O livro “O Peso do Pássaro Morto”, de Aline Bei, e a devastação feminina

A devastação da personagem se sustenta pelo imperativo do silêncio que imputou a si mesma, uma despersonalização ou ainda uma ameaça de autodesaparecimento

Renata Wirthmann

Especial para o Jornal Opção 

“Quantas perdas cabem na vida de uma mulher?” Com essa pergunta Micheliny Verunschk nos apresenta o livro “O Peso do Pássaro Morto”, de Aline Bei (Nós, 168 páginas). É uma narrativa densa, de linguagem única, que nos coloca diante de um importante fenômeno da clínica psicanalítica com mulheres: a devastação.

O termo devastação é a tradução para português do termo francês “ravage” que aparece na obra do psicanalista Jacques Lacan e é valorizado na clínica por Jacques Allain Miller. Trata-se de um fenômeno feminino de ruína e destruição sem limites frente a um evento avassalador. Devastada uma mulher tem uma enorme dificuldade de sustentar um semblante de existência e parece ficar mais enlaçada com a morte que com a vida.

Lacan nos apresentou esse termo a partir do livro “O Deslumbramento de Marguerite Duras” por dois motivos, pelo arrebatamento da personagem do livro frente ao insuportável da perda; e do arrebatamento causado em nós, leitores, pela escrita de Duras. Esse efeito de arrebatamento que Lacan conta ter experimentado na leitura do livro “O Deslumbramento” é o exato sentimento que me atravessou ao ler “O Peso do Pássaro Morto” em que, para narrar a devastação da personagem, a autora me arrebata como leitora.

O livro de Aline Bei inicia de um modo estranho: com uma linguagem infantil, sem parágrafos ou letras maiúsculas no início das frases ou nos nomes próprios e linhas interrompias como se fossem versos, num texto que se sustenta como prosa. A linguagem começa infantil porque a narradora tem 8 anos e é assim que uma criança fala, pensa e sente. A primeira parte do livro é narrado num universo ingênuo de quem sabe muito pouco sobre a vida e, sobretudo, de quem ainda desconhece a morte. Até que a morte se faz presente. Com a morte vieram outras descobertas: a maldade das outras crianças e o medo desamparado da falta da melhor amiga.

Caminhamos no livro e a linguagem muda, da infância para a adolescência. Neste momento a morte parece ter se afastado da menina, agora com 17 anos, alegre e apaixonada por beijar. Eis que, de um modo completamente abrupto, sem anúncio ou indicação, a autora nos tira o chão e narra, como um nocaute, o que ninguém anteviu, nem o leitor e muito menos a personagem. A garota, ainda sem nome, tem, agora, o insuportável da morte inscrito sobre seu próprio corpo que insiste em permanecer vivo.

A partir desse ponto do livro a narradora, ainda em primeira pessoa, não parece mais narrar a vida de uma menina aos 8 ou aos 17 anos, mas parece narrar a história de um corpo que se arrasta pelos espaços e pelos anos. Um corpo que se limita a cumprir sua mínima função de existir para quem está ao redor, mas nunca para si mesmo. Trabalha, paga as contas, alimenta o filho e limpa a casa. Aos 18, aos 28, 37, 48, 50 e aos 52 anos.

Do início ao fim do livro uma coisa não muda: a menina não tem um nome, embora o nome próprio pareça ser algo muito importante para a narrativa, afinal, todas as pessoas têm nome, exceto a personagem principal. Nome próprio é algo que dá existência ao corpo e à vida, talvez por isso todos mereçam um nome, menos ELA. Seu Luís, Dona Rosa, Dona Sônia, Carla, Ana, Paula, Pedro, Gustavo, Lucas, Bete, Vento, Joana e Carlos Eduardo. Todo percurso, desde a infância, é rodeado de nomes, e o nome d’ELA nunca é dito. Nem nas cartas que escreve há, no final, sua assinatura, que nos denunciaria seu nome.

Alice Bei, escritora | Foto: Reprodução

Minha experiência como leitora arrebatada se mesclou, ao longo da leitura do livro à minha experiência de escuta da clínica psicanalítica. Lendo a devastação dessa menina sem nome eu ia me lembrando das tantas mulheres devastadas que já conheci e escutei. Cada uma dessas mulheres tentando contornar a marca da falta no desespero de driblar a devastação. Muitas passam a vida toda tentando sustentar esse contorno para não cair no abismo da falta até que algumas se deparam com a impossibilidade de dar ou sustentar esse contorno ao excesso da falta, quando seu furo é maior que o suportável, quando não cabem mais perdas. Tal impossibilidade de contornar esse excesso de falta é denominado na clínica como devastação.

Devastada, a mulher terá dificuldades de sustentar um semblante de existência, como a mulher sem nome do livro “O Peso do Pássaro Morto”. O evento arrebatador aos 17 a transforma num corpo incapaz de amar ao filho, desejar sexualmente um homem ou seguir sua ambição profissional. Sua devastação se sustenta pelo imperativo do silêncio que imputou a si mesma. A psicanalista Cristina Drummond assinala que “a perda desse amor pode trazer (…) uma errância, uma despersonalização ou ainda uma ameaça de autodesaparecimento”. Esse parece ser, para mim, o percurso de vida-morte da personagem de Aline Bei e tantas outras mulheres que nós, psicanalistas, escutamos.

O livro termina com uma última mudança na voz narrativa em que ELA passa a ser narrada em terceira pessoa, não mais em primeira. Nesse momento percebemos que essa voz, em terceira pessoa, já estava enunciada desde os 18 anos e se sustentou em primeira pessoa só porque a carne ainda precisava estar lá para fazer um mínimo semblante de existência.

Renata Wirthmann é psicanalista e professora-doutora da Universidade Federal de Catalão (UFCat). É colaboradora do Jornal Opção.

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