Euler de França Belém
Euler de França Belém

O governo vai ter de assumir um papel maior do que no passado, diz o Nobel de Economia

Professor de Columbia afirma que, se as pessoas não forem salvas, a economia será devastada. Elas não irão a restaurantes nem viajarão

O repórter Breno Pires, do “Estadão” (domingo, 5), entrevistou Joseph Stiglitz, professor de Columbia e Prêmio Nobel de Economia de 2001. O economista informa que vai o lançar o livro “Pessoas, Poder e Lucro”, que propõe “um novo contrato social, um novo equilíbrio entre o mercado, o Estado e a sociedade civil”.

Stiglitz frisa que, quando se tem uma crise mais profunda, todos se voltam “para o governo”. “O mercado não lidou adequadamente com os riscos de uma pandemia, com o risco de mudanças climáticas, todos os riscos sociais. Isso destaca o papel central do governo em nosso bem-estar. E, quando temos escassez, como temos nos Estados Unidos, de máscaras, ventiladores e testes, é um fracasso do mercado. Precisamos da intervenção do governo e, quando ele não intervém, nós sofremos.” Ele disse que o grande número de mortes nos Estados Unidos, devido ao novo coronavírus, se deve às falhas do governo de Donald Trump, que demorou a agir.

Joseph Stiglitz: Prêmio Nobel de Economia clama por mais Estado | Foto: Reprodução

(Um parêntese: um jornalista, quando diretor de redação da revista “Veja”, obrigou todos os colegas a escreveram “Estado” com “e” minúsculo. Seria uma forma de mostrar a sua desimportância. No seu provincianismo falsamente cosmopolita, não quis perceber o óbvio: o Estado nos quatro países mais ricos do mundo — Estados Unidos, China, Japão e Alemanha — é fortíssimo. O Estado tem de ser considerado maiúsculo, e não minúsculo.)

Estados Unidos e Brasil não apostam em ciência

O economista frisa que a ciência foi crucial — e rápida — ao analisar o novo vírus, e “desenvolvendo o teste”. “Toda ciência é baseada em apoio governamental. Esse é outro exemplo da importância do governo. E no Brasil e nos EUA, temos governos que não acreditam em ciência. E nós vemos as consequências.”

O bem-estar dos povos, frisa Stiglitz, depende do que chama de “capitalismo progressista”. Ao contrário dos liberais, que pregam o primado de um mercado cada vez maior e um Estado mínimo, o economista propõe outro caminho: “O mundo do século 21 é um em que o governo terá de assumir um papel maior do que no passado — a razão pela qual eu defendo um capitalismo progressista. Os mercados ainda serão importantes. Mas não podem ser os mercados irrestritos do neoliberalismo. A desigualdade cresceu. E é por isso que nossa política ficou tão feia [referência possivelmente a Donald Trump, Viktor Mihály Orbán, da Hungria, e Jair Bolsonaro]. O Brasil tem os mesmos problemas. Vocês progrediram na redução da desigualdade, fornecendo educação, em governos de centro-esquerda e de centro-direita, com [Fernando Henrique] Cardoso e Lula [da Silva]. Mostraram que poderiam crescer com prosperidade compartilhada e diminuir a desigualdade. Mas Bolsonaro está indo na direção oposta e isso significa que a proteção do meio ambiente será pior, e você estará exposto a mais doenças, e a educação será prejudicada. O futuro do Brasil está sendo colocado em risco”.

Jair Bolsonaro e Donald Trump: o primeiro contou com a sorte de ter o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, e o segundo demorou a agir e tem “sangue nas mãos”, segundo o professor de Columbia Joseph Stiglitz | Foto: Reprodução

(O fato é que, apesar do discurso liberal do ministro da Economia, Paulo Guedes, Bolsonaro ainda não desmontou o mediano Estado do bem-estar social no país. Há problemas com as universidades — o viés ideológico não deixa a equipe do ministro da Educação, Abraham Weintraub, perceber que a ciência produzida no setor público está acima do embate ideológico —, mas o Fundeb tende a ser mantido. A bolsa família também não acabou e os Estados continuam com suas políticas sociais intactas.)

Há um debate meio pobre no Brasil: vamos salvar vidas ou vamos salvar a economia? As duas questões estão ligadas, mas são apresentadas como contraditórias, e não apenas por Bolsonaro e determinados empresários. A posição de Stiglitz: “O fato é que, se você não salvar as pessoas, a economia será devastada. Pessoas não irão ao restaurante, ficarão nervosas quanto a ir ao trabalho, não irão voar por aí, haverá medo no ar. Basicamente, a economia se encaminhará para a paralisia se não pararmos a pandemia. Por isso, é uma boa decisão colocar a prioridade nas pessoas e controlar a pandemia. Fizemos isto nos Estados Unidos depois de pressão dos democratas e para criar as condições para ressuscitar a economia quando a pandemia estiver sob controle. Mas ainda há buracos”.

