“Memórias” (Unesp, 710 páginas), de Rubens Ricupero, é um livro excelente. Trata-se de uma história do Brasil traçada por um diplomata — um homem público — categorizado. Nas resenhas e entrevistas, os jornais comentaram sobretudo a respeito de sua participação como ministro da Fazenda do governo do presidente Itamar Franco e a elaboração e aplicação do Plano Real.

De fato, a passagem de Ricupero pelo Ministério da Fazenda — do qual caiu por falar “demais” — é o ponto culminante de sua vida pública e o Plano Real, ao conter a inflação, estabilizou a economia, permitindo a retomada do crescimento. As “Memórias” tratam de sua passagem pelo governo de Itamar Franco, como czar da economia, e outros temas políticos, econômicos, culturais e diplomáticos.

Como os jornais praticamente esgotaram o tema do Plano Real, uma criação da turma de Itamar Franco e da turma de Fernando Henrique Cardoso, vou destacar o capítulo “Guimarães Rosa, examinador de cultura”, que, se não tem importância política, é interessantíssimo.

Menino pobre, do bairro operário do Brás, Ricupero decidiu entrar para o Itamaraty, aos 21 anos, em 1958 A sede que acolhia os diplomatas ficava no Rio de Janeiro, no palácio dos Condes de Itamaraty.

Aracy Moebius e Guimarães Rosa em Paris, em 1949 | Foto: Arquivo da família

“Foi amor à primeira vista, jamais desmentido ao longo dos 36 anos que eu haveria de passar no aconchego do Itamaraty, que o chanceler Azeredo da Silveira dizia ser, na verdade, um orfanato, pelo carinho familiar com que tratava os funcionários”, relata Ricupero.

Ao fazer o exame para entrar no Itamaraty, Ricupero encontrou-se com o diplomata e escritor Guimarães Rosa, que era um dos examinadores das provas.

Ricupero cita o ensaio “Guimarães Rosa, viajante” — do poeta e diplomata Felipe Fortuna —, inserto no livro “O Itamaraty na Cultura Brasileira” (Instituto Rio Branco, 513 páginas), organizado pelo diplomata e historiador Alberto da Costa e Silva.

Guimarães Rosa e o Itamaraty

Guimarães Rosa entrou para o Itamaraty em 1934, aos 26 anos, quando já era médico experiente.

“Ao escrever à mãe, em carta de 7 de julho de 1934, que tirara o segundo e não o primeiro lugar devido a ter perdido a calma nas provas escritas iniciais Guimarães Rosa explicava que ficara ‘estonteado com o ambiente barulhento do Rio de Janeiro, e com o luxo magnificente do Itamaraty’.”

Numa carta para os pais, Guimarães Rosa explica-se: “De 57 (candidatos), só 10 foram habilitados […]. Desses 10, talvez seja eu o único que não esteve ainda na Europa; além disso, posso garantir que esse concurso é o mais difícil que se processa no Brasil […]. Assim, estou satisfeitíssimo, adquiri mais confiança em mim mesmo, e espantei os brasões”.

De acordo com Felipe Fortuna, citado por Ricupero, “a atitude de Rosa não estaria isenta de uma ponta de ressentimento social”. Porém, ao contrário do bardo que se tornou diplomata, o ex-ministro é mais indulgente: o autor de “Sagarana” estava evidenciando a “autoconfiança” e a “satisfação pela ascensão social”. De origem modesta, o mesmo se deu com Ricupero.

Camões empolgou Guimarães Rosa e Ricupero | Foto: Reprodução

Vicente Guimarães, no livro “Joãozito — A Infância de João Guimarães Rosa” (José Olympio, 174 páginas), conta que seu sobrinho, instalado no Rio, “trancou-se no quarto para estudar 20 horas seguidas”.

Como não conseguia descansar, Guimarães Rosa chamou Vicente Guimarães ao hotel. “Encontrei meu sobrinho nu, deitado, coberto por um lençol, comendo ostras e na mão tendo um livro policial.”

