O jornalista Doracino Naves era múltiplo; acima tudo, um ser decente. Era gente

Intelectual dedicado à cultura, dirigiu um programa de televisão e editou uma revista. Foi vereador e secretário de Cultura. Fará falta

Iúri Rincon Godinho

Falecido nesta semana, em pleno Carnaval, Doracino Naves era um homem múltiplo, não apreensível para quem o examina(va) com uma visão estreita a respeito da variedade que um ser representa. Acho — apenas acho — que quando o conheci, nos anos 90 do século passado, era contador e administrava uma loja de autopeças. Em algum momento, ouvi falar que dirigia um cartório ou algo desse tipo. Era escritor, jornalista, agitador cultural, empresário? Tudo isto e mais um pouco.

Lá pelo fim dos anos 90, Doracino Naves era bastante popular. Vereador em Goiânia de 1988 a 1992, aproximou-se da área cultural. Fez a lei de um festival de cinema em Goiânia e outra que exigia que todo edifício médio ou grande tivesse uma obra de arte de artista plástico local no saguão de entrada — duas leis ignoradas com o cinismo silencioso e irritante do poder público.

Foi um competente chefe de gabinete do secretário de Estado de Cultura, Geraldo Coelho Vaz, no segundo governo Iris Rezende (uma época em que o então governador acabou com a secretaria e a transformou em fundação cultural sem avisá-los). Em seguida ocupou a mesma função, mas em Goiânia, junto com Kleber Adorno, a quem substituiu por um breve período — menos de um ano — na Secretaria de Cultura da capital.

Doracino Naves era, acima de tudo, afável, cordial, alegre. Um gentleman, mas sem afetação. Jamais tirava do rosto seu sorriso tão característico. Até comendo, sorria. Talvez mesmo dormindo. Raras são suas fotos em que não esteja mostrando todos os dentes. Nasceu para tratar das questões espinhosas da política sem se exaltar ou levantar a voz — coisa que nunca o vi fazer. Era um homem civilizado.

Essa aproximação com a cultura fez com o Doracino Naves surtasse, no bom sentido. Com mais de 50 anos decidiu voltar aos bancos escolares e se formou na Faculdade de Jornalismo. Editou uma revista sobre carros. Criou em 2007 um decente programa cultural, o “Raízes”, que vivia uma penúria financeira de dar dó. Seu mentor mantinha do próprio bolso os custos das gravações — uma vez me disse que tinha 15 mil reais mensais de prejuízo. Nos reunimos pelo menos umas cinco vezes para ver se dávamos jeito de estancar o esvaziamento de seu bolso. Sem sucesso. A área cultural goiana é excelente para viver grudada em leis de incentivo e no dinheiro público — ao contrário de Doracino Naves. Com isso não consegue formar um núcleo empresarial que a apoie. Os artistas são exímios também em reclamar, polemizar nas redes sociais e em transferir para os outros suas próprias culpas.

Doracino Naves no lançamento da revista “Raízes”

Câncer de pâncreas

Na segunda-feira, 26, Doracino Naves teve uma hemorragia no hospital. Em seguida, duas paradas cardíacas e faleceu. Mas estou me adiantando. O neurocientista Oliver Sacks disse ter se dado bem até completar mais de 70 anos. Sua sorte acabou, segundo contou na autobiografia “Sempre em Movimento — Uma Vida (Companhia das Letras, 411 páginas, tradução de Denise Bottmann), ao descobrir um câncer que começou no olho e passou para o fígado. Morreu aos 82 anos. A sorte de Doracino Naves acabou em 2017. Sentiu uma coceira pelo corpo. Os exames mostraram um câncer de pâncreas, sinônimo de sentença de morte, embora a pessoa possa viver entre altos e muitos precipícios, por alguns meses; em alguns casos, mais raros, dois ou três anos, como aconteceu com o ator de “Flashdance” e “Ghost”, Patrick Swayze, que depois da doença teve fôlego para, abatido e magro, gravar uma série de TV.

Na semana passada, Doracino Naves foi operado, sempre acompanhado pela mulher, Clara Dawn, escritora do primeiro time. Vinha pouco a Goiânia, o programa acabara e ele se auto exilara em sua chácara em Piracanjuba. A operação durou nove horas e Doracino Naves ficou na UTI, um procedimento normal nesses casos. Saiu em 48 horas e passou para o quarto, onde não podia receber visitas para evitar uma infecção pós-operatória.

Mas a vida tem muitos jeitos de dizer oi para a morte e todo o cuidado com a operação e o pós foi inútil. Na segunda-feira, chegou ao fim a vida deste homem múltiplo e afável. E em determinada maneira foi uma bênção, pois morrer de câncer de pâncreas é castigo medieval. Não sofreu. Partiu em pleno Carnaval, um dia em que tantos brasileiros levam no rosto o mesmo sorriso que Doracino Naves carregou a vida inteira. Era o sorriso de um homem decente, de um homem-gente.

Iuri Rincon Godinho, jornalista e escritor, é publisher da Contato Comunicação.

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