Euler de França Belém
Euler de França Belém

O fim da era do britânico Eric J. Hobsbawm e a crítica de Perry Anderson

“Como pode ter ignorado o maior de todos os progressos humanos [a democracia]. O número de democracias, entre 1973 e 2000, deu um salto e chegou a 85”

Texto publicado no Jornal Opção em 13 de outubro de 2012

As duas críticas mais corrosivas à obra do historiador britânico Eric John Ernest Hobsbawm (1917-2012)— intelectual admirável, apesar de certa miopia política — foram feitas por dois scholars da esquerda, o marxista inglês Perry Anderson, no ensaio “A esquerda vencida: Eric Hobsbawm”, de 2002, inserto no livro “Espectro — Da Direita à Esquerda no Mundo das Ideias” (Boitempo Editorial, 441 páginas, tradução de Fabrizio Rigout e Paulo Cesar Castanheira), e o inglês Tony Judt, no ensaio “Eric Hobsbawm e o romance do comunismo”, de 2003, publicado no livro “O Século XX Esquecido — Lugares e Memórias” (Edições 70, 462 páginas, tradução de Marcelo Felix).

Publicado há dez anos, o ensaio de Perry Anderson é um balanço crítico rigoroso dos principais livros de Hobsbawm: “A Era das Revoluções”, “A Era do Capital”, “A Era dos Impérios”, “Era dos Extremos — O Breve Século 20” e suas memórias, “Tempos Interessantes — Uma Vida no Século 20”, todos publicados pela Companhia das Letras. O último, segundo Perry Anderson, poderia ser chamado de “A Era de E. J. H.” e se trata do “melhor texto” escrito pelo “estilista notoriamente bem-sucedido”.

Eric Hobsbawm: um dos mais importantes historiadores britânicos | Foto: Reprodução

Assim como Tony Judt, Perry Anderson nota que, nas memórias, “não há pistas” das opiniões de Eric Hobsbawm “sobre os julgamentos de Moscou, que acabaram com os antigos bolcheviques e estabeleceram os parâmetros para os julgamentos em Sófia, Budapeste e Praga”. Mesmo depois do Relatório de Kruschev, de 1956, “Hobsbawm continuou a acreditar na honra de Stálin. (…) O que está claro é que ele esperava que a verdade [sobre os crimes de Stálin] fosse revelada não por fontes independentes (checadas criticamente), mas por uma autoridade. Aparentemente, o militante e o historiador eram identidades isoladas”. Os historiadores deixaram o partido, em 1957, mas Hobsbawm ficou. Seu argumento: “Ainda pertenço à primeira geração de comunistas, para os quais [a] Revolução de Outubro era a referência central do universo político”.

Perry Anderson nota que, talvez para evitar a denúncia do stalinismo, Eric Hobsbawm “não discute a história política real do período, ‘stricto sensu’”.

Depois de examinar “Tempos Interessantes”, Anderson discute “A Era das Revoluções”, “A Era do Capital”, “A Era dos Impérios” e “Era dos Extremos” — quatro obras excepcionais.

Em “A Era das Revoluções”, Hobsbawm destaca que a indústria do algodão, que “representava o triunfo das exportações sobre o consumo interno”, foi o elemento decisivo do período. Perry Anderson acrescenta: “Historiadores posteriores enfatizaram a vantagem comparativa da Grã-Bretanha propiciada pelo carvão como condição-chave para a Revolução Industrial”.

Em “A Era do Capital”, Perry Anderson nota que Hobsbawm não arrisca uma “análise causal” da Grande Depressão de 1873. “Pouco fala das possíveis razões da recuperação, além do aumento do poder aquisitivo nas grandes cidades, após a deflação causada pela desaceleração. Talvez a ausência de investigação seja o preço pela elegância enxuta da trilogia, cujo ritmo vai contra a paciente investigação econômica que Hobsbawm praticou em ensaios como ‘A crise do século XVII’.”

Perry Anderson: historiador inglês | Foto: Reprodução

Hobsbawm assinala que, entre 1850 e 1875, a burguesia torna-se dominante. Mas ressalva que, “na maioria dos países, a burguesia não controlava nem exercia o poder político. O que exercia era a hegemonia, e o que determinava cada vez mais eram as políticas governamentais. Não havia alternativa ao capitalismo como método de desenvolvimento econômico”. Perry Anderson corrige: “O que essa descrição sugere, mas não diz, é que entre as esferas econômica e política não havia uma semelhança, mas uma torção. O império do capital não significava necessariamente governantes burgueses. (…) As grandes rebeliões políticas do período formam um conjunto que concentra todos os elementos dessa mudança decisiva: as unificações da Alemanha e da Itália, a Guerra Civil Americana e a Restauração Meiji, no Japão. ‘A Era do Capital’ engloba todas elas, mas, ao distribui-las por capítulos distintos, não as relaciona de uma maneira que exponha a questão histórica subjacente”.

