Euler de França Belém
Euler de França Belém

O êxodo rural dos pássaros do campo para Goiânia

Udu-coroado, choquinha-barrada, cambacica, guaracava frequentam os bairros da cidade em busca de comida e árvores para ninho e proteção

De tão forte em determinado período recente da história brasileira, o êxodo rural se tornou tema inclusive de redação de vestibulares pelo país afora. A banda passou, Nara Leão nos deixou e Chico “Funeral de um lavrador” Buarque continua reverberando. Homens do campo mudavam-se para as cidades, notadamente para suas periferias, em busca de melhores condições de vida. Outras vezes eram expulsos, às vezes por grileiros e, também, pelo avanço do capitalismo na zona rural, numa espécie de modernização tão excludente quanto expurgadora.

Udu-coroado: um dos belos pássaros que frequentam quintais em Goiânia | Foto: Euler de França Belém/Reprodução

Aos poucos, o êxodo rural diminuiu, ou melhor, estabilizou-se. Há correntes migratórias citadinas de Estados para Estados. São Paulo continua a ser uma das principais mecas. Mas vários Estados recebem migrantes. Goiás, no momento, recebe pessoas, em grandes quantidades, da Bahia, do Maranhão e do Pará. Os chegantes procuram, em larga escala, Goiânia e cidades do entorno da capital, como Senador Canedo, Aparecida de Goiânia e Trindade, entre outras. São brasileiros “fugindo” dos baixos salários — chegam a dizer que o salário-mínimo real de seus Estados é inferior ao salário-mínimo dito legal — e, claro, da pobreza. Nas unidades do Restaurante Madero, dos shoppings de Goiânia, quase todos os garçons são da Bahia, principalmente de Correntina. Mas maranhenses começam a se tornar dominantes em lanchonetes, restaurantes e lojas. Assim como paraenses, que tentam me empolgar com o celebrado tacacá. “Perto da rodoviária, há um tacacá divino”, diz um técnico em informática que, recentemente, trouxe um amigo (açougueiro do supermercado Bretas) de Redenção para morar em sua república, no conjunto Riviera.

Depois do êxodo rural humano, procede-se agora ao êxodo dos pássaros para as cidades. Porque, nas cidades, há uma “política” de se plantar árvores, de se cultivar o verde e, mesmo, de se proteger os animais. Os condomínios horizontais, por exemplo, estão cuidando bem de suas arvores, sempre plantando “novas” espécies, como acácias (com seus buquês rosas), ipês (branco, rosa e amarelo), quaresmeiras (flores variadas), jacarandás (e suas belas flores roxas) — e até frutíferas (caju, goiaba, pitanga, cagaita, jaboticaba, jambo e amora). Nos quintais, algumas pessoas colocam banana e mamão para alimentar uma variedade imensa de pássaros. Onde há comida há também uma festa de pássaros. A grama também atrai pássaros, tanto pelos grãos quanto pelos insetos.

No nosso condomínio, o Housing Flamboyant (onde moram as cantoras gêmeas Thalia e Thaleia), nas imediações do Autódromo Internacional de Goiânia, todos os dias aparecem várias espécies de pássaros. Comecei a observá-los com certa atenção. Estão à caça de alimentos, é claro, mas fico com a impressão de que também procuram árvores para sua proteção — são altas — e para fazer ninhos. Há algum tempo, quando ia para a chácara de um irmão, entre Senador Canedo e Bela Vista, deliciava-me com a quantidade de árvores. Recentemente, ao visitar Bela Vista, eu e Candice Marques, minha mulher e companheira de proteção aos pássaros, percebemos que a soja está tomando conta da região. Felizmente, há os condomínios de chácaras que preservam e plantam novas árvores. Curiosamente, num condomínio de chácaras, apareceu uma onça, e há várias histórias a respeito — até míticas. Um dos moradores do condomínio disse: “Ela invadiu nosso espaço”. Talvez seja a senha para matá-la. Mas o verdadeiro invasor é quem “acusa” o felino de invasão.

