Euler de França Belém
Euler de França Belém

O médico brasileiro que revolucionou o tratamento do câncer de mama

Autor de um método cirúrgico menos invasivo, Fernando Gentil foi combatido tanto no Brasil quanto no exterior. Mas suas pesquisas e métodos de tratar o câncer de mama acabaram sendo replicados em todo o mundo

Fernando Gentil trabalhou como oncologista nos Estados Unidos e, no Hospital A. C. Camargo, atendeu centenas de pacientes e fez pesquisas que revolucionaram a cirurgia do câncer de mama. Ele morreu em 1980, aos 69 anos

A história da medicina é mais ou menos assim: alguns precursores são combatidos e, mais tarde, assimilados e replicados. O médico cearense Fernando Campello Gentil, pioneiro no tratamento do câncer de mama, recebeu críticas no país e, sobretudo, no exterior, porém não recuou e acabou sendo copiado por todos. Claro que não pediram desculpas ao célebre oncologista.

Os repórteres Rodrigo Casarin e Bia Mendes, na revista “Aventuras na História” (nº 160, de outubro de 2016), relatam a história do notável oncologista Fernando Gentil. Na primeira metade da década de 1940, dada a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), os Estados Unidos enviaram vários médicos para a Europa e, por isso, convidaram médicos de outras nações para trabalhar nos principais hospitais do país. Fernando Gentil, que chegou aos EUA em 1942, foi convidado para trabalhar no Memorial Sloan-Kettering Cancer Center, em Nova York. Ele atuou como assistente de George T. Pack, especialista em cirurgia oncológica e pioneiro na utilização da quimioterapia.

Tendo se destacado no Memorial Sloan-Kettering, Fer­nando Gentil se tornou o primeiro médico brasileiro “a se especializar em oncologia”. Ao voltar ao Brasil, convidado pelo cirurgião Antonio Prudente, começou a trabalhar no Hospital A. C. Camargo (criado em 1953, em São Paulo), primeiro hospital especializado em câncer do país, como chefe do departamento de cirurgia pélvica.

“Ele teve papel fundamental na formação de muitos cirurgiões oncologistas que estão pelo Brasil afora”, afirma o cirurgião oncologista Ademar Lopes. Fernando Gentil, como não era burocrata, fazia pesquisas com o objetivo de qualificar o tratamento do câncer.

Entre as décadas de 1970 e 1980, registra a revista, “desenvolveu uma técnica mais humana de cirurgia para o câncer de mama, que alterou definitivamente a forma como se lidava então com a doença. Na cirurgia que passou a fazer em suas pacientes, retirava somente o tumor e a parte do seio que estava imediatamente próxima a ele, preservando a pele, a aréola e o mamilo, e em seguida fazia a reconstrução com prótese de silicone”. Era um tipo de cirurgia diferente do modelo criado pelo médico americano William Halsted e replicado em todo o mundo.

A médica Ananya Mandal, no artigo “History of Breast Cancer”, assinala que William Halsted “desenvolveu a mastectomia radical, que removia o peito, os nós axilares e os músculos do peito para prevenir [evitar] que o câncer se propagasse caso os membros fossem removidos individualmente”. O oncologista Drauzio Varella frisa que o procedimento gerava “uma mutilação horrível, e fazia aquilo para qualquer tipo de tumor, e você não operar usando aquela técnica era quase um crime”.

Método conservador

A cirurgia proposta por Fernando Gentil ficou conhecida como “método conservador”, no sentido de que “conservava ao máximo o corpo da mulher”, esclarece a revista. “Ele também apostou em implantes de próteses de silicone para preencher os seios então esvaziados pela cirurgia contra o câncer, mostrando como sua preocupação com as pacientes ia muito além da doença em si — para ele, o bem-estar e a autoestima das mulheres que passavam pela operação de câncer de mama eram primordiais”, escrevem os repórteres Rodrigo Casarin e Bia Mendes.

Médicos e pesquisadores renomados de outros países criticaram Fernando Gentil, avaliando que seu método não era apropriado. Chegaram a ironizá-lo. Num encontro de especialistas, no Hospital A. C. Camargo, em 1975, o oncologista apresentou os resultados de sua pesquisa. Os oncologistas que usavam o método Halsted o criticaram de forma acerba. Entre seus críticos estavam Umberto Veronesi, de Milão; Jerome Urban, do Memorial Hospital, nos Estados Unidos; e, no Brasil, Adair Eiras, do Instituto Nacional de Câncer; e José B. S. Neto, do A. C. Camargo.

O método de Fernando Gentil era revolucionário no tratamento e, portanto, estava adiante de seu tempo. Enquanto os especialistas o criticavam, as mulheres o agradeciam pelo tratamento menos invasivo. Os resultados eram amplamente positivos.

Mais tarde, um dos médicos que haviam “condenado” a terapia proposta por Fernando Gentil, Umberto Veronesi, apresentou “a quadrantectomia, técnica mais conservadora ainda que a de Gentil, em que se retira somente um quarto da mama”. Era outra revolução, sobretudo uma evolução da cirurgia anterior.