Na aplicação da prova de francês, um diplomata perguntou: “O que senhor conhece da literatura clássica francesa?” Guimarães Rosa não titubeou: “Toda”. O examinador inquiriu: “Desde quando o senhor lê francês?” A resposta: “Os clássicos, comecei a ler aos 9 anos”.

O que “havia de notável na principal obra de certo autor”? Guimarães Rosa exibiu toda a sua sapiência: “Reproduziu de cor a página mais bonita do livro, aquela que o celebrizara”.

Segundo Vicente Guimarães, os examinadores ficaram entusiasmados. “Chegaram a levantar-se de seus lugares e aproximar-se do examinando, perdendo nenhuma de suas respostas e exposições. Ao terminar a última prova, a plateia iniciou palmas, imediatamente interrompidas por psius, para não prejudicar o candidato com a invalidação do exame.”

Se o escritor Guimarães Rosa deixou obras-primas na literatura, como “Sagarana” e “Grande Sertão: Veredas”, na diplomacia não teria deixado, segundo Ricupero, escritos excepcionais (ressalve-se que, ao lado da mulher Aracy Moebius de Carvalho Guimarães Rosa, não citada por Ricupero, contribuiu para salvar dezenas de judeus. Dos dois, Aracy foi a mais ativa).

“O único grande texto diplomático roseano é o minucioso estudo e refutação das queixas limítrofes paraguaias consubstanciado na Nota n.92, de 25 de março de 1966, na Embaixada do Brasil em Assunção, copiosa e exaustiva nota-flueve de 155 parágrafos na qual o então chefe de Divisão de Fronteiras do Itamaraty demonstra sua competência como diplomata”, conta Ricupero.

O trabalho de Guimaraes Rosa foi bem-feito, mas era “um estorvo ao seu trabalho de escritor”. Numa carta para Edoardo Bizzari, seu tradutor italiano, o prosador mineiro lamenta: “Várias vezes tive de trabalhar aqui no Itamaraty até as 5 horas da manhã… e comparecer no outro dia às 9, para reuniões que duravam o dia inteiro. (…) Fiquei fora e longe de tudo o mais, nem me lembrava que eu era Guimarães Rosa, não respondi às cartas das editoras estrangeiras, perdi dinheiro, sacrifiquei interessantes oportunidades, adoeci mais, soterrei-me”.

Ricupero enfatiza que “quem escolhia chefiar a Divisão [de Fronteiras] durante 11 anos, conforme aconteceu com o escritor, era como se abrisse mão de fazer carreira por ter algo muito mais importante a que dedicar o fugidio tempo”. Noutras palavras, os leitores do Brasil e do mundo precisam agradecer ao Itamaraty por ter permitido que Guimarães Rosa pudesse escrever tantas histórias de primeira linha — consagrando-se como uma espécie de James Joyce ou William Faulkner brasileiro. Talvez o autor de “Tutaméia” seja um mix de Goethe e Joyce.

Numa nota de rodapé, Ricupero informa em que o ocupadíssimo Guimarães Rosa estava envolvido: “Em 1962, o governo paraguaio desencadeou uma disputa limítrofe com o Brasil ao alegar direitos a uma região chamada Salto do Guariá, próxima a Sete Quedas. O governo brasileiro nunca admitiu os argumentos paraguaios, mas preferiu negociar solução de conciliação consubstanciada no Tratado de Itaipu (1973) e no compromisso de construir no local a atual usina hidrelétrica binacional de mesmo nome”.

Ricupero: avaliado por Guimarães Rosa

Ricupero sublinha que, “para os profissionais, carreira breve é chegar logo a embaixador. Paradoxalmente, à medida que se aproxima dessa meta, Rosa perde interesse nela, não sai mais do Brasil após apenas oito anos de vida no estrangeiro e morrerá embaixador sem nunca ter tido embaixada”.

Porém, para o bem de Ricupero e tantos outros, Guimarães Rosa e o folclorista e historiador Renato de Almeida foram convidados pelo Instituto Rio Branco para formular e aplicar a prova de cultural geral, “a última e não eliminatória, apenas classificatória, da longa série que durava quase dois meses”.