A beleza majestosa do udu-coroado

Udu-coroado: observe a beleza do pássaro e sua cauda “cortada” | Foto: Euler de França Belém/Jornal Opção

Então, sem comida, os pássaros estão de mudança para a cidade, como os homens do campo de tempos atrás (aliás, o êxodo humano não acabou). Mudança pra ficar — cada dia chegam espécies novas e arrancham-se. Na nossa casa, o novo inquilino, que vem para comer, mas já descansa nos pés de caju e de lima da pérsia. É o udu-coroado.

Há pouco tempo, estive no Campus Samambaia da Universidade Federal de Goiás e disse para Candice: “Vi um pássaro lindo”. Tentei identificá-lo, consultando meus quatro livros especializados, mas não consegui. Certo dia, de manhã, vi o mesmo pássaro no nosso quintal, comendo banana. Consegui fotografá-lo e postei a fotografia no Facebook e pedi a colaboração dos amigos — como o fotógrafo e passarinheiro Nunes D’Acosta e a bióloga Daniella França (minha sobrinha) — para identificá-lo. Logo o nome da espécie surgiu: udu-coroado. O jornalista Alziro Zarur o conhece como “tropeiro”. “Por causa do canto dele: como se estivesse tocando tropa, tipo: ‘buro ou ura’.”

Corri ao livro “Aves Brasileiras — E as Plantas Que as Atraem” (Dalgas Ecoltec, 476 páginas), de Johan Dalgas Frisch e Christian Dalgas Frisch. A informação sobre o udu-coroado está na página 108. O pássaro é mencionado como udu-coroado, udu-de-coroa azul e juruva (curiosamente, nesta obra, as fotografias do udu-coroado e da juruva sugerem pássaros parecidos, mas diferentes). Relato dos autores da obra: “Numa madrugada, ao sair do ninho, a juruva avistou na clareira da floresta a Mãe do Fogo, que se lamentava e chorava. Ao se aproximar, descobriu que a outra desesperava-se porque perdera o fogo com que acenderia o Sol para iluminar a Terra. Tentando ajudar a divindade, a juruva voou até a casa de um velho pajé e contou-lhe a desgraça que ameaçava a Mãe do Fogo. O velho sábio ajeitou uma brasa entre as penas da longa cauda da ave para que a juruva pudesse transportá-la. Assim se explica a falha próxima à ponta da cauda que essas aves apresentam. A Mãe do Fogo recebeu-a radiante e disse-lhe: ‘O pajé é a prudência e tu, juruva, a inspiração. Salvastes o mundo’”.

Um belo mito. O udu-coroado, de fato, tem uma cauda que começa, parece terminar e, em seguida, reinicia-se. Sobretudo, é um belo pássaro, cujas penas multicores chegam a lembrar o arco-íris. Nos primeiros dias, em nosso quintal, parecia desconfiado, fugia a qualquer movimento meu. Aos poucos, está se acostumando. Na terça-feira, 9, pude fotografá-lo bem de perto enquanto estava assentado no cajueiro. Parecia tranquilo, observador. Fotografei e fui verificar se havia comida nos três recipientes — desses pequenos de manteiga, com furos embaixo para não juntar água (tentativa de escapar do mosquito da dengue). Não havia. O udu-coroado estava à minha espera.

A graciosidade da choquinha barrada

Choquinha-barrada (fêmea) | Foto: Euler de França Belém/Jornal Opção

Outro pássaro que chama a minha atenção é a choquinha barrada, que Nunes D’Acosta e Candice também apreciam. É um casal, que aparentemente tem ninho próximo (sugere o expert Nunes D’Acosta), talvez num pé de acácia. A família é belíssima. Graciosos, apreciam frutos e comem insetos. O macho é carijó (pedrês, digamos) e a fêmea, marrom. São diferentes, mas ambos se distinguem por um imponente topete.

Choquinha lisa (macho) | Foto: Euler de França Belém/Jornal Opção

Não me canso de ver este belo pássaro, sutil, discreto e arisco. Já o fotografei e filmei (inclusive o canto) várias vezes, sempre com celular, o que justifica a má qualidade das fotos.

