mais vigor por Euclides da Cunha em “Os Sertões”.

 “O Paraíso na Outra Esquina” (Editora Arx, 493 páginas, tradução de Wladir Dupont), romance sobre a vida da extraordinária feminista e socialista Flora Tristán e do pintor Paul Gauguin, não me entusiasma tanto. Llosa escreve bem e as vidas de Flora e Gauguin são muito interessantes — dariam mesmo, como deram, um romance. O autor faz um capítulo sobre Flora e um capítulo sobre Gauguin. A vida de Flora, precursora de Simone de Beauvoir, era de uma chatice sem par? É preciso ressalvar que viveu em meados do século 19, tempo difícil para mulheres libertárias. Então, ao se apresentar como socialista e feminista, era uma revolucionária (o que, dado o tempo em que viveu, é de uma grandeza ímpar. Teria influenciado até Karl Marx). Ela era avó de Gauguin, filho de Aline. A vida de Gauguin é contada com a característica malícia de Llosa, mas há a desculpa de que o pintor francês era mesmo exagerado em tudo que fazia. Biógrafo detalhista (qual não é?), Llosa mostra que tanto Flora quanto Gauguin viveram no Peru.

Mario Vargas Llosa: usando a imaginação para vasculhar vidas reais | Foto: Reprodução

Se Llosa conta bem a história de Flora e Gauguin, se resgata sobretudo a primeira do esquecimento, dando-lhe um status de primeira-dama do feminismo internacional, qual é a razão de minha implicância? Minha crítica básica é que, no caso de “A Festa do Bode” e “O Paraíso na Outra Esquina”, Llosa não está fazendo literatura, mas história e biografia. Antes de ler “O Paraíso na Outra Esquina”, cometi o “erro” de ler “Paul Gauguin — Uma Vida” (Editora Record, 639 páginas), do inglês David Sweetman. O livro de Sweetman não é tão bem escrito quando o de Llosa, mas é muito mais rico e esclarecedor do que a “biografia” escrita pelo peruano (que parece se considerar “espanhol”). Sweetman quase me fez desistir de terminar a leitura do romance.

“O Paraíso na Outra Esquina” não é ruim — só não é, digamos, um autêntico Llosa, ou, noutras palavras, é um Llosa, mas de segunda (o que já é muito). O que pode salvar Llosa de si mesmo? Talvez uma volta, com certa urgência, à literatura imaginativa.

A paixão homossexual do pintor francês Gauguin

Paul Gauguin: pintor francês | Foto: Reprodução

O pintor Paul Gauguin trocou a culta França pelo selvagem Taiti, onde morreu em 1903, aos 55 anos, de uma sífilis que destruiu seu corpo. No Taiti, entre selvagens — que nem eram tão selvagens como imaginava o artista —, Gauguin, ou Koke, como era chamado pelos nativos, pintou seus melhores quadros, os mais imaginativos. Ele era mulherengo e gostava de mulheres bem jovens, na faixa de 13 a 14 anos. Mas tanto o historiador David Sweetman (páginas 337, 338 e 339) quanto o escritor Mario Vargas Llosa (páginas 76 e 77) apresentam evidência de pelo menos uma relação homossexual do inveterado paquerador.

O taitiano Jotefa foi a ligeira paixão, ou tesão, homossexual de Gauguin, que o imortalizou no quadro “Homem com o machado”, de 1891, que ilustra este texto. Llosa conta a história de modo picante: “Vencendo sua vergonha, de costas para Jotefa, deixou-se ir na direção dele e encostou sua cabeça contra o peito do jovem. Com uma risadinha fresca, na qual não havia nenhum sinal de gozação, o garoto passou os braços pelos ombros de Paul e o atraiu até tê-lo bem preso contra seu próprio corpo. Sentiu-se acomodar-se, ajustar-se. Fechou os olhos, presa da vertigem. Sentia contra suas costas o membro, também duro, do rapaz, roçando-se nele, e, em vez de afastá-lo e golpeá-lo, como fizera tantas vezes no Luzitano, no Chili e no Jérôme-Napoléon [Gauguin foi marinheiro], quando seus companheiros tentaram usá-lo como mulher, deixava-o fazer, sem nojo, com gratidão e — Paul, Paul! — também gozando”.

Não se trata de ficção, pois Sweetman documenta a história com as palavras do próprio Gauguin (sempre um exagerado e mentiroso contumaz): “(…) E nós estávamos só… os dois. Tive uma espécie de pressentimento do crime, o desejo pelo desconhecido, o despertar do demônio. A consciência do papel do masculino tendo de ser sempre o forte, o protetor, são responsabilidades que se tornaram um pesado fardo. Ser, por um minuto, o fraco, o que ama e obedece. Cheguei mais perto, sem medo das leis, minhas têmporas latejando”. Gauguin não é tão explícito quanto a narrativa de Llosa. E Sweetman esclarece: “Se manteve uma relação sexual com Jotefa, não vem ao caso, o que importa é que Gauguin confessou seus pensamentos e sentimentos. Como a maioria de seus escritos eram para manter a imagem do macho viajante, que gostava de possuir nativas complacentes, admitir que desejava ser passivo, dominado, é algo muito novo e que minimiza a dúvida a respeito do fato ter ou não ocorrido”.

David Sweetman conta que Gauguin “pode” ter contraído sífilis no Rio de janeiro, onde “teve suas primeiras relações sexuais”. A biografia do especialista inglês é exaustiva. Ele explica as razões da briga entre Van Gogh e Gauguin e, ao contrário de muitos amigos do francês, não condena o segundo por se afastar do pintor holandês. Mostra como, filho do impressionismo, conseguiu escapar de sua tutela e fazer uma pintura extremamente original, que influenciou os modernistas Picasso e Matisse. Relata o trabalho do “burguês” Gauguin como operador da bolsa de valores e como se deu a transição para a vida de artista.