O exame de cultura geral de Ricupero foi “comandado” por Guimarães Rosa. “Indicou-nos no quadro-negro os dois temas escolhidos. O primeiro eram os versos de Tomás Antônio Gonzaga (a Lira VI de “Marília de Dirceu”): “O sábio Galileu toma o compasso,/ E sem voar ao céu, calcula, e mede/ Das Estrelas, e Sol o imenso espaço”.

O segundo tema “era uma frase do católico Gustavo Corção, de quem hoje ninguém mais fala, mas que escrevera na época livros notáveis, ‘Lições de Abismo’, ‘A Descoberta do Outro’: ‘Como explicar a desordem do mundo?’”

Guimarães Rosa não deu explicações nem conselhos ao “concurseiros”. “O desafio de cultura consistia justamente na maneira de enfrentar e resolver o enigma dos dois textos.” O que o escritor e o Itamaraty queriam verificar era a “pluralidade de conhecimento do escritor”. Se o conhecimento era sólido, ordenado, não decorado.

Ricupero acredita que “a intenção do examinador provavelmente seria a de contrastar a ordem física do universo, na era em que sobreviviam as certezas da astronomia newtoniana, com a desordem do universal moral”. O jovem diplomata percebeu isto na época do exame? Ele responde com um simples “quem sabe”.

O texto de Ricupero era baseado em pensadores e escritores católicos franceses, como Bernanos, Mauriac, Maritain, Teilhard de Chardin. No Brasil, Alceu Amoroso Lima.

Na sua prova, Ricupero citou Camões várias vezes, por exemplo as redondilhas “Sôbolos rios que vão”: “Não basta minha fraqueza/ Para me dar defensão,/ Se vós, santo Capitão,/ Nesta minha fortaleza/ Não puzerdes guarnição.”

No término da dissertação, Ricupero transcreveu um verso de Camões: “Mas o melhor de tudo é crer em Cristo”.

“Não era das redondilhas citadas nem de poema conhecido. Tanto que Rosa veio falar comigo — ele havia tido tempo de olhar o começo e o fim da redação — para questionar onde havia eu pescado aquela pérola”, relata o diplomata. A resposta estava na ponta da língua.

“Tenho boas razões para suspeitar de que fluiu entre nós corrente de simpatia e afinidade, seja pela recordação de outro provinciano deslocado no cenário de luxo da Biblioteca, seja devido às referências religiosas e místicas do texto com algum apelo para quem vivia sempre em busca da ‘terceira margem do rio’”, diz Ricupero.

Porém, Guimarães Rosa e Ricupero, talvez pela diferença de idade, não se tornaram amigos. “No Itamaraty, avistava-o às vezes de longe.” Quando o escritor morreu, o colega mais jovem servia em Buenos Aires.

Ricupero é admirador da prosa do autor do conto “A Terceira Margem do Rio”. “De Rosa, o que afinal me ficou foi aquele encontro fugaz de algumas horas, na Biblioteca do Itamaraty, o diálogo do examinador curioso pela citação que não conhecia e o candidato que reproduzia, sem saber, a ponta de desafio do provinciano, médico de Barbacena, que parte à conquista do mundo armado apenas pelas leituras, erudição, conhecimento, esboço de cultura.”

Agora, aos 87 anos, sempre lúcido, o diplomata paulista escreve: “Na procura da sempre fugidia terceira margem do Rio, o viajante descobriu, como lembra Felipe Fortuna, que viajar pelo sertão é o mesmo que viajar pelo mundo. Deixou-se ficar no país profundo do qual na verdade não tinha jamais saído. Descobriu-se também que fazer carreira breve valia pouco diante do mundo que podia criar com a palavra. E soube dar a resposta certa à pergunta do Evangelho: ‘De que vale ao homem ganhar o mundo inteiro se viver a perder sua alma?” Ricupero está falando de Guimarães Rosa e, possivelmente, a respeito de si mesmo.

