Euler de França Belém
Euler de França Belém

“O delegado Fleury foi, em última instância, o assassino do frei Tito”, diz psiquiatra francês

Frei Tito, numa fotografia de 1966: o religioso foi destruído pela tortura perpetrada pela equipe de policiais do delegado Sérgio Paranhos Fleury | Fotos: Reprodução

Frei Tito, numa fotografia de 1966: o religioso foi destruído pela tortura perpetrada pela equipe de policiais do delegado Sérgio Paranhos Fleury | Fotos: Reprodução

No livro “Um Homem Tor­turado — Nos Passos de Frei Tito de Alencar” (Civilização Brasileira, 418 páginas), as jornalistas Leneide Duarte-Plon e Clarisse Meireles entrevistaram o psiquiatra francês que tentou mas não conseguiu tratar o frade dominicano.

Jean-Claude Rolland recebeu o frei Tito no Hospital Édouard Herriot, de Lyon, em 1973. Na época, aos 35 anos, além de atuar como psiquiatra, fazia uma formação na Associação Psicanalítica da França (APF). Hoje, tendo abandonado a psiquiatria, atua como psicanalista.

O dr. Rolland admite que o frei Tito “foi um marco” na sua vida profissional. “Desde que tratou do dominicano, o médico não parou de escrever e testemunhar sobre as consequências da tortura no psiquismo do jovem paciente”, relatam Leneide Duarte-Plon e Clarisse Meireles. Às entrevistadoras, ele disse que, “ao refletir sobre a tortura, descobriu que existe na humanidade uma imensa capacidade de destruir o outro, ainda que profundamente reprimida”. “A tortura se desenvolve em bases que já existem. Há, no fundo de nós mesmos, muito recalcada, uma capacidade de destruir o outro, e o torturador apenas ativa essa capacidade de destruição”, afirma o psiquiatra-psicanalista.

Ao se aproximar de Tito, ao tentar entendê-lo, em busca do tratamento adequado, o dr. Rol­land percebeu que não conseguiam se comunicar. Havia aquilo que chama de “sofrimento tão incomunicável”. “Quando compreendemos, os frades e eu, que Tito tinha vivido coisas atrozes e que nos tinha escapado pelo suicídio, disse a mim mesmo que era preciso testemunhar o que ele viveu. E comecei a fazer pesquisas”, afirma o médico.

No tratamento psiquiátrico, ou na abordagem psicanalítica, é preciso notar o que é específico do indivíduo. Quando o frei Tito chegou ao serviço de emergência da unidade de psiquiatria do hospital, o dr. Rolland disse que poderia, de imediato, “ter qualificado seu estado” como “delirante, pois pensava que Fleury estava lá, ouvia vozes”. Porém, observando mais atentamente, o médico diz ter percebido que “eram vozes que ele tinha realmente ouvido, de torturadores e torturados”. Não era delírio nem fantasia.

Em vez de delírio, a fala entrecortada do frei Tito era uma espécie de “sintoma-testemunho”. Era “a única forma possível de contar a tortura, de testemunhar a barbárie de que fora vítima”, anotam as jornalistas. “Ele dramatizava para exprimir com o corpo algo que estava além das palavras e da consciência”, diz Rolland. Tito levara os torturadores para a França — “dentro de si”.

Jean-Claude Rolland, psiquiatra e psicanalista francês que tentou tratar o dominicano Tito, mas admite que  fracassou, pois o paciente esperava  que a “cura” viesse de Deus

Jean-Claude Rolland, psiquiatra e psicanalista francês que tentou tratar o dominicano Tito, mas admite que fracassou, pois o paciente esperava que a “cura” viesse de Deus

O francês Xavier Plassat, religioso amigo de Tito, sugere que a queda de Salvador Allende, no Chile, em 1973, acelerou a crise do religioso brasileiro. Mas Rolland ressalva que as alucinações do frei não tinham a ver com a queda do presidente chileno. “Tito já estava destruído, sofria os efeitos da tortura. Ele já devia estar destruído em Paris, inclusive porque não pôde utilizar os recursos terapêuticos que lhe foram propostos. Penso que desmoronou quando foi escolhido para ser trocado pelo embaixador, como se a prisão o protegesse contra uma espécie de desejo de morrer. Como se não tivesse direito de ser livre. Há em alguns pacientes uma culpa ou uma vergonha tão grandes que eles não podem se curar, como se não tivessem o direito de viver. Só podem viver de maneira reduzida, estreita, atormentada”, afirma o psiquiatra.