A choquinha surpreende pelo canto forte, alto. Leve, parece acariciar os galhos dos pés de sabugueiro, pitanga, lima da pérsia e caju. Chega para comer e não é de desafiar quem já está papando. Começa a lanchar, é expulsa por um pássaro maior ou mesmo de seu tamanho e fica por ali, à espera de uma nova oportunidade. Volta várias vezes por dia ao quintal.

A imponência dos sabiás

Sabiá-do-campo: imponência e autoridade no quintal | Foto: Euler de França Belém/Jornal Opção

Na nossa garagem, no xaxim de uma renda portuguesa, um casal de sabiá-ferreiro fez um ninho. Candice deixou de molhar a planta para não “gorar” os ovos. Pouco depois, três filhotinhos nasceram. O pai e a mãe cuidaram dos bebês e logo estavam pidões e exigentes. Se percebi bem, os pais levavam frutas e, sobretudo, insetos e minhocas (mais minhocas, aparentemente) para os glutões. Problema: um gato decidiu atacar os filhotes. Altas horas da noite, eu e Candice nos levantávamos para “atrapalhar” a força da natureza e proteger os filhotes e, também, seus genitores. O gato, belo por sinal, comeu um dos bebês. Então, com a ajuda do prestativo Gilson, jardineiro do condomínio, mudamos o xaxim-ninho de lugar. Ainda assim, não sabemos como, pois estava bem no alto, o gato pegou mais um sabiazinho. Sobrou um. Então, Candice colocou vasilhas de águas embaixo do ninho, o que impediu novos ataques do bichano.

Sabiá-ferreiro:  | Foto: Euler de França Belém/Jornal Opção

O nosso quintal, além do condomínio, é frequentado por sabiá-ferreiro, sabiá-laranjeira e sabiá-do-campo. Os três são belos, à maneira de cada um. O sabiá-laranjeira é forte, imponente, marrom escuro. O sabiá-do-campo é lindo, cinza, grandão — dos três é o único que coloca a “matilha” de periquitos para correr. Os outros são forçados à retirada pelo exército de verde. Nem mesmo o gigante bem-te-vi, com aquela belezura principesca, consegue espantá-los. Só o sabiá-do-campo impõe certo respeito. Mas, quando chega um batalhão de dez periquitos, até ele escafede-se. O sabiá-ferreiro é cinza e menor. Não se arrisca a enfrentar os poderosos, mas, volta e meia, coloca uma saíra amarela ou um casal de saí-azul para correr. Ele não come apenas frutas e, por isso, está sempre a bicar o chão, como se o cavasse, em busca de insetos e minhocas.

Saíra-amarela, saí-azul e sanhaço

Saíra-amarela: desfilando sua graciosidade | Foto: Euler de França Belém/Jornal Opção

A saíra-amarela, ou saíra-macaco, é bela — o macho e a fêmea são diferentes, com o macho sendo, à primeira vista, mais vistoso. É o pássaro de devoção de Candice. O saí-azul é menor, de uma beleza delicada que comove os olhos.

Vi-vi ou fi-fi e outros pássaros | Foto: Euler de França Belém/Jornal Opção

Há também o sanhaço, que, como diz o amigo Francisco Borges de Souza, lá do Maranhão, mas tão porangatuense quanto eu (somos, ambos, retirantes), é o pássaro que, quando meninos, chamávamos de pipira (comedores inveterados de mamão). É rápido, chega, come e vai embora. Come de banana a mamão. Há os cinzas-azulados e os cinzas-escuros. São pássaros que lembram a minha infância de caçador de passarinhos — eu era uma espécie de rei do estilingue. Matava e os comia fritos (e também capturava — com visgo — fi-fi ou vi-vi para criá-los em gaiolas. Meu parceiro de estripulia era o Zezinho da Carroça, que também mora em Goiânia, tão retirante quanto eu e Chicão Borges). Nunes D’Acosta diz que, ao cuidar de pássaros, estou, mais do que pagando os meus pecados, me redimindo com a natureza.

