Síntese da luta: o peso-pesado brasileiro venceu o americano lutando de igual para igual, nos termos do oponente e nos seus próprios termos

Fabricio Werdum encaixa guilhotina em Cain Velásquez UFC 188 MMA (Foto: Getty Images)

O que se esperava do peso-pesado Fabrício Werdum numa luta contra o homem que devasta a terra do UFC, Cain Velásquez? O óbvio: que batesse, com os pés e as mãos, e fugisse rapidamente para evitar os golpes mortais do americano.

Em pouco tempo, com sua forma estupenda e sua luta variada, Velásquez transformaria o brasileiro num homem oco ou de palha. Era o que se esperava. Noutras palavras, Werdum, se quisesse sobreviver um ou dois rounds, teria de lutar em seus termos — bater e rezar para escapar à reação. Pois a vida sempre surpreende nossas formas tradicionais de pensar. Fabrício acabou por ser Verdun, aqui com “v” no início e “n” no final, de Velásquez, este, um belo exemplar de Diego.

O que se viu no primeiro round, na selva do octógono — onde nem o árbitro se torna pai —, foi um Velásquez tradicional, partindo para cima, como um touro furioso. Seu objetivo era preciso: levar a luta em seus termos, fazendo com que o oponente não respirasse e, sobretudo, não tivesse tempo e fôlego para impor outro jogo.

Porém, se o notável Velásquez se apresentava de maneira previsível, a caminho de um novo massacre — no estilo das duas últimas lutas contra Júnior Cigano —, o brilhante Werdum nem parecia o Fabrício de outras lutas. Werdum, discípulo tardio de Muhammad Ali, deixara de “picar” e “escapar”, cansando e desnorteando o adversário, para se tornar uma espécie de George Foreman ou, vá lá, Mike Tyson.

Surpreendente, Werdum aceitara, de cara, os termos de Velásquez — o que sugeria suicídio. Não fugiu. Boxeou, trocou chutes e deu joelhadas.

A atitude de Werdum, de não fugir à luta, aparentemente desconcertou Velásquez, que esperava uma espécie de Júnior Cigano 2, talvez apenas um pouco mais ágil e sólido no jiu-jítsu (tanto que o americano fez o impossível, nos dois primeiros rounds, para não lutar no chão).

Velásquez — perdoem-me Nelson Rodrigues e a esquadra fantasmal do politicamente correto, mas o homem se tornou um anão, digamos, de Diego — pode alegar cansaço (a tal altitude é um pretexto-álibi sempre perfeito), falta de ritmo (não lutava havia muito tempo; só treinava). Nada disso explica bem o que ocorreu no octógono — na batalha do México —, pois é preciso considerar, acima de tudo, o xadrez do adversário. Pois, como se disse acima, Werdum aceitou as regras de Velásquez, a luta franca. Por momentos, cheguei a pensar que seria nocauteado, tal a fúria do americano intranquilo e circunspecto.

Entretanto, como Werdum reagia bem, não caía, não se mostrava abalado com os golpes, alguns até contundentes, e, sobretudo, atacava com eficiência — Velásquez nunca havia ficado com o rosto tão marcado e sangrando —, a luta foi mudando de configuração. O americano venceu o primeiro round e o brasileiro, o segundo. Mas este venceu bem e aquele, mal.

Na volta para o terceiro round, o corner de Velásquez deu-lhe uma recomendação errada, porém não por tolice, e sim por perceber que na luta em pé seu homem estava em desvantagem e poderia sofrer um nocaute vexatório. Um dos orientadores de Velásquez, talvez seu treinador, deu-lhe uma senha mortal: leve a luta para o chão. Ante a resistência de Werdum em pé — parecia uma pedra ao receber os golpes; pouco se incomodando —, Velásquez, que nos dois primeiros rounds fugira do chão como o Diabo e os vampiros às vezes fogem da cruz, mudou os termos da luta, aceitando os termos do oponente.

A luta estava empatada, com ligeira vantagem para Werdum, quando os termos eram os de Velásquez. Porém, ao tentar levar a luta para o chão, nas regras de Werdum, Velásquez perdeu-se e foi brilhantemente finalizado.

