O errático Bolsonaro, que não se sente acossado pelo real, não parece angustiado

As falas do presidente revelam, sobretudo sobre o coronavírus, que para ele é muito difícil ter, propriamente falando, um vínculo com qualquer verdade

Fake news são discursos que constroem um mundo à parte, um mundo que evita o real. E na medida em que são infladas e ganham consistência elas se passam pelo próprio real, essa é sua pretensão, sua ousadia e também o extremo de sua impostura

Cristiano Alves Pimenta

Especial para o Jornal Opção

Um dado a respeito do Covid-19 chama a atenção dos médicos e de todos nós. Segundo reportagem do G1 de 1º de abril, o número de infectados com menos de 50 anos que evoluem para um quadro grave, muitas vezes necessitando permanecer em coma induzido numa UTI, é surpreendentemente grande. Dados recentes mostram que em São Paulo a maioria dos infectados tem entre 20 e 39 anos, e o segundo maior grupo tem idade entre 40 e 59 anos. Já os infectados acima de 60 anos são apenas 25%. Os casos graves e as vezes fatais mostram que juventude, ainda que aliada a um bom condicionamento físico, podem não ser suficiente para fazer frente ao vírus.

Pintura de Mike Davis

O real e as “fake news”

O esperado é que a conscientização da gravidade da situação produza em nós o sentimento de angústia. Tomemos uma analogia. Se imaginamos que estamos em uma chácara distante da cidade e na madrugada ouvimos ruídos, nas proximidades da casa em que estamos, teremos dúvida do que pode ser. Mas, se além do ruído, sentimos o cheiro de fumaça de cigarro saberemos com certeza que há alguém ali escondido na escuridão. E não teremos nenhuma garantia de que esse alguém não teria más intenções. Eis que, em maior ou menor grau, sentiremos angústia. Observem que o sentimento de angústia responde a uma presença real que é, de alguma forma, ameaçadora. Por mais minúsculo e invisível que seja, o Covid-19 é exatamente isso, uma presença real e ameaçadora em nossas vidas. Estamos angustiados.

Um dos efeitos da irrupção do real, seja de que forma for, em nossas vidas é que ele faz cair as nossas defesas. O crente em religião reza, vai à missa, confessa, dá um bom dízimo, etc., para receber em troca sobretudo a proteção divina contra o real. “Livrai-nos do mal” — é o que diz a oração. Já o crente na ciência faz exercícios, mantém uma boa alimentação, toma os suplementos apropriados, vai ao médico, etc., com o mesmo objetivo de se sentir protegido. No entanto, há sempre algo ameaçador mais além do que pode ser previsto. Como se proteger com total eficácia contra um câncer? Quanto ao Covid-19, sabemos que a proteção definitiva só virá com a vacina.

Gustavo Bebianno e Carluxo Bolsonaro: o “filho” preterido e o filho preferido de Jair Bolsonaro | Foto: Reprodução

Essa dimensão do real nos permite ver com precisão o que são as chamadas “fake news”. Elas são discursos que constroem um mundo à parte, um mundo que evita o real. E na medida em que são infladas e ganham consistência elas se passam pelo próprio real, essa é sua pretensão, sua ousadia e também o extremo de sua impostura. Quando uma “fake news” ganha consistência de real para alguém, aí temos um delírio. O que dizer de uma aglomeração de pessoas agora, seja numa igreja, seja numa passeata, senão a exclamação “estão loucos!”?

“Eu trato é de vidas”

Como vimos na imprensa, o governador do Estado de Goiás, Ronaldo Caiado, enfrentou bravamente os manifestantes apoiadores do presidente da República no centro de Goiânia. Caiado cobrou dos manifestantes “responsabilidade” com a disseminação do vírus. E no calor do confronto disse que, “…antes de ser governador do Estado, eu sou médico… eu trato é de vidas”. E não poderíamos localizar aqui o ponto preciso em que a aliança de Caiado com Bolsonaro se tornou intolerável para o governador? Ou seja, quando os delírios de Bolsonaro, tão comuns em seu modo de governar, deram as mãos para a morte num terreno que é caro a Caiado, o terreno da medicina, o terreno de uma pandemia. O que salva alguém da verdadeira e completa canalhice é o fato de que este alguém tenha algum apego à vida.

Gustavo Bebianno e Jair Bolsonaro eram amigos muito próximos, mas o presidente rompeu com o advogado | Foto: Reprodução

Não se pode dizer que Bolsonaro não tenha apego à vida de ninguém. Recentemente, nos bastidores do poder, cogitou-se que sua renúncia poderia ser negociada “com a única coisa que tem valor para ele”, seus filhos, que receberiam a imunidade por seus supostos delitos em troca da renúncia do pai.

