Euler de França Belém
Euler de França Belém

O embaixador Walter Moreira Salles enquadrou secretário de Estado dos Estados Unidos

O fundador do Unibanco e ex-ministro da Fazenda negociou duramente com os republicanos e venceu e impressionou o durão John Foster Dulles

“Walter Moreira Salles — O Banqueiro-Embaixador e a Construção do Brasil” (Companhia Editora Nacional, 448 páginas), de Luis Nassif, é uma notável radiografia de um indivíduo poderoso e, ao mesmo tempo, da história do país. Apesar disso, não tem merecido o destaque adequado na imprensa, possivelmente por causa dos conflitos do jornalista com alguns meios de comunicação, como o jornal “Folha de S. Paulo” e a revista “Veja”. Apontado como pró-petista, nos tempos dos governos de Lula da Silva e Dilma Rousseff, o profissional acabou sendo desancado por alguns jornalistas e se defendeu atacando. Por isso, depois de consagrado na imprensa do país, tornou-se uma figura execrada (na verdade, é um analista sério e competente). Mas a biografia nada tem de ideológica e é uma “reconstrução” estupenda da história de um capitalista tão rico e poderoso quanto refinado (pai de Fernando Moreira Salles, empresário, escritor e ex-sócio da Editora Companhia das Letras, de Walter Moreira Salles, diretor de cinema, de Pedro Moreira Salles, banqueiro, e de João Moreira Salles, documentarista e diretor da revista “Piauí”). Não só um homem de finanças (que criou o banco Unibanco e empresas). A pesquisa exibe um homem público — embaixador e ministro da Fazenda — que valia ouro.

Rezam os reis do mercado que é mais fácil o homem ir à Lua do que ser empresário no Brasil. No caso de Walther Moreira Salles (1912-2001), não é bem assim. Ele é um caso de sucesso absoluto. Produziu café. Foi dono de mineradora e da Sotreq (que tinha filial em Goiânia). Fez nome como banqueiro — do Banco Moreira Salles ao Unibanco. E era bon vivant. Por ser especializado em jornalismo econômico, Luis Nassif explica, de maneira didática mas sem simplificações, a ascensão vertiginosa e segura do empreendedor mineiro. No texto a seguir, comento basicamente o capítulo “A Embaixada de Vargas”. Quer dizer, parte da vida pública. Mas o leitor ganhará, e muito, se vasculhar todo livro — que prova por “a” mais “b” porque Walther Moreira Salles é um grande homem.

Em 1952, Walther Moreira Salles era diretor da Superintendência da Moeda e do Crédito (Sumoc) — eficientíssimo, equilibrando as divergências entre o ministro da Fazenda, Horácio Lafer, e o presidente do Banco do Brasil, Ricardo Jafet.

O presidente Getúlio Vargas convocou-o para uma audiência e quis saber sua opinião sobre as relações do Brasil com os Estados Unidos. O banqueiro-auxiliar abriu o jogo: “Se o sr. me permite ser franco, presidente, a Lei de Remessa de Lucros deteriorou as relações com os Estados Unidos. Mas eu não acredito em uma situação irrecuperável. Não só os Estados Unidos são muito necessários para nosso comércio, como a posição do Brasil na América Latina é de suma importância para os Estados Unidos”. Na verdade, era contrário à maneira como as multinacionais remetiam os lucros para suas sedes, mas rejeitava o caráter excessivamente restritivo da Lei de Remessa de Lucros. “Entre 1947 e 1951 o ingresso de capitais foi em média de 15 milhões de dólares por ano, ante remessas de lucros da ordem de 47 milhões de dólares.”

Walther Moreira Salles: obtinado

Depois de ouvi-lo com atenção, Getúlio Vargas perguntou: “Se eu o convidasse para embaixador nos Estados Unidos, o sr. aceitaria?” O banqueiro redarguiu: “Eu me sentiria extremamente honrado, mas pediria que o sr. refletisse sobre a conveniência de minha saída da Sumoc. Como o sr. sabe, há dificuldades de relacionamento entre o ministro Lafer e o presidente do Banco do Brasil. Como amigo de ambos, ajudo a aparar arestas, comportando-me como algodão entre cristais”.

O presidente gostou do que ouviu e disse: “Mais uma razão para convidá-lo, pois vejo que tem qualidades inatas de diplomata”. O banqueiro aceitou a incumbência.

No Senado, o goiano Domingos Vellasco, do PSB, comandou a resistência à aprovação de Walther Moreira Salles para a embaixada nos Estados Unidos. Foram 29 votos a favor e 20 contra. Um placar apertado. Os Estados Unidos aprovaram, não porque o banqueiro fosse “entreguista”, e sim porque era realista e liberal.