Fica-se com a impressão de que, finalmente, um lutador encontrou a forma correta de bater Velásquez. Primeiro, é preciso enfrentá-lo em seus termos, buscando resistir mas, ao mesmo tempo, atacando com firmeza. Isto desconcerta e fragiliza o americano. Em seguida, com sua tática falhando — encantoar o adversário, sufocando-o, criando a ideia de que será derrotado e, portanto, é melhor ceder logo —, pode-se levá-lo a lutar em outros termos. Saindo de seu elemento, a marcação cerrada, Velásquez parece tão confuso quanto o personagem K do romance “O Processo”, do tcheco Franz Kafka.

O que se deve sugerir, por fim, é que Werdum “baleou” Velásquez nos próprios termos deste e derrotou Velásquez quando este aceitou lutar segundo suas regras.

Werdum é um lutador inteligente, mutante — como o Júlio romano e não como o César patropi — e tático formidável. Estrategista e tático, por assim dizer. O campeão peso-pesado do UFC provou que não se trata de um burocrata do octógono.

Qual será o próximo na lista de Werdum? Os comentaristas sugeriram Júnior Cigano. Mas acho que um adversário mais interessante seria Stipe Miocic. Este talvez seja o próximo adversário de Velásquez, que, para voltar a lutar contra Werdum, terá, possivelmente, de “varrer” a categoria, ou pelo menos lutar contra Miocic e Cigano.

Abaixo, leitor, um bônus, “Os homens ocos”, de T. S. Eliot, na escorreita tradução de Ivan Junqueira.

 

 

OS HOMENS OCOS

A penny for the Old Guy

(Um pêni para o Velho Guy)

T. S. Eliot

Nós somos os homens ocos

Os homens empalhados

Uns nos outros amparados

O elmo cheio de nada. Ai de nós!

Nossas vozes dessecadas,

Quando juntos sussurramos,

São quietas e inexpressas

Como o vento na relva seca

Ou pés de ratos sobre cacos

Em nossa adega evaporada

 

Fôrma sem forma, sombra sem cor

Força paralisada, gesto sem vigor;

 

Aqueles que atravessaram

De olhos retos, para o outro reino da morte

Nos recordam – se o fazem – não como violentas

Almas danadas, mas apenas

Como os homens ocos

Os homens empalhados.

 

II

 

Os olhos que temo encontrar em sonhos

No reino de sonho da morte

Estes não aparecem:

Lá, os olhos são como a lâmina

Do sol nos ossos de uma coluna

Lá, uma árvore brande os ramos

E as vozes estão no frêmito

Do vento que está cantando

Mais distantes e solenes

Que uma estrela agonizante.

 

Que eu demais não me aproxime

Do reino de sonho da morte

Que eu possa trajar ainda

Esses tácitos disfarces

Pele de rato, plumas de corvo, estacas cruzadas

E comportar-me num campo

Como o vento se comporta

Nem mais um passo

 

– Não este encontro derradeiro

No reino crepuscular

 

III

 

Esta é a terra morta

Esta é a terra do cacto

Aqui as imagens de pedra

Estão eretas, aqui recebem elas

A súplica da mão de um morto

Sob o lampejo de uma estrela agonizante.

 

E nisto consiste

O outro reino da morte:

Despertando sozinhos

À hora em que estamos

Trêmulos de ternura

Os lábios que beijariam

Rezam as pedras quebradas.

 

IV

 

Os olhos não estão aqui

Aqui os olhos não brilham

Neste vale de estrelas tíbias

Neste vale desvalido

Esta mandíbula em ruínas de nossos reinos perdidos

 

Neste último sítio de encontros

Juntos tateamos

Todos à fala esquivos

Reunidos na praia do túrgido rio

 

Sem nada ver, a não ser

Que os olhos reapareçam

Como a estrela perpétua

Rosa multifoliada

Do reino em sombras da morte

A única esperança

De homens vazios.

 

V

 

Aqui rondamos a figueira-brava

Figueira-brava figueira-brava

Aqui rondamos a figueira-brava

Às cinco em ponto da madrugada

 

Entre a ideia

E a realidade

Entre o movimento

E a ação

Tomba a Sombra

Porque Teu é o Reino

 

Entre a concepção

E a criação

Entre a emoção

E a reação

Tomba a Sombra

A vida é muito longa

 

Entre o desejo

E o espasmo

Entre a potência

E a existência

Entre a essência

E a descendência

Tomba a Sombra

Porque Teu é o Reino

Porque Teu é

A vida é

Porque Teu é o

 

Assim expira o mundo

Assim expira o mundo

Assim expira o mundo

Não com uma explosão, mas com um suspiro.

(tradução: Ivan Junqueira)

.