Carta ao pai

Foi neste sentido que o falecido advogado Gustavo Bebbiano, o fiel escudeiro do presidente na campanha, nos confidenciou, em sua carta dirigida ao “Meu Capitão”, que este tinha um vínculo fortíssimo com um dos filhos — o 02 (conhecido como Carluxo). Disse que o presidente era “obsediado pelo próprio filho”, Carlos B. Em outras palavras, Bebbiano diz que o Capitão tem uma espécie de dependência emocional para com o filho: “…para o senhor manter o vínculo afetivo com ele (Carlos B.), para manter a conexão física e emocional, o senhor embarca nessas fantasias, paranoias, nas eternas teorias de conspiração…”. Por fim, Bebbiano quis dizer que há uma ligação doentia entre pai e filho, na qual este domina o pai —fazendo proliferar “um rastro interminável de ódio e destruição”.

Foto: Pintura de Igor Morski

O que dizer da decisão do governo chinês em entregar os equipamentos de proteção individuais (EPI) já contratados pelos Brasil aos Estados Unidos, senão que se tratou de uma vingança dos chineses às palavras do deputado federal Eduardo Bolsonaro — o 03? É o que afirma o ex-ministro do Meio Ambiente e da Fazenda Rubens Ricupero numa entrevista de 4 de abril à coluna de Jamil Chade no UOL Notícias. Não causaria surpresa a Bebbiano, se estivesse vivo, saber que Carlos se mudou com família e tudo para o Palácio da Alvorada, que o fatídico discurso do dia 24 de março tenha sido escrito por Carlos, etc.

O filho preterido

O que é confirmado na carta de Bebbiano a Bolsonaro é que este só tem amor, ainda que doentio, aos próprios filhos. Muitos disseram que “Bebbiano morreu de tristeza” e, de fato, ele diz na carta que sempre trabalhou para Bolsonaro “com amor, amor que intensamente desenvolvi por você. Amor hétero…”. Amor de filho, certamente. Amor ao pai. Bebbiano morreu no lugar do filho preterido. Por outro lado, Bebbiano deixa transparecer em sua carta um desconhecimento que chega às raias do delírio: sua carta é uma tentativa, no limite da própria morte (ele pediu que ela fosse divulgada se ele morresse), de fazer Bolsonaro “reconhecer a verdade”. Seu delírio era o de que Bolsonaro pudesse “reconhecer a Verdade”, a verdade da “injustiça” que ele, Bebbiano, tinha sofrido.

Pintura de Wilfredo Lam

A mentira sem verdade por detrás

O que as falas de Bolsonaro revelam, sobretudo as mais recentes sobre o coronavírus, é que para ele é muito difícil ter, propriamente falando, um vínculo com qualquer verdade. Seu vínculo mais profundo, seu modo “natural” de fazer política, é com as “fake News”, uma vez que ele só as abandona quando coagido. A coisa é de tal modo maluca que é como se ele acreditasse nelas, ainda que sabendo que são mentiras. Por exemplo, a fala de Bolsonaro ao dizer que o vírus não entraria nas lotéricas por serem “protegidas por um vidro grosso” — supostamente blindado — é explicitamente mentirosa. Todavia, estranhamente, é como se não houvesse, para ele, por detrás dessa mentira, uma verdade que pudesse ser revelada, e que, consequentemente, pudesse deixá-lo envergonhado ao ser desvelada a mentira. Assim, o Outro da ciência não precisa ser levado em conta, só interessa a Bolsonaro o eleitor para quem essa fala vai ter efeito. Se não fosse trágico seria cômico ver alguém que sabe levar a mentira ao limite, um Donald Trump, tentando dissuadir nosso presidente de defender a “quarentena vertical”. Ao mesmo tempo que parece acreditar que o Covid-19 só poderia causar uma “gripezinha”, sabe que muita gente vai morrer e que é preciso “ter coragem” para morrer. O que se pode dizer de tudo isso é que ele não se sente acossado pelo real, não está angustiado.

Como não dizer que Bolsonaro leva ao extremo o modo de fazer política na atualidade, construindo narrativas que zombam da verdade e do real? Não se trata apenas de zombar da ciência, mas das consequências mortíferas — morte física e política — que poderiam ser absolutamente desfavoráveis ao clã.

Ir contra

Por fim, o que nos resta senão, na medida de nossas possibilidades, um esforço no sentido de ir contra essa tendência de nossa época? Esse “esforço em ir contra” não me parece que deva ser simplesmente recuperar a ciência e a razão como o Deus ao qual teríamos que exaltar acima de tudo. Seria, neste momento em que a morte bate à porta de todos sem distinção, resgatar nosso vínculo com a vida. Cada um, a seu modo, fazer o que Ronaldo Caiado fez: as rupturas necessárias para colocar-se ao lado da vida. Para mim, esse apego à vida equivale a uma espécie de “esforço de poesia”, necessário ao mundo frio e desumanizado em que vivemos.

Cristiano Alves Pimenta é psicanalista membro da Escola Brasileira de Psicanálise e da Associação Mundial de Psicanálise. É graduado em Filosofia pela USP e mestre em Psicologia Clínica pela UnB.

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