Como embaixador, Walther Moreira Salles teria de negociar a dívida externa do Brasil e convencer o governo dos Estados Unidos a emprestar, via Bird, 12,5 milhões de dólares para reaparelhar a Estrada de Ferro Centro do Brasil. Getúlio Vargas cobrava também um empréstimo de 25 milhões de dólares, do Bird, “para financiar projetos de eletrificação do Rio Grande do Sul”.

Walther Moreira Salles e Elisinha Moreira Salles: conquistando o mundo das finanças e o jet set internacional | Foto: Reprodução

As divisas do Brasil eram precárias, o que levou o governo de Getúlio Vargas a admitir abrir espaço para a exploração estrangeira de minérios, como manganês e monazita. A gestão do líder trabalhista sugeria também parceria com os americanos para a exploração de petróleo. “Suprir a falta de reservas cambiais foi um dos desafios, provavelmente o maior, que o novo embaixador precisou enfrentar em sua primeira missão.”

Ao chegar aos Estados Unidos, Walther Moreira Salles foi assim apresentado pela “Time”: “Baixo, moreno e bonito”. Faltou o adjetivo elegante. A revista frisou que, “mais do que charme”, era um homem “sério”.

O embaixador começou a trabalhar logo, estreitando lanços com os poderosos do país. O secretário de Estado, Dean G. Acheson (discípulo do constitucionalista judeu Louis D. Brandeis), e o secretário do Tesouro, John Walther Snyder, decidiram, em setembro de 1952, que o governo americano emprestaria mais de 300 milhões de dólares para “liquidar os atrasados comerciais”. O Brasil estava tentando refinanciar sua dívida. (Luis Nassif relata que, ao visitar Pernambuco, Acheson discutiu direito constitucional americano com o governador Agamenon Magalhães, cuja cultura jurídica e geral surpreendeu o interlocutor.)

O presidente Jair Bolsonaro parece perceber os Estados Unidos como um país unidimensional, quer dizer, pró-brasileiro. Republicanos e democratas, embora representem o Império, adotam políticas diferenciadas, especialmente quando se trata de negociações com parceiros comerciais. No início da década de 1950, os democratas perderam a eleição presidencial para o republicano Dwight Eisenhower.

“Um dos itens principais” do programa republicano “rezava que nenhum país aumentaria sua dívida com os Estados Unidos. A intenção era enfrentar os déficits orçamentários, mas também terminar com as liberalidades democratas”, anota Luis Nassif.

Conflito com John Foster Dulles

Dwight D. Eisenhower, presidente dos Estados Unidos, e John Foster Dulles

Num encontro com o novo secretário de Estado, John Foster Dulles, o embaixador falou da urgência na obtenção do financiamento para recompor as finanças patropis. “As importações brasileiras estavam praticamente paralisadas por falta de crédito comercial.”

Advogado competente do sistema financeiro, John Foster Dulles foi direto ao ponto: “O sr. veio conversar sobre um empréstimo para liquidar os atrasados?” Walther Moreira Salles respondeu de modo lacônico: “Sim”. O secretário de Estado radicalizou: “A importância que os senhores solicitaram é muito alta e o Brasil não tem capacidade de pagá-la”.

Walther Moreira Salles contrapôs que o acordo já havia sido acertado com o governo anterior. John Foster Dulles atacou: “Eu consultei o secretário do Tesouro [George M.] Humphrey e ele me disse que não concordaria com mais de 100 milhões de dólares”.

O embaixador insistiu, ainda paciente: “Mas nós já tínhamos conversações anteriores para liquidar dívidas comerciais no valor de mais de 300 milhões de dólares…”.

John Foster Dulles bateu abaixo da linha de cintura: “Não esqueça, sr. embaixador, os republicanos é que estão no controle agora. Não somos como os democratas. Não compramos amizades”.

O brasileiro, sempre polido, perdeu a fleuma: “E a amizade do Brasil não está à venda”.

Walter Moreira Salles: um indivíduo que se tornou estadista tanto no mundo público quanto no mundo privado | Foto: Reprodução

O americano transferiu o ataque do nível público para o privado: “O sr. é banqueiro na vida privada e sabe que o Brasil não pode pagar”. Acabou por tirar Walther Moreira Salles do sério: “Secretário Dulles, aqui eu não sou banqueiro, eu sou embaixador. E o sr. não é o advogado-chefe do maior escritório de Wall Street [Dulles era advogado da Sullivan & Cromwell]. O sr. é secretário de Estado”.