Os sanhaços costumam nos visitar pela manhã e à tardezinha. São rápidos, às vezes tão delicados e fortes quanto uma bailarina do Bolshoi. O macho e a fêmea estão sempre juntos, comendo irmanados. Mas fico com a impressão de que, quando um está comendo mais, o outro fica de vigia. Atentíssimo. A qualquer sinal de perigo, real ou imaginário, fogem, céleres.

Guaracava, pica-pau e periquitos

Guaracava: chega, come e desaparece por um bom tempo | Foto: Euler de França Belém/Jornal Opção

Sinto a ausência de um pássaro que, escorregadio e desconfiado, não aparece sempre: a guaracava ou cucurutado (ou maria-acorda). Fiz a fotografia e mandei para o Nunes D’Acosta, que o identificou. Tem um topetinho. É gracioso, esperto e vigilante. Aparece e some.

Por ser um passarinheiro de primeira viagem — estou sempre aprendendo com os experts Nunes D’Acosta, Daniella França e o bardo Sinésio Dioliveira, o trio de fotógrafos de primeira linha —, não sabia que pica-pau comia frutas. Achava que só comia formigas, cupins etc. Pois um casal, a fêmea é menor do que o macho (ambos com a cabecinha vermelha e o “terno” carijó, com tons mezzo escuros e amarelos), estão sempre comendo mamão e, sobretudo, banana no nosso quintal. No início, eram desconfiadíssimos. Agora, limpo as vasilhas, com uma colher, e coloco frutas novas e eles ficam beirando, sempre nos pés de lima, caju e pitanga e às vezes no muro, à espreita.

Pica-pau: come formigas e também frutas | Foto: Euler de França Belém/Jornal Opção

Os pica-paus são bravos e põem os pássaros menores para correr, mas não ousam enfrentar o bem-te-vi, o sabiá-do-campo e, em especial, os periquitos — que, “egoístas”, comem tudo, derrubam banana no chão e não permitem que outros pássaros se alimentem. Chegam cedo, abancam e preciso espantá-los, por vezes, para que abram espaços para os demais. Mas são incansáveis e voltam sempre. Escapam para um ipê, que fica próximo, e logo depois retornam, com sua algaravia de deuses tonitruantes.

Cambacica, vi-vi verdadeiro e assobiador

Há um passarinhozinho que atrai a atenção — é a cambacica (com suas duas listras brancas na cabeça). Vem todos os dias, e já fez um ninho numa planta de nossa garagem. Come banana, mamão e insetos. Tem um bico firme. Quando há jaboticaba na porta de nossa casa, não perde tempo: fura todas as maduras. Esbalda-se. Quando quero comer alguma — na verdade, aprecio a fruta —, retiro-a ainda meio verde. Curiosamente, nenhum dos pássaros se interessa por uvaia, uma frutífera que, por falta de espaço no quintal, plantei na porta de nossa casa (ao lado de um pé de cereja e de um pé de romã, e dois pés da olorosa dama-da-noite). Talvez porque a fruta é ácida ou, sendo de outra região, não faz parte do cardápio dos pássaros locais.

Há outro passarinho pequeno que é ousado e rebelde. Como há três vasilhas, todas dispostas numa figueira (plantei para Candice comer figos, que adora, mas, quando frutifica, o que é raro, os “artistas” de penas começam a comê-los antes que amadureçam), os pássaros comem em uma ou duas. Às vezes, sobra uma, então a equipe de fi-fi verdadeiro, ou vi-vi verdadeiro, ou gaturamo-fifi, com seu terno preto e camisa amarela, abanca-se e come à vontade. Todo dia de manhã, quando desço para colocar comida, os belos passarinhos me esperam, assentados nas árvores do pequeno quintal. Parecem não ter mais medo de mim. Porque, quando estou colocando a banana (prata) no terceiro recipiente, eles já estão comendo no primeiro, apressados. Porque sabem que, dali a pouco, os pássaros maiores chegarão e os colocarão para correr.