“A Era dos Impérios”, avalia Perry Anderson, “não discute o controle contínuo das elites aristocráticas e agrárias sobre a cúpula do Estado e da sociedade na ‘belle époque’, como fez o historiador Arno Mayer, mas relata a ‘dissolução dos contornos claros da burguesia do século XIX’ no advento da corporação moderna, na emancipação das mulheres e, acima de tudo, na crise do liberalismo — uma destruição moral e ideológica que levou a 1914”.

A obra-prima de Eric Hobsbawm, segundo Perry Anderson, é a “Era dos Extremos”. “A mudança mais impressionante no quarto volume é o desaparecimento total da burguesia, que nem figura no índice.” Neste livro, “Hobsbawm oferece explicações parciais sobre a Grande Depressão dos anos 1930, o boom da Idade de Ouro e mesmo o longo desaquecimento”. Ao contrário de Eric Hobsbawm, “Robert Brenner mostrou que o início da desaceleração nos Estados Unidos não pode ser explicado pela compressão dos salários, assim como o fim do aquecimento no pós-guerra não é explicado pela explosão salarial”.

Ao tentar “piorar” a situação do mundo, Eric Hobsbawm deixa de perceber, segundo Perry Anderson, que “a balança de bem-estar se inclina para o lado do período mais recente, não para o mais antigo”.

O século 20 foi, da perspectiva de Eric Hobsbawm, o mais violento da história, com “187 milhões de mortos por guerras, massacres, execuções ou fome”. Embora concordando que “o período foi suficientemente homicida”, Perry Anderson aponta suas discordâncias. De 1950 a 1972, morreram em conflitos cerca de 45 milhões. “Em compensação”, ressalva Perry Anderson, “a taxa de mortandade no mundo caiu rapidamente na era da ruína”. De 1973 a 1994, noutros conflitos, morreram aproximadamente 5 milhões. “As barbaridades da era atual estão longe de terminar, mas, nesse período, não há por que lamentar o período anterior.”

Uma das falhas graves de Eric Hobsbawm, ao analisar o século 20, é praticamente ignorar a China. “Faltou à China um lugar à sua altura no balanço do século. O Japão também aparece menos do que deveria.” O único japonês citado é o diretor de cinema Akira Kurosawa.

Em “Era dos Extremos”, Eric Hobsbawm descreve os anos 1960, com suas mudanças culturais-comportamentais, de maneira “amarga”. Embora perceba “o avanço mundial da emancipação das mulheres”, não conecta as lutas feministas com dissolução dos laços tradicionais entre as pessoas. Perry Anderson ressalta que o historiador exclui a burguesia de a “Era dos Extremos”.

Os Estados Unidos, país central do século 20, não ganharam destaque merecido em a “Era dos Extremos. “Não há nenhum tratamento direto.” Mas a União Soviética, o país perdedor, merece total destaque. “Essa centralidade do perdedor destaca ainda mais a marginalização relativa do vencedor. (…) Se a China nunca entra completamente num lado do panorama, os Estados Unidos também não se ajustam muito bem ao outro. O desaparecimento, em ‘Era dos Extremos’, da classe dos senhores que acompanhamos nos livros anteriores pode ter algo a ver com essa perda de foco.” Perry Anderson nota que “a burguesia esteve no comando durante toda a primeira metade do século. (…) A América foi ‘par excellence’ a terra da burguesia em sua forma mais robusta.” Ao omitir a vigência da burguesia americana, a ‘“Era dos Extremos’ apresenta um retrato decapitado da sociedade contemporânea”.

Na sua paixão pelo socialismo, Eric Hobsbawm parece ter se esquecido de algo decisivo e, por isso, Perry Anderson pergunta: “Qual é a visão de Hobsbawm sobre a democracia do século 20? (…) Como pode ter ignorado o maior de todos os progressos humanos, que se espalhou pelo globo? O número de democracias certificadas no planeta subiu de 22, em 1950, para apenas 31, em 1972; mas, entre 1973 e 2000, deu um salto e chegou a 85. (…) Isso não é suficiente para demonstrar que tudo o que vem realmente despencando ladeira abaixo são as tiranias de um tipo ou de outro?”

Perry Anderson conclui que estamos num “mundo imensuravelmente melhor e mais livre”. No entanto, Eric Hobsbawm fala tão-somente em “catástrofes”. A questão da emergência da política eleitoral de massa no fim do século 19 não parecia agradar o historiador Eric Hobsbawm. Por quê? Possivelmente porque poderia atrapalhar ou retardar, do seu ponto de vista, a “revolução”.

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