O homem, o macaco e a devastação do meio-ambiente

Há homens que desistiram de ser homens, resvalando para o rodapé na escala da evolução biológica, perdendo a racionalidade e regredindo

Valdivino Braz

O homem é um ser que se quer inteligente (há gente inteligente no planeta), embora e por vezes ainda meio burro em relação ao meio-ambiente. O que falta, mesmo, é firmeza de caráter ou personalidade a certos indivíduos. Alguns chegam a ser casos de polícia; por exemplo, atearem fogo em solo seco, transformando matas em fogaréu do inferno.

Conscientizar-se, afinal, de que o ecossistema é fonte de vida e cujo esgotamento implica condenação da própria vida no planeta Terra. E se a natureza propicia o lazer hoje tão explorado pelo turismo, a exploração, por um lado, e o lazer, por outro, devem promover a integração com o lado belo e bom do meio em que se vive, sem destruí-lo. O contrário será o caos da devastação; a terra devastada, na expressão do poeta norte-americano Thomas Stearns Eliot.

Foto: Victor Moriyama/Greenpeace

É visto que o vândalo ou predador do meio ambiente não se preocupa com o futuro de novas gerações, inclusive seus próprios filhos. Longe até de preocupar-se com a sorte do planeta devastado — sim, o planeta meio que agoniza, até pela pandemia de que se encontra acometido, entre outros malefícios. É trágico, porquanto drástico, o que ocorre com o meio-ambiente. Muito se perde por conta da estupidez humana. Boa (?) parte da humanidade voltada apenas para a acumulação do lucro, agindo de forma meramente fisiológica: dinheiro e mais dinheiro, num processo de conotação anal, diria Freud (ou não?), o pai das psicanálise.

O homem-gafanhoto, predador, como se viver fosse apenas hoje, sem se preocupar com o amanhã de sua prole, ecologicamente falando. Homens que, ao que parece, desistiram de ser homens, resvalando para o rodapé na escala da evolução biológica, perdendo a racionalidade e regredindo à condição rasteira dos seres inferiores.

Mas nem tudo está perdido, ainda que os ecologistas já tenham advertido que não se trata mais de preservar o meio ambiente, mas sim de sobrevivência. Algumas inteligências se mobilizam neste sentido com a natureza, a Mãe-Terra, como se diz. Haja vista, em todo o mundo, as correntes de defesa ambiental, à parte aqueles de caráter meramente oportunistas, buscando os refletores da mídia e a contagem de pontos junto a uma tímida opinião pública, nem sempre atenta à inteireza dos fatos.

Aproveite-se o que a natureza ainda oferece, mas com a contrapartida racional do usuário. Vá e plante árvores, predador, ao invés de derrubá-las por conveniências financeiras ou meramente predatórias. Cuida de si mesmo, cuidando do meio-ambiente, e aí contemple seus filhos, que certamente contemplam-se em ti. Cobiça e egoísmo andam juntos, enquanto a ignorância, mais cedo ou mais tarde, resulta vítima de si mesma.

Já não bastassem as chamas infernais de um sol inclemente, acentuando ainda mais o aquecimento atmosférico, tornando-o irrespirável, sufocante, sobrevêm as ações criminosas do homem. Há que suprir de oxigênio sadio a mente humana, arejá-la, se aqui nos acompanham o raciocínio.

Dentre as ações humanas, o turismo tem sido a pauta de preocupação dos governantes, principalmente no que diz respeito à exploração dos recursos naturais como fontes geradoras de riquezas e lazer. Alguns ainda mostram uma visão caolha quanto à exploração turística racionalizada, e prevaricam (deixam de fazer) o que deve ser feito em defesa do ecossistema. Belos sítios naturais, com a exuberância de fauna e flora, descortinam-se para a contemplação e usufruto do lazer, aliados ao fator econômico. Cumpre a cada um, e a todos conjuntamente, consciência e importância de seu papel no esquema natural das coisas.

Agir como um reles predador ou vândalo — extensão de lavoura, extração criminosa de madeira, crateras de garimpos, queimadas e outras formas de agressão ambiental. — é colocar-se abaixo de um simples macaco, que é um animal inteligente e devidamente integrado ao seu habitat; gozando a vida e o direito de existir, sem destruir o cipó de que necessitará para o caminho de volta. Pode parecer um ponto de vista simiesco, todavia oportuno a estes tempos indisciplinados, criminosamente incendiários, num processo contínuo e devastador.

Mire-se o homem nos milhões de hectares consumidos pelas chamas. E parece-nos que utilizar aceiros e abafadores no combate ao fogo é lançar mão de rudimentares instrumentos numa luta desigual. Mais aviões. Onde estão os aviões? Apenas um avião ou helicóptero buscando e levando bolsões com água de um rio até as áreas em chamas (a fúria das labaredas, com a colaboração do vento), é meio que chover ou chuviscar sobre o fogo do inferno. Mais aviões de menor ou médio porte em cada local, se fazem necessários (e não?) para debelar grandiosos incêndios, naturais ou por mãos incendiárias. Pois é: aviões não faltam para exibições acrobáticas nos eventos cívico-militares, como não faltam aquelas espetaculares esquadrilhas de fumaça desenhando no espaço.

Inviável a utilização de mais aviões junto aos incêndios florestais? Impossível? Vale aqui citar uma frase do romancista francês Jean Cocteau: “Não sabendo que era impossível, foi lá e fez.”

Onde há fumaça, há fogo consumindo a biodiversidade dos biomas. Veja o que acontece na Califórnia e outros estados norte-americanos. De resto (ou de arrasto), se o homem rasteiro evoluiu o suficiente para realizar viagens espaciais, explorando parte do universo, por que não evoluir também em relação ao meio ambiente em que vive? Pés no chão, olhe-se no triste cenário do Pantanal mato-grossense, na Chapada dos Guimarães e nos parques ambientais, como o Parque Nacional das Emas, em Goiás, dentre outras partes do globo terrestre.

Contemple-se o homem (contemplemo-nos) na devastação da Amazônia, da Mata Atlântica, do Cerrado e de outros biomas vitais para os rios e a vida humana. Sensibilize-se o predador com tamanhas devastações, por onde até os animais, assim como as pessoas, sofrem consequências de terras arrasadas. Pense nisso, ó predador, pela parte que lhe toca. Seja responsável. E, de carro ou a pé, no bom sentido, siga em frente com o meio ambiente. E cuida bem do teu cipó.

Valdivino Braz é jornalista e escritor. É colaborador do Jornal Opção.

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