[Texto publicado no Jornal Opção em 2016. Edson Rodrigues morreu na quinta-feira, 26, aos 79 anos]

O rádio tem uma vibração, uma energia provocativa, que a televisão não tem. Sabe por que o torcedor vai ao estádio e leva seu rádio? Porque, pelas ondas do rádio, há duas partidas — a que ocorre no campo e a que é narrada. A exposta pelos narradores, de maneira imaginativa, é a que realmente interessa aos torcedores. A mim, aos menos.

O rádio devolve ao ouvinte a emoção e, por isso, mesmo jogos ruins ganham “cores”, movimentos. A voz do narrador, mais do que os comentários dos críticos (os comentaristas), “move” os pés e as cabeças dos jogadores. Os jogos exibidos na televisão, como a imagem exige uma narração mais veraz, em geral são frios, não têm alma. Quando Luís Roberto e Cléber Machado narram um gol, criando uma emoção de publicidade de segunda, fica-se com a impressão de que o fantasma de Abraham Lincoln está rachando lenha.

Agora, quem ouve Edson Rodrigues narrando uma partida de futebol fica com a impressão de que Frank Sinatra, a Voz, ressuscitou e está no rádio “descrevendo” jogos, a dança dos jogadores em campo.

Edson Rodrigues, não há como dizer apenas “Edson” ou somente “Rodrigues”, narra a partida, mas também a descreve com precisão. Sua vibração é tão intensa, e ao mesmo tempo tão íntima, que temos a impressão de que é natural, não artificial. Confidencio que aprecio, algumas vezes, mais a narração do Edson Rodrigues do que o próprio jogo (por isso não jogo fora meu radinho ensebado).

Faça o teste: se a partida estiver chata, se Walter não conseguir correr em campo e se Neymar não estiver empolgado, mude para a emissora do Edson Rodrigues. Você vai ficar com a impressão de que estará ouvindo (ou vendo, se estiver no estádio) outro jogo. Mas não é impressão, não. É outro jogo mesmo. O grande narrador nos faz ver aquilo que é subterrâneo — a alma do jogo.

O político Lívio Luciano diz que Edson Rodrigues é a voz do futebol no rádio e que, por entender de futebol, sabe ancorar os comentários, pautando o trabalho dos colegas. Lívio não é Tito, mas sabe das coisas. Quem ouve a Rádio 730, ou melhor, quem ouve Edson Rodrigues, o charme esportivo da emissora, fica escravo para sempre. Ele é grande, como Waldir Amaral, Jorge Curi, Antônio Porto, Fiori Gigliotti e José Carlos Araújo.

Aos 70 anos, Edson Rodrigues tem voz primorosa, comparável a alguns cantores líricos que, mesmo mais velhos, continuam cantando muito bem, sem desafinar. Portanto, Edson Rodrigues é a Voz, o Sinatra do rádio esportivo brasileiro — e note, por favor, que eu não disse goiano.