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Clarice Lispector quase visitou Luziânia e assustou-se com rato em Brasília

Clarice Lispector: uma das maiores escritoras brasileiras | Foto: Reprodução

A escritora Clarice Lispector esteve em Brasília, “nas festas de fim de ano de 1962”, e teve como cicerone Marisa, mulher de Ricupero. As duas tentaram visitar Luziânia, em Goiás, mas não conseguiram.

“Sinalização era coisa que não existia nas estradas precárias em torno da capital. Perdido em meio do caminho, o motorista parou para pedir ajuda à única pessoa que avistaram naquele descampado”, conta Ricupero.

O homem era, de acordo com Ricupero, “um desses capiaus de Guimarães Rosa, que se limitou a apontar com o queixo uma direção indefinida. O matuto carregava um tatu debaixo do braço. À vista do bicho pré-histórico, Clarice disparou um monólogo surrealista encadeando associação de ideias tão extraordinárias como seus textos de romances”.

Num almoço no recém-inaugurado Hotel Nacional, com o então marido Maury Gurgel, Marisa e Ricupero, Clarice Lispector, assustada com “um rato de bom tamanho”, subiu numa mesa.

Numa crônica, Clarice Lispector escreveu: “Em Brasília estão as crateras da Lua. A beleza de Brasília são suas estátuas invisíveis”.

Senhora das palavras, Clarice Lispector acrescentou, belamente: “Os dois arquitetos não pensaram em construir beleza, seria fácil; eles ergueram o espanto deles, e deixaram o espanto inexplicado”. É uma referência a Lucio Costa e Oscar Niemeyer.

Na página 70, Ricupero comete uma injustiça com o escritor paraibano José Lins do Rego, não por criticá-lo, e sim por omitir seu nome quando menciona “livros que apresentam meninos como protagonistas: ‘David Copperfield’, ‘Oliver Twist’, ‘Grandes Esperanças’, de Charles Dickens, ‘A Ilha do Tesouro’, ‘As Aventuras de David Balfour’, de Robert Louis Stevenson, ‘As Aventuras de Tom Sawyer’, ‘Huckleberry Finn, de Mark Twain”.

Contadas por Dickens, Stevenson e Twain, “as histórias de meninos soltos no mundo respiram liberdade, humor, iniciativa, não se assemelhando a nada do que se encontra em literaturas de outros idiomas”, assinala Ricupero.

“A originalidade da literatura anglo-americana no tratamento da infância como a idade da aventura talvez se origine de um fato: a possibilidade que existia já então nas sociedades inglesa e americana de reproduzir tais aventuras na realidade”, anota Ricupero.

O livro de Ricupero transpira literatura, ou seja, Ricupero é um grande leitor. Mas, embora cite (com amor) Monteiro Lobato, que escreveu sabiamente para crianças, não se lembra de “Menino do Engenho”, de José Lins do Rego. O romance sobre o menino Pedrinho é uma das mais belas da história universal.

Guimarães Rosa é citado várias vezes, mas Miguilim, um dos mais extraordinários de seus personagens, não é arrolado quando Ricupero fala de personagens crianças (chega a mencioná-lo, na página 168, mas en passant). Santo de casa talvez não faça mesmo milagre.

Ricupero menciona vários escritores: Balzac, Eça de Queirós, Manuel Antônio de Almeida, Machado de Assis, Mário de Andrade. Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto (de quem foi amigo), Vinicius de Moraes (há uma história muito boa dos diplomatas), Mario Vargas Llosa, Alexander Herzen, Dostoiévski, Kafka, Thomas Mann, , Tchékhov, Giacomo Leopardi, Eugene O’Neill, Pirandello, Tolstói, Sebald, entre outros.

Na página 168, Ricupero cita o deputado federal Clarimundo Chapadeiro, que “seria mineiro ou goiano”. Era do PSD. “Parecia haver saído das páginas de ‘Grande Sertão’”, pilheria. Uma breve consulta ao Dicionário Histórico da Fundação Getúlio Vargas, na página xxxx, daria a informação precisa ao memorialista: o parlamentar, nascido em 1920, era mineiro de Jequitinhonha.