Euler de França Belém
Euler de França Belém

O deus do riso não é Deus nem Maomé. É o próprio humor, que só funciona se não puder ser contido

O humor do “Charlie” e o humor do brasileiro Chico Caruso: ninguém, nem mesmo políticas totalitárias, pode conter os artífices do riso

O humor do “Charlie” e o humor do brasileiro Chico Caruso: ninguém, nem mesmo políticas totalitárias, pode conter os artífices do riso

Não existe humor reverente. Quando a favor aproxima-se da publicidade e, portanto, deixa de ser humor. Portanto, quem não aprecia a vida apresentada de modo escrachado e transgressor — arrancando-nos do lugar comum para exibir o inusitado, aquilo que provoca o riso e, às vezes, irrita — deve passar ao largo. O humor de verdade é quase sempre ofensivo e contundente — daí incomodar tanto e não há como enfrentá-lo, exceto com graça ou, como no caso dos inimigos dos criadores do “Charlie Hebdo”, com violência, sobretudo física.

O humor não funciona quando é ideológico, e incomoda tanto a direita quanto a esquerda e o centro político. O humor agrada porque é criado para desagradar. Sua função, se há uma, não é mudar o mundo ou fazer as pessoas mudarem de posição, mas sim fazer rir — riso solto ou contido — todos, desde que não fanáticos. Acredito que até fanáticos, num momento relax, riem do humor corrosivo. Porém, na presença de outros fanáticos, atacam as charges e seus criadores com, digamos, volúpia. Excesso de violência — de ódio por alguma coisa ou alguém — é paixão recalcada.

Para o humorista, chargista ou não, deus não é o dos árabes, Maomé, ou o dos cristãos, Deus. É o humor. Por isso não se deve, para não perder tempo, cobrar limites dos humoristas, categoria à qual pertencem os chargistas. Imaginem os escritores Oscar Wilde, Bernard Shaw, H. L. Mencken e Nelson Rodrigues “contidos”, sem poder escrever seus fabulosos textos e frases politicamente incorretos. Bem, se fosse possível “segurá-los”, no seu tempo, os leitores atuais certamente não estariam citando o quarteto. O terreno da arte e do humor é o da liberdade total, ainda que isto, em tese, seja uma quimera. O humor, de tão radical e libertário — infenso a qualquer controle —, está a um passo da “ilegalidade”.

Na última edição do “Charlie”, Maomé aparece na capa com um cartaz com os dizeres “Je Suis Charlie” (“Eu Sou Charlie”), com uma lágrima nada furtiva saltando, como se, digamos, fosse a culpada do assassinato de dez chargistas e jornalistas e dois policiais, em Paris. Chico Caruso deu uma sugestão para “os colegas do ‘Charlie’”: uma charge na qual, acima da caricatura de Maomé, está escrito: “Este não é Maomé”. Abaixo, “isto não é um desenho de humor!”

(Não deixa de ser comovente a fila quilométrica para comprar o “Charlie Hebdo” pós-tragédia. As pessoas querem, antes de tudo, um souvenir. Fico a pensar: a revista “Realidade” que saiu com Fidel Castro na capa, em 1959, deve ter vendido acima da média, quem sabe com filas nas bancas. Quantos, 56 anos depois, guardam seu exemplar? Poucos, certamente. Meu exemplar, herança do meu pai, Raul Belém, resiste bravamente numa gaveta, ao lado da “Veja” número 1.)

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Adalberto De Queiroz

O terreno da arte e do humor é o da liberdade total, ainda que isto, em tese, seja uma quimera. O humor, de tão radical e libertário — infenso a qualquer controle —, está a um passo da “ilegalidade” – essa a legenda. Cabe aqui lembrar Henri Bergson: “É preciso que haja na causa da comicidade algo de ligeiramente atentatório (e de ‘especificamente’ atentatório) à vida social, pois a sociedade responde com um gesto que tem todo o jeito de reação defensiva, com um gesto que provoca certo medo. Foi tudo isso que eu quis explicar”. Página final de “O… Leia mais

Ibanez

“Sua função, se há uma, não é mudar o mundo ou fazer as pessoas mudarem de posição, mas sim fazer rir — riso solto ou contido — todos, desde que não fanáticos” Concordo apenas se for acrescentado que pode-se rir também de quem é rico, tem sucesso, nasceu em “berço de ouro”, ou seja, de quem não é atacado o tempo todo, exemplo, piada de português, então piada de brasileiro, piada de negro, então piada de branco, piada de religioso, piada de não religioso… Se não puder ser acrescentado a função, ao meu ver, é a de mudar o mundo… Leia mais