O mal-estar na civilização brasileira em tempos de pandemia do coronavírus

Evolução cultural poderá controlar perturbações geradas pelos instintos de agressão e autodestruição? O que dizer da disputa ideológica acerca do isolamento social?

Renata Wirthmann

Especial para o Jornal Opção

Não é novidade para nenhum habitante consciente do planeta que estamos no meio de uma pandemia que ultrapassa seus 2,2 milhões de infectados e 150 mil mortos em todo o mundo. Entretanto, enquanto grande parte dos 210 países atravessados pelo vírus trava uma guerra contra este importante inimigo, a Covid-19, o Brasil batalha num outro terreno: o ideológico.

O debate sobre a pandemia no Brasil ganhou um estatuto político e as discussões sobre o isolamento se transformaram numa disputa ideológica. O resultado disso é o completo desnorteamento da população, que pode ser percebido por essa dissonância entre os dados: embora 76% da população brasileira defenda o isolamento social, este não tem chegado à marca dos 50% em praticamente nenhum Estado.

Se, de um lado, a favor do isolamento, temos os argumentos dos profissionais de saúde, de pesquisadores dos mais diferentes campos do conhecimento, da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da observação direta de todos os países que começaram o enfrentamento à pandemia antes do Brasil; do outro lado, contra o isolamento, temos argumentos que parecem vir de uma fonte comum, a da religião: creia porque é absurdo (credo quia absurdum). É sobre essa queda de braço e o consequente desamparo da população brasileira que pretendo me debruçar neste texto, a partir da psicanálise.

Sigmund Freud, criador da psicanálise | Foto: Reprodução

Sigmund Freud (1856-1939) escreve, em 1930, um artigo intitulado “O Mal-Estar na Civilização” com o objetivo de pensar a difícil condição do homem na cultura. Um ponto importante de argumentação é o sofrimento que tanto parece conduzir o sujeito a se organizar coletivamente, quanto parece ser resultado dessa organização. Assim, podemos afirmar que nossa relação com o mundo e com as exigências advindas deste nos causam um enorme desamparo, devido às constantes ameaças que nos atacam de três direções: da natureza (que nunca dominaremos completamente), da fragilidade do nosso corpo (que pode adoecer a qualquer momento — de um vírus, por exemplo) e dos nossos relacionamentos (na família, nas relações amorosas ou no trabalho).

Frente a tamanho sofrimento, começamos a inventar modos de nos sentir mais protegidos. A arte, a ciência e a religião são, talvez, nossas melhores invenções. Aqui, convém lembrar a famosa frase do escritor alemão Goethe (1749-1832), citada em “O Mal-Estar”: “Quem tem ciência e arte, tem também religião; quem essas duas não tem, esse tenha religião”. Esta citação guarda a ideia da ciência em oposição e substituição à religião, tal como temos percebido, de modo muito explícito, nas discussões sobre o isolamento social no Brasil. Por outro lado, Freud propôs que uma não precisa, necessariamente, se opor ou excluir a outra, que ambas são igualmente necessárias à civilização e podem caminhar juntas.

Pintura de Botero

Com Freud, aprendemos que o ser humano não é uma criatura doce e amorosa que se defenderia apenas quando atacado; que o ser humano é extremamente agressivo, com uma forte tendência a explorar o trabalho do próximo sem recompensá-lo, capaz de utilizar sexualmente alguém contra sua vontade, de usurpar um patrimônio, humilhar, causar dor, ou até mesmo torturar e matar.

A existência desse impulso à agressão é o maior obstáculo da humanidade: fazer com que o indivíduo abra mão da violência. As multidões humanas parecem inclinadas a esse esforço por dois motivos essenciais: amor e morte. Abrem mão, sempre parcialmente da violência, pois estabelecem laços afetivos e porquê de outro modo correriam o risco de não sobreviver. Essa agressividade contra os outros nunca desaparece, ela será apenas internalizada e retornará como uma severa agressividade e vigilância contra si mesmo, por exemplo, por meio da culpa. A culpa é um resultado desse esforço civilizatório e, portanto, uma das principais ferramentas da civilização: fazer com que o indivíduo seja vigiado por uma instância integrada a ele mesmo, inconsciente.