A “cirurgia do Gentil”, com as sessenta primeiras experiências, ganhou artigo no “Journal of Surgical Oncology” e consagrou o médico. A popularização do método, finalmente aceito pela comunidade médica internacional, tornou a cirurgia de Halsted obsoleta. Aceita no exterior, a proposta de Fernando Gentil passou a ser adotada, sem contestação, no Brasil. (O que falta ao médico goiano Áureo Ludovico — com sua inovadora, mas rejeitada por especialistas, cirurgia para tratar de pacientes com diabetes — é chancela acadêmica e proteção institucional de hospitais do porte do Albert Einstein e do Sírio-Libanês. Enquanto não as tiver, será combatido pela comunidade médica e, claro, pelos laboratórios poderosos. As inovações no campo da Medicina muitas vezes são combatidas e, tempos depois, são aceitas, de maneira consensual, como se não tivessem sido atacadas, até com certa virulência, pelos especialistas. Sobre Áureo Ludovico, médico da periferia do país, vão dizer o óbvio: “O caso é diferente”. Claro que é, mas talvez seja o caso de examinar, de maneira cuidadosa — pró e contra —, a situação de seus pacientes. A maioria dos que se expõem, como Faustão, apresentador da TV Globo; Demóstenes Torres, procurador de justiça e ex-senador, e Romário de Souza Faria, ex-jogador da Seleção Brasileira de Futebol e senador, afirma que se sente bem.)

Rodrigo Casarin e Bia Mendes, depois de contar a história de Fernando Gentil, relatam os avanços da Medicina no tratamento do câncer. Eles mencionam o filme “Uma Chance Para Viver”, que retrata como o médico Dennis Slamon “revolucionou o tratamento da doença ao criar, no final da década de 1990, o Herceptin, um dos principais aliados de médicos e mulheres no combate” ao câncer de mama.

Se é uma possibilidade, a cirurgia não é a única forma de tratar o câncer de mama. “A radioterapia é um recurso bastante utilizado, que pode evitar retirar parte do corpo da mulher”, destaca a revista. “Há a técnica que fazemos hoje de cirurgias preventivas, como a que a [atriz] Angelina Jolie fez”, sugere a médica Fabiana Baroni Makdissi, cirurgiã oncologista e diretora de mastologia do A. C. Camargo. Como queria Fernando Gentil, “tão importante quanto — ou até mais importante que — curar a doença é fazer com que o bem-estar da paciente seja mantido”.

Fabiana Baroni sustenta que “a grande mudança veio mesmo quando a medicina passou a tratar o câncer de mama de forma multidisciplinar, levando em conta a autoestima das mulheres, tratando-as com respeito, prezando pela qualidade de vida, já propondo reparações das áreas afetadas, atuando junto com psicólogos e tratando cada caso de acordo com sua particularidade. Há situações em que a utilização de drogas é mais importante do que o tratamento cirúrgico, porque a resposta a ela é muito boa”.

O avanço nas pesquisas deve gerar novos medicamentos e, também, novas maneiras de tratamento. “Teremos mais trabalhos sobre a biologia do tumor e quais medicamentos podem combatê-lo sem que o paciente seja tão agredido. É preciso encontrar a genética do tumor, saber com ele nasceu, e também apostar em novas drogas como o Herceptin, que fez com que muita gente deixasse de morrer. A melhoria dos tratamentos efetivamente dá mais anos de vida ao paciente, mesmo aos que têm metástase. Hoje há a possibilidade de o paciente viver em comunhão com um câncer metastático, inclusive. E os tratamentos mais efetivos não necessariamente são os maiores. Em alguns casos, menos é mais”, sugere Fabiana Baroni.

Fernando Gentil, ao centro, trabalhou como médico nos Estados Unidos e, a partir do Hospital A. C. Camargo, em São Paulo, operou uma revolução no tratamento do câncer de mama, preservando mais o corpo da mulher


Para saber mais

Fernando Gentil morreu, aos 69 anos, em 1980. De ataque cardíaco. Ele nasceu em Fortaleza, em 1920, e se formou em Medicina na Universidade do Brasil (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Quando jovem, praticou jiu-jítsu com integrantes da família Gracie. Era um homem bonito e charmoso. Apaixonado por música erudita, gostava de ouvir os principais compositores quando fazia cirurgias. Não cobrava dos pacientes que não tinham dinheiro para pagá-lo.

A história de Fernando Gentil está relatada no livro “O Sonho de Carmem — Como a Sociedade Ajudou a Transformar a História do Câncer no Brasil” (de 2015), de Eduardo Bueno, e no documentário “Dr. Fernando Gentil — Inovação e Pioneirismo na Cirurgia Oncológica” (de 2013), de João Pavese.

Link para o documentário:

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Márcia Ribas C Bertoloni

Quando o Dr Fernando Gentil chegou dos Estados Unidos operou minha avó. Ela estava desenganada, segundo minha mãe, com um câncer no útero.
Ele a operou, e ela ficou curada.
Morreu 12 anos depois do coração!
Um médico a frente do seu tempo!