Elder Dias

“O Globo” prova: vaidade mata antes da hora

Depois de Mario Sergio Conti fazer a “bilocação” do técnico Luiz Felipe Scolari, os experientes Ancelmo Gois e Ricardo Noblat também mostram dons sobrenaturais, ao “executar” Ariano Suassuna 

Layout 1Um dos aforismos mais antigos e verdadeiros está na Bíblia. Mais precisamente no Antigo Testamento, no início do “Eclesiastes”. Lá o autor, que dá nome ao livro, diz “Vaidade de vaidades, é tudo vaidade!”. Algo que serve de referência para a última fala de “O Advogado do Diabo”, em que o próprio — não o advogado, mas o diabo —, interpretado por Al Pacino, sentencia: “Vaidade: definitivamente, meu pecado favorito!”.

Se tudo é movido a vaidade, como diz o Eclesiastes, e se essa é a coisa de que o diabo mais gosta, conforme sugere o roteiro do filme, nada mais natural que cada um tenha como calcanhar de Aquiles a sombra do vício em relação a tudo aquilo que faça, até na profissão que exerça. O jornalismo não é exceção. Repórter quer ganhar prêmio, fotógrafo tenta sempre fazer o clique para estampar a edição de domingo, diretor fica de olhos brilhando pelo aumento da tiragem ou um recorde de acessos no portal.

Mas nada supera o furo, a vaidade das vaidades no mundo jornalístico. Todo repórter corre atrás de ser o primeiro a dar uma notícia importante. É pela capacidade de se antecipar aos concorrentes que é medida, no meio, a grandeza de um profissional ou de um veículo. E assim, também pelos furos, tornaram-se famosos e respeitados nomes como Ancelmo Gois e Ricardo Noblat.

Ancelmo Gois e sua “morte e ressurreição” de Suassuna: vaidade por furo virou errata constrangedora

Ancelmo Gois e sua “morte e ressurreição” de Suassuna: vaidade por furo virou errata constrangedora

Como qualquer grande profissional, eles também falham. E foi o que ocorreu nesta semana, quando agonizou e morreu Ariano Suassu­na o terceiro grande nome que a li­te­ratura brasileira perdeu em menos de uma semana, depois de João Ubaldo Ribeiro e Rubem Alves.
E a redação de “O Globo” mostrou novamente que está bem propensa a dons sobrenaturais. Pouco mais de um mês após Mario Sergio Conti, outro respeitado nome do jornalismo nacional, ter produzido o fenômeno da bilocação — entrevistando o Felipão cover durante um voo como sendo o original, que estava em terra firme em Fortaleza —, Ancelmo executou uma “ressurreição”: noticiou a morte de Suassuna às 17h31 da terça-feira, 22, e o voltou à vida às 17h53. Para completar, seu colega Ricardo Noblat fechou a tríade com uma pitada de vidência via Twitter: “É uma questão de horas a morte do escritor Ariano Suassuna, vítima, ontem, de um AVC, operado às pressas no Recife. Lamento mutíssimo (sic).”

De fato, naquela terça-feira o es­tado do escritor paraibano já era mui­to grave. Em casos assim, o instinto jornalístico costuma misturar vaidade e morbidez. O receio de ser “fu­rado” por questão de minutos leva o profissional a “crer” na fonte em vez de checar o que ela transmite.

Ao anunciar a morte do escritor, Ancelmo não cita uma pessoa, mas uma entidade: dá a entender que a própria Academia Brasileira de Le­tras (ABL), que tinha Ariano Suas­su­na em seus quadros, seria a emissora da notícia: “A Academia Bra­si­lei­ra de Letras acaba de informar que morreu o acadêmico Ariano Sua­s­suna, 87 anos. Ele estava internado em Recife após sofrer um AVC.”

Vinte e dois minutos depois, Ancelmo fez a errata, que entrou para os caso típicos de emendas piores que os sonetos. Com o título “ABL corrige informação: Suassuna não morreu”, ele publicou: “A Academia Brasileira de Letras voltou atrás e negou que o acadêmico Ariano Suassuna, de 87 anos, tenha morrido, como informamos aqui há pouco. Ele permanece internado em Recife após sofrer um AVC. Melhor assim.”

Ricardo Noblat sentenciou  que o escritor iria morrer: “acertou”, um dia depois

Ricardo Noblat sentenciou
que o escritor iria morrer: “acertou”, um dia depois

Optar pelo uso do termo “voltar atrás” para uma notícia de morte é algo um tanto sarcástico. Teria sido o “voltou atrás” um eufemismo para “desmentiu” ou para “errou”? E quem desmentiu? Teria sido mesmo a academia? Ou alguém da família ou de dentro do hospital (o repórter mesmo pode ter feito uma checagem “a posteriori” da imprudência)?

Quem seria a fonte de Ancelmo na ABL? Ninguém nunca soube nem saberá. O fato é que os 20 minutos em que a notícia esteve propagada pelo blog e pelas redes sociais se multiplicaram. Durante algum tempo, as notícias quentes de Ancelmo Gois estarão chamuscadas por ter levado Suassuna para o além antes da hora.

E, como dizem os que acreditam que a vida imita a arte, aconteceu, ainda que no prazo de 24 horas — o escritor morreria na quarta-feira, 23, às 17h28 —, a “ressurreição” do autor do “Auto da Compadecida”: tal qual o malandro inocente João Grilo, que volta ao mundo depois de passar pelos umbrais da morte, assim ocorre com seu criador. Ariano Suassuna, que apesar de brilhante não era dos mais vaidosos, enxergaria tudo com seu característico bom humor.

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