Narcisismo das pequenas diferenças

Assim, segundo Freud, “quanto mais virtuoso o indivíduo, mais severa e desconfiadamente ele se comporta”. Esse sentimento de culpa tem duas origens. Ele advém tanto dessa instância interior quanto de uma autoridade externa. Essa autoridade é imprescindível ao sujeito e, por isso, ele se esforça por satisfazê-la, demonstrando, por exemplo, devoção. Uma forma muito eficaz de demonstrar amor a um grupo liderado por tal autoridade consiste em atacar um outro grupo, tomado como inimigo. Freud nomeou isso de “narcisismo das pequenas diferenças”, em que a coesão dos membros de um grupo é facilitada pelo ódio a elementos de um outro grupo, ou a um outro grupo por inteiro — João Doria, Luiz Henrique Mandetta, Ronaldo Caiado, Rede Globo, chineses, os comunistas etc.

Narciso, pintura de Caravaggio | Foto: Reprodução

Essa relação amorosa com os membros desse grupo e com seu líder avança até seu auge: “No auge de uma relação amorosa não há interesse algum pelo resto do mundo”. Neste momento, toda a informação e toda a verdade advêm exclusivamente deste grupo e para este grupo. Comunidades nas diferentes redes sociais, como WhatsApp, Facebook, Twitter ou Instagram substituem as informações advindas da imprensa, da ciência ou das instituições internacionais — como a OMS. Sendo a verdade do “meu grupo”, a única “Verdade”, qualquer informação que se oponha será tomada como um violento ataque, contra o qual se tornará legítimo se defender por meio das mais diversas formas de agressão.

É fundamental observar, no entanto, que este tipo de amor, devido a suas características possessivas, exclusivas e ilimitadas, tende a levar à destruição. Afinal “nunca estamos mais desprotegidos ante o sofrimento do que quando amamos, nunca mais desamparadamente infelizes do que quando perdemos o objeto amado ou seu amor.” O risco iminente e insuportável da perda desse amor — seja pela perda da devoção de seus fiéis seguidores, seja pelos acordos políticos que o líder possa vir a ter de estabelecer, contrariando a “Verdade” que até então defendia — leva a uma constante tensão. Quanto mais tempo essa tensão se mantém, maior será o retorno de uma agressividade vingativa que será dirigida a esse líder ou autoridade.

Pintura de Botero

Com a perda da autoridade se perderá também a “Verdade” que, não mais blindada contra julgamentos externos, será bombardeada pela compreensão tardia dos próprios indivíduos que até então a sustentaram a despeito da ausência de sentido (credo quia absurdum).

Neste momento, mesmo que tardiamente, aquele importante e civilizatório sentimento de culpa poderá vir a se transformar num sentimento de arrependimento. A disposição para se sentir culpado já existia e havia sido tamponada, primeiro pelo ódio dirigido a um outro grupo, depois pela vingança que retornou à figura de autoridade e, passados todos esses dispêndios improdutivos de tempo e energia, o sujeito poderá retornar à sua disposição inicial, talvez agora arrependido pelo percurso tomado.

Rua T-12, no Setor Bueno, na sexta-feira, 17: quase vazia por causa do isolamento social | Foto: Euler de França Belém/Jornal Opção

Infelizmente a ideia de que grande parte desse grupo poderia vir a passar por tal ruptura é um desejo ingênuo que parte da fantasia de que os argumentos advindos das mais nobres invenções da cultura como a ciência, a arte e a democracia teriam a potência de se sobrepor a uma Verdade arbitrária. Assim, percebemos que essa disputa ideológica acerca do isolamento social se tornará uma “questão decisiva para a espécie humana de saber se, e em que medida, a sua evolução cultural poderá controlar as perturbações trazidas à vida em comum pelos instintos humanos de agressão e autodestruição”.

Renata Wirthmann Gonçalves Ferreira é psicanalista professora-doutora do curso de Psicologia da Universidade Federal de Catalão.

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