Euler de França Belém
Euler de França Belém

O dia em que me ofereci para fugir com dois circos e ciganos

Quando criança, dado o caráter autoritário de meu pai, Raul — que queria o meu bem, mas eu não entendia —, pensei em fugir de casa algumas vezes. Em duas oportunidades, quando circos chegaram na cidade onde nasci, Porangatu, eu me ofereci para fugir. Aos 10 anos, queria sair de casa e, ao mesmo tempo, ser artista. Era fascinado pela arte do mágico e dos trapezistas, que voavam sem asas. Apresentei-me: “Fiquei sabendo que vocês levam meninos?” De imediato, um homem de barba escura, que parecia o dirigente de um dos circos, perguntou-me: “O quê? Quem te disse isso, menino?” Eu disse que ouvira na rua as pessoas comentando que “o povo do circo roubava crianças”. A minha explicação ingênua assustou-o. “Não roubamos meninos, não. É tudo mentira”. Irritado, sugeri que um amigo, acho que de nome Zezinho, também se apresentasse para ser “sequestrado”. Ainda que desconfortado, meu amigo se apresentou e levou uma bronca. Mas aí fiquei mais tranquilo. Afinal, o problema não era comigo; o circo não queria levar nenhuma criança. Mesmo descontente voltei para a arquibancada de madeira, empoeirada, e comecei a ver a luta livre (telequete), que, embora farsesca, era empolgante. Na época, eu achava que era tudo verdade mesmo, que os homens estavam se batendo com violência. Crianças acreditam na fantasia e, por isso, talvez sejam mais felizes ou ao menos mais alegres do que os adultos, que, realistas, raramente dão oportunidade à imaginação.

Como os homens dos circos não quiseram me levar, fiquei esperando o retorno dos ciganos à cidade. Um belo dia acordei com uma algazarra na porta de nossa casa, na Praça da Matriz, no Bairro Nossa Senhora da Piedade. Corri para ver o que estava acontecendo. Verifiquei se meu pai havia saído para o trabalho, abri a porta de madeira e saí. Eram os ciganos. Estavam montando as barracas e, alguns, já se preparavam para vender tachos de cobre na parte de “cima” de Porangatu. Esperei que organizassem suas casas provisórias, de lona, e, no dia seguinte, iniciei uma visita. Dei algumas voltas, como se estivesse a tomar coragem. Perguntaram se eu queria comer alguma coisa e, como todo menino, eu disse que sim. Comi a comida oferecida. Não era uma delícia, mas comi assim mesmo, sem esforço. Aos poucos, fui criando coragem.

Assim que os meninos ciganos saíram de perto, perguntei para uma mulher bonita, de olhos verdes e blusa e saia coloridas: “É verdade que vocês roubam crianças?” A cigana, de uma beleza cativante, olhou-me de maneira firme e, rindo, disse: “Você ficou louco? Não roubamos crianças, não”. Insisti: “Mas, se eu quiser fugir com vocês, tudo bem?” A cigana contrapôs: “A polícia estaria no nosso pé e nós não queremos saber de polícia, não”.

Desconcertado, ainda tive coragem de dizer: “Mas eu quero fugir de casa”. A cigana replicou: “Bo­bagem. Fique com seus pais. Nós, os ciganos, não nos fixamos em lugares e isto seria ruim para você”. Mesmo decepcionado, percebendo que a conversa não fluía, eu ainda disse: “Quero fugir de qualquer maneira”. Aí, nervosa, a cigana ficou séria e me pôs para fora da barraca. “Não volte mais!”

No dia seguinte, retornei. Falei com dois ciganos e eles ficaram bravíssimos. “Não roubamos nem queremos mais crianças. Nós já temos muitas crianças.” Percebi que não havia mesmo jeito, então fiquei por ali, ouvindo os ciganos conversarem e falando sobre a venda de tachos de cobre.

Moral da história: os povos dos circos e os ciganos não roubam crianças.

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Adalberto de Queiroz

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