Em seguida, mostrando-se bem informado, Walther Moreira Salles ampliou o ataque: “O sr. escreveu um livro em que reprovava a pouca atenção dos Estados Unidos para com a América Latina. Eu, como representante do maior país da região, e primeiro embaixador que o sr. recebe, saio decepcionado. E, como não temos mais nada a dizer, peço licença”.

Luis Nassif, jornalista: autor de uma biografia magnífica | Foto: Reprodução

O brasileiro levantou-se, mas John Foster Dulles o impediu de sair e disse-lhe: “Você é muito jovem, impetuoso, vamos conversar”. Irritado, ou supostamente irritado, Walther Moreira Salles respondeu: “Desculpe, mas não temos mais o que conversar”.

O secretário quis saber se Acheson sabia da negociação e o embaixador explicou que o ex-secretário o havia incentivado. John Foster Dulles endureceu de novo: “Mas este compromisso é do Partido Democrata, que dava dinheiro com liberalidade. Nós somos diferentes”. Walther Moreira Salles deu uma estocada institucional: “Eu pensei que estivesse conversando com o governo dos Estados Unidos”. O americano insistiu: Acheson sabia do “acordo”? Sabia, sublinhou o brasileiro.

Ao saber da deselegância brutal, o ministro João Neves da Fontoura disse a Walther Moreira Salles: “Rompa negociações”. O embaixador ligou para Acheson, mas não conseguiu encontrá-lo. Mas John Foster Duller conversou com o ex-secretário e convidou o brasileiro para uma conversa, no EXIMbank.

Walther Moreira Salles e os filhos Pedro (sentado), Walter Filho, João e Fernando Moreira Salles (o mais velho, filho de uma francesa) | Foto: Reprodução

John Foster Dulles levara o assunto ao presidente Eisenhower. O jornalista Drew Pearson relata como o financiamento foi concedido: “Nelson Rockefeller, que sabe dos problemas latino-americanos melhor que ninguém em Washington, chamou o general Charles Douglas Jackson e o convenceu a falar sobre o empréstimo diretamente com Eisenhower. Durante a noite, o presidente decidiu sobre um assunto em que os secretários do Estado e do Tesouro estavam demorando muito e deu o empréstimo”.

Luis Nassif frisa que “o presidente convocou o secretário do Tesouro, o presidente do Federal Reserve Bank, Dulles e o presidente em exercício do EXIMbank, Hawthorne Arey, para a reunião com Walther”. Arey disse: “Sr. embaixador, o governo americano, por intermédio do EXIMbank, concordou em fazer o empréstimo”. Mas, ao explicar que a taxa de juro havia subido em 0,5%, o brasileiro firmou pé: “Não posso aceitar”. As condições do empréstimo eram assim: “Crédito de 300 milhões de reais, por três anos, a juros de 4,5%, e prazo até 1º de julho de 1953 para liquidação total dos atrasados”. Acabaram sendo aceitas.

A vitória de Walther Moreira Salles, o diálogo árido com John Foster Dulles, “entrou para as lendas da diplomacia americana”. O americano Edward Miller disse para Alceu Martins Parreira que o embaixador havia obtido “uma das mais notáveis realizações diplomáticas de que tenho conhecimento. Se não fosse pela intervenção pessoal de Walther junto ao secretário Dulles, por duas horas, não creio que se tivesse produzido o empréstimo do Export-Import Bank. A exposição eficientíssima de Walther e sua profunda compreensão dos assuntos financeiros provocou da parte de Dulles um cumprimento ao embaixador por sua magistral exposição”.

Walther Moreira Salles era auxiliado na embaixada pelos diplomatas Saraiva Guerreiro e Sérgio Rouanet. Afrânio Nabuco Filho cuidava dos negócios. Juracy Magalhães era o adido militar.

O banqueiro acabou se tornando “o homem público brasileiro mais bem relacionado internacionalmente”, postula Luis Nassif.

O livro de Luis Nassif, de rara excelência, relata como Walter Moreira Salles era perspicaz nos negócios e na descoberta de talentos que pudessem ajudá-lo a ganhar dinheiro. É extraordinário o capítulo no qual conta como banqueiros húngaros — eram craquíssimos — o auxiliaram a entender a complexidade do mercado financeiro internacional. Não do ponto de vista teórico, e sim do prático — aquele que leva empreendedores determinados a se enriquecerem, por entenderem a realidade tal qual é e a aproveitarem rapidamente as oportunidades. O jornalista, por ser especializado em economia e por escrever de maneira fluente, captou muito bem a eficiência do biografado como banqueiro e articulador — agia praticamente como diplomata e político. Ao mesmo tempo em que acumulava uma fortuna, longe de se tornar um capitalista selvagem, Walther Moreira “civilizou-se” e, como os filhos hoje, se tornou mecenas. Um grande homem, um grande brasileiro.

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