Euler de França Belém
Euler de França Belém

O lírico Chico Buarque não exclui o artista profundamente engajado no seu tempo

Talento múltiplo do compositor e cantor não deixa ninguém indiferente e sua arte não fica datada pelo avançar do tempo

Nasci em 1961, no governo de Jânio da Silva Quadros, numa cidade do interior do Brasil.

Na década de 1960, as informações chegavam pelo rádio. Ouvia música pelas ondas das rádios Globo, Bandeirantes e algumas estrangeiros, como uma soviética.

Meu pai, Raul de França Belém, ouvia música com frequência (e, sim, “A Voz do Brasil”), era fã número zero do cantor e compositor Chico Buarque de Holanda. Ele acompanhava todos os festivais da canção (a televisão exibia-os), nos quais pontificavam Geraldo Vandré, Chico Buarque, Caetano Veloso, Edu Lobo, Nara Leão, Gilberto Gil, entre tantos outros. Mas Chico Buarque era seu deus. Comprava todos os seus discos e torcia por suas músicas nos festivais. Cresci ouvindo a música do estudante que não quis ser arquiteto. O filho de Sérgio Buarque de Holanda (o grande historiador orgulhava-se de ter se tornado “o pai do Chico”).

Entre as décadas de 1960 e 1970, comecei a me interessar pela música de Chico Buarque. A atual geração pode apreciar a excelente música do artista — que se tornou mais lírico, mas sem perder a, digamos, pegada social —, mas talvez não tenha noção de como havia uma espera ansiosa por seus discos no período mencionado.

Meu pai ficava esperando pelo lançamento de um novo disco e, ao saber que havia sido lançado, começava a operação de caça. Escrevia para a gravadora (acho) e, poucos dias depois, o vinil (LP ou compacto) chegava por meio do reembolso postal (era assim que comprávamos discos e livros).

Quando o disco chegava era um frenesi. Meu pai ouvia a música de Chico Buarque mesmerizado — não é figura de linguagem, não — durante vários dias. Quase decorava as músicas. Eu, menino, cantarolava as músicas e sabia algumas de cor, como “Funeral de um lavrador” (a preferida de Raul Belém), “Pedro Pedreiro”, “A banda”, “Construção” (música que é um verdadeiro conto, elaborada com mestria) e “Fado Tropical” (que sempre percebi como um hino alternativo do Brasil — irônico, por certo). O disco eventualmente era emprestado para outros aficionados. Formava-se uma espécie de confraria. E era sempre assim: havia um movimento espontâneo pró-Chico Buarque. Hoje, com o excesso de ofertas culturais — às vezes nem tão culturais —, não é mais assim. Porém, quanto a Chico Buarque, ainda é um pouco (talvez até muito). Gosta-se de sua racionalidade, mas nós, que amamos sua música, temos verdadeira paixão por sua arte.

Lembro-me de, menino, ouvir dos adultos: “Veja como o Chico desmonta a ditadura”. Era como se o artista fosse quase um partido de oposição ao regime civil-militar, o Partido do Chico Buarque (PCB, a sigla do Partido Comunista Brasileiro). Era o nosso partido.

De fato, enquanto a oposição, concentrada no Movimento Democrático Brasileiro (MDB), criticava o governo da Arena, na área especificamente política, Chico Buarque procedia a um desmonte da ditadura, por assim dizer, na superestrutura — desnudando o regime que impedia a liberdade de expressão. “Cálice”, que era então sinônimo de “cale-se”, era forte e permitia mais discussão do que se a pegada fosse óbvia. O compositor, com sua linguagem prenhe de finura, desconcertava aqueles que amavam e não amavam sua música. Uma de suas características é nunca provocar indiferença.

Há quem cobre um Chico Buarque mais engajado ou um Chico Buarque menos engajado. No fundo, seu engajamento é mais profundo, supera o ideológico. A rigor, nunca deixou de ser lírico — talvez tenha ficado um pouco mais, com os novos tempos, os da liberdade —, mas é um artista profundamente vinculado ao seu tempo histórico. Mas jamais fica datado, porque seu refinamento contribui para superar o imediato.

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Ademar Populina Amancio

Adorei o texto.