O repórter do “Estado” menciona que o scholar de Columbia afirma que “a economia capturou” a política e, portanto, quer saber se Trump e Bolsonaro são representantes das grandes corporações. “Pessoas como Trump são interessadas na sua própria reeleição, no seu próprio poder, isso torna difícil descobrir o que de fato apoiam. Não apoiam nada. Não há um princípio conservador. Não há princípios. Trump ganhou o apoio da grande indústria, então, não surpreende que ela esteja no topo da sua agenda. A primeira resposta dele foi corte de impostos para corporações, apesar de não ter nada a ver com a crise [a provocada pelo coronavírus]. Devemos enxergar o que eles têm feito não como algo baseado em um conjunto de princípios ideológicos coerentes, mas como um oportunista tentando lidar com a situação. No começo ele pensou que poderia apenas negar, dizer que ‘está tudo bem’. A razão de o avanço da doença estar tão grave é porque não fizemos nada por muito tempo”. E, claro, o problema não é só o republicano Trump. Porque mesmo o democrata Barack Obama, apesar da mídia com a qual cercou seu projeto, não melhorou, em larga escala, o sistema de saúde dos Estados Unidos, um dos caros do mundo para os usuários.

A burocracia eficiente dos Estados Unidos, que independe do presidente para tomar determinadas providências, está fazendo a diferença no combate ao coronavírus, segundo Stiglitz. Sem tal burocracia, sublinha, a situação do país estaria muito pior. O economista não cita, mas o governador do Estado de Nova York, o democrata Andrew Mark Cuomo, agiu mais rápido do que Donald Trump. Mas Nova York, que não é a capital do Estado, é uma cidade transnacional e, por isso, não teria como não ser fortemente atingida pelo coronavírus. “Instituições, como o nosso Centro para Controle de Doenças, que são muito profissionais, e médicos de alguma maneira nos salvaram. Também fomos salvos pela intervenção de governadores, mas eles não podem resolver o problema da oferta, da falta de máscaras, de equipamento de proteção e de ventiladores. E a falta de testes — de responsabilidade do governo federal, que não faz seu papel. Faltou fazermos testes por semanas a fio e o resultado, francamente, é que existe sangue nas mãos de Trump. As pessoas estão morrendo por causa da sua inação”.

O Brasil está se salvando, avalia Stiglitz, porque também tem instituições e médicos dedicados. De fato, fica-se com a impressão de que no país de Machado de Assis, os médicos, enfermeiros e outros especialistas são verdadeiras instituições. Tanto que apareceram vários profissionais para trabalhar, pegando no pesado, e para explicar à população a periculosidade do coronavírus. Eles ensinam, com paciência infinda, o que é preciso fazer para evitar (ou reduzir a possibilidade de) a contaminação. Tais pessoas se mostram incansáveis, embora sejam humanas como quaisquer outras.

No caso brasileiro, há outro diferencial: além dos governadores, que se rebelaram contra o errático presidente, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, operou com rara desenvoltura e autonomia, cobrando o isolamento das pessoas.

Stiglitz afirma que a liderança americana é ruim, o que está se revelando na questão do coronavírus — quando os discursos de Trump, ante o número de mortos e contaminados, não “comovem” mais ninguém, talvez nem ele. O economista diz que a liderança do Brasil é “ainda pior”. Talvez não seja. Mesmo aos trancos e barrancos, ameaçando com demissão, Bolsonaro não impediu que Mandetta fizesse seu trabalho. Ademais, a equipe do presidente não é, ao contrário do que sugere o mestre de Columbia, ruim. Os que cuidam de uma espécie de “agenda comportamental” e ideológica, estes, sim, parecem saídos direto do século 19, de tão anacrônicos, e se tornaram viventes no século errado, do qual estão inteiramente desconectados. Paulo Guedes, Mandetta, Tereza Cristina, Tarcísio de Freitas e Sergio Moro e os ministros militares estão de olho no presente e no futuro, não são apóstolos, nostálgicos, de um passado conservador e moralmente limpinho que não voltará jamais.

O financiamento estatal dos custos da crise é crucial, destaca Stiglitz. “A única forma de evitar o colapso do sistema é o dinheiro governamental. Para conter a pandemia, a saúde é o mais importante e isso tem de ser priorizado em termos de orçamento. A grande diferença em relação aos mercados emergentes é que nos EUA não nos perguntamos se podemos bancar isso. Ampliamos o déficit de US$ 1 trilhão, 5% do produto interno bruto, em US$ 2 trilhões, 15%. Podemos explodir o orçamento sem nos importarmos com isso. A maioria dos países em desenvolvimento não pode.” O Brasil, na sua opinião, deve articular uma “repriorização”, ou seja, tem de definir que é preciso salvar o que existe — uma economia forte mas com problemas — antes de avançar rumo ao crescimento. “Talvez exija um corte temporário em parte das pensões, com uma renda mais alta. Um aumento temporário nos impostos de pessoas com maior renda. Vai ser necessário estabelecer novas prioridades pelo menos neste ano e provavelmente para os próximos dois anos. O Brasil e outros países vão sofrer restrições orçamentárias, então precisam levantar dinheiro. A comunidade internacional deveria fornecer mais apoio a países em desenvolvimento e aos mercados emergentes.”

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