Há o assobiador ou saudade — um pássaro alegre e, aparentemente, com uma variedade maior de cantos do que os demais. Com suas penas pretas, e uma faixa amarela na asa, é um belo pássaro. Chega quase sempre de dois, às vezes quatro. É esperto e não enfrenta pássaros maiores. Aparece quase todos os dias. É sempre barulhento, emitindo vários sons.

Há pássaros menores, como um pequeno e preto, além de um preto-rajado, que ainda não consegui identificar. Mas o número de inquilinos só cresce. Até pardais aparecem para comer banana e são bravos, enfrentando, e derrotando, pássaros de seu tamanho.

Os suiriris (ou falso bem-te-vi) estão sempre passeando sua alegria diária, em busca por comida, pela grama. Há algum tempo, o vigilante Lucas Ribeiro pegou um adulto no chão, pois ele não conseguia voar direito. Descobriu que os pezinhos estavam cheios de linha. Com uma tesoura e muito jeito, Lucas retirou toda a linha e o pássaro voou tranquilamente. O suiriri não vem ao nosso quintal, pois prefere caçar insetos na gramado.

A preguiça do chupim e o duelo dos pássaros

Pica-pau, pássaro-preto e bem-te-vi: dia de competição | Foto: Euler de França Belém/Jornal Opção

Um dia presenciei uma cena curiosa, no muro de nosso quintal. De repente, um sabiá-do-campo apareceu com dois filhotes pretos, já grandinhos, mas exigindo comida e amparo. O esperto e preguiçoso chupim põe ovos no ninho do sabiá, que os choca e, depois, cuida dos filhotes. Também já vi sanhaço cinza-azulado cuidando de chupim, na Praça do Dimas Aidar (o arquiteto, que morreu jovem, era um guerreiro na luta pela melhoria do condomínio). Fiquei intrigado e não entendi bem. O sanhaço parecia incentivar o chupim a sair da grama e alçar voo, mas não era bem-sucedido.

Um dia, acreditem — e preciso encontrar a fotografia para mostrar —, presenciei um duelo entre pássaros-pretos, periquitos e sabiás-do-campo. As três espécies, notadamente os periquitos e os pássaros-pretos, arrupiaram-se, aparentemente para parecer maiores e ameaçadores.

Lima da pérsia, papagaios e araras-canindé

No nosso quintal aparecem pássaros que comem frutas, mas, de vez em quando, na nossa porta aparecem pombas do bando, pombas um pouco menores, rolinhas caldo de feijão e canários da terra (amarelinhos — lindos como uma flor). O discreto alma-de-gato aparece, aqui e ali, e desaparece. Parece escalar as árvores. A turma de beija-flores está sempre vasculhando flores, inclusive a cheirosa flor da lima da pérsia. Sobre este pé de lima, uma curiosidade. Ele não dava frutos. Uma vez, conversando comigo no quintal, Candice sugeriu que talvez devêssemos cortá-lo. Pouco depois, o pé de lima começou a dar frutos e não parou mais. Candice acredita que a árvore a escutou e resolveu garantir sua sobrevivência. É provável que um pouco de adubo tenha sido o responsável pela frutificação.

O Housing Flamboyant, quando foi criado, recebeu a atenção especial de um paisagista de São Paulo, que contou com o apoio da floricultura Cantinho do Professor 3, do Luiz (meu colega no curso de jornalismo, nos formamos na mesma turma, a do crítico de cinema Lisandro Nogueira). Algumas árvores, como coqueiros e palmeiras, foram plantadas inteiras (parece que foram retiradas da área que, adiante, deu lugar ao Alphaville). Algumas árvores da fazenda que se tornou condomínio foram preservadas, como um pé de caju e dois de cagaita (saborosa). Os coqueiros — inclusive de coco macaúba — atraem araras-canindé. De manhã, quando saio para o passeio com meu labrador João Fidelis (o cachorro se tornou tão popular que algumas crianças me chamam de “João”), vejo-as descascando e comendo cocos. São belas, com sua “roupa” amarela e azul, e barulhentas. Numa residência, de parentes de cantores sertanejos, há uma árvore, que ainda não identifiquei, que atrai papagaios. Os pés de goiaba são uma festa para periquitos e ararinhas — e, claro, para humanos (adultos, adolescentes e crianças).

Durante algum tempo, funcionários do Housing cortavam os cachos de coquinhos, porque moradores estariam “reclamando” que, derrubados por periquitos, estavam sujando as ruas (veja o belo filme “Um Homem Chamado Ove”, de Hannes Holm, e vai entender o que se está dizendo. Todo “Ove” é tão onipresente, tão espaçoso, que acaba se confundindo com “todo mundo” — que, a rigor, não existe). Um dia, conversei com Josi Coutinho de Deus, que cuida do condomínio com zelo, competência e seriedade, e lhe disse que os pássaros — periquitos e maritacas, em especial —, se estão vindo comer coquinhos no nosso condomínio, é porque não estão encontrando em outros lugares. Josi ouviu com atenção e, demonstrando sensibilidade, pediu para parar de cortá-los.

Recentemente, a advogada Carol Calil Hamu, filha do médico Zacharias Calil — o deputado federal que investiga o uso abusivo de agrotóxicos no Brasil —, me disse que pássaros estão morrendo no condomínio. Outro morador atribui as mortes aos gatos — como o Alfredo, um gato que, não tendo dono, é de todos nós (Alfredo é um ás da caça aos ratos; felizmente, há moradoras, como Julianna e Diana, que protegem os bichanos). Mas ele possivelmente está enganado. Não há pássaros que comem frutas, como amora e goiaba — há cinco pés no condomínio —, morrendo. Só morrem, em geral, pombos — e seria interessante fazer uma autópsia para saber o que realmente está acontecendo (e detalhe: os pássaros que aparecem mortos não são comidos por nenhum gato, o que provoca estranhamento). O mais provável — e não há certeza, daí a palavra provável — é que os pombos e canarinhos morrem quando comem grãos da grama. Ocorre que, dada a quantidade de insetos, bate-se veneno com frequência. O veneno pode estar matando pássaros. Na segunda-feira, 8, o pessoal da Pasta Rosa bateu veneno em bueiros e outros lugares. Pouco depois, baratas tontas saíram pelo condomínio — envenenadas. Pássaros estariam comendo insetos envenenados? Flores nas quais são borrifados veneno estariam matando beija-flores? Será que aqueles que são higienistas em excesso não teriam de morar em apartamento e não em condomínios altamente arborizados — que atraem, de maneira incontornável, pássaros e insetos? Há pouco tempo, apareceram um ouriço, um tamanduá e uma cobra, e o Corpo de Bombeiros foi convocado para retirá-los…Afinal, o habitat é “nosso”, não deles. C’est la vie…

Nunes D’Acosta e o falcão-relógio

Falcão -relógio, no Campus Samambaia da UFG | Foto: Nunes D”Acosta

Vale acompanhar o trabalho fotográfico de Nunes D’Acosta, um dos principais passarinhólogos de Goiás. Ele publica fotografias de pássaros no Facebook, com frequência. Surpreende, além de qualidade das fotografias, a variedade de pássaros-aves.

Recentemente, publicou a fotografia de um falcão-relógio (que Johan Dalgas Frisch e Christian Dalgas Frisch também chamam de gavião-relógio). Ele foi encontrado no Campus Samambaia, da UFG. Nunes D’Acosta conta que, no dia que o fotografou, o falcão levou um baile de um anum preto. Como se sabe, o anum, que parece um helicóptero mignon e simula certo desengonço, não parece tão ágil, ao contrário do falcão.

E-mail: [email protected]

Uma resposta para “O êxodo rural dos pássaros do campo para Goiânia”

  1. Avatar Nunes DAcosta disse:

    Magistral…seu artigo , com sua permissao , vai para meu livro. Parabéns Euler!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.