Ao torturar Tito, o delegado Sérgio Fleury sempre dizia que o frei havia traído seus companheiros. “Ele [Tito] tinha vergonha e se sentia um traidor. Parecia consumido pela vergonha. Mas não se pode pedir a um torturado que não confesse, tudo é feito para levá-lo a falar. Em nossas sessões ele era silencioso, cheguei a me perguntar depois se sabia falar bem francês. O que eu escutava era o que seu silêncio continha de sofrimento e de recordações. Foi, sem dúvida, a experiência mais violenta que tive em toda minha prática psiquiátrica”, assinala Rolland. Tito se expressava bem em francês, ainda que com sotaque. Mas, nas consultas, um frade falava por ele, explicando sua história e o que fazia no dia a dia.

No seminário francês, o frei Tito vivia calado, mas preocupado, acreditando que Sérgio Fleury estava torturando sua família no Brasil.

Há torturadores que querem informações, mas há torturadores, como Sérgio Fleury, que, além das informações, querem destruir seus oponentes. No caso do frei Tito, o delegado conseguiu. “Pode-se dizer que ele foi quebrado porque tinha um ponto de fraqueza. Mas todos os homens têm um ponto de fraqueza. Há algo na perversidade da tortura que leva o torturador a procurar no outro exatamente o que ele percebe que não vai resistir. Eles visaram à sinceridade do seu sacerdócio, foi aí que ele foi terrivelmente posto à prova, perseguido, acuado. E desmoronou”, anota Rolland.

Os torturadores perceberam que, ao massacrá-lo e ao “dialogar” com ele, poderiam “demolir sua autoestima”. Por isso insistiam que ele era “traidor”. Insinuavam que era homossexual (as autoras discutem a questão, mas não apresentam uma conclusão). Para Rolland, “a violência da brutalidade extrema, desumana, da prática da tortura traz com ela a abolição de toda semelhança entre os carrasco e a vítima, elimina a língua comum. A instrumentalização das palavras e da linguagem que, no uso do insulto, por exemplo, se reduzem a ‘atos’ destinados a ferir a pessoa e a desvalorizá-la, exclui a vítima de sua própria língua”.

O silêncio de Tito é interpretado por Rolland como “a arrogância dos mártires”. “Era um homem que tinha um ideal importante, grandioso. Em seu profundo sofrimento, lembrava São Francisco de Assis ou Cristo. Ele tinha se identificado com Cristo, era impressionante. Parecia completamente destruído, mas ao mesmo tempo sentíamos que a última coisa que o sustentava era a ideia de que era um mártir. Ele tinha aquela superioridade dos mártires, a arrogância dos mártires.”

O psiquiatra não conseguiu “acessar” Tito, porque este “esperava que a cura viria de Deus, não dos homens”. “A tortura”, afirma Rolland, “tinha esvaziado Tito, retirado dele qualquer possibilidade de relacionamento”.

O psiquiatra-psicanalista admite que o suicídio de um paciente “é uma derrota”. Assim, para Rolland, “o tratamento de Tito foi ‘enriquecedor e deprimente’”. “Fiquei realmente chocado, ele escapou a todos nós. Mesmo sabendo que fugia e se esquivava o tempo todo, foi um choque. Tito não estava mais presente. Mas suicidar-se… Ele realmente nos escapou. Mas talvez a ideia de se suicidar lhe veio no momento de sua libertação.”

É possível que Tito seja visto como tendo uma espécie de loucura. Mas o psiquiatra-psicanalista Rolland discorda: “Hoje, penso que a loucura está no torturador. É preciso ver a tortura como uma loucura. Alguns militares que torturaram na Argélia ficaram loucos. Só se pode fazer isso exercendo uma distorção mental muito grande. Albernaz, um dos torturadores de Tito, lhe disse: ‘Quando venho para a Operação Ban­deirantes, deixo meu coração em casa’. Isso mostra que são realmente seres divididos, como se houvesse uma cisão”.

Por que, exatamente, o religioso se matou? Rolland apresenta uma explicação: “O suicídio de frei Tito teria sido consequência das sevícias que ele suportou na prisão, da tortura, das desordens psíquicas que se seguiram e, finalmente, do exílio forçado num país estrangeiro. Tudo isso que se pode resumir na perda de todo o controle sobre seu destino e de esperança no gênero humano. O suicídio é um ato de desespero, cego. Por isso, deve-se evitar explicá-lo: no momento do ato, significa o bloqueio das funções intelectuais, tanto no autor do ato quanto nos que o cercam. Porque o suicídio não é nunca o ato solitário que pensamos, inscreve-se num contexto de relações no qual o outro é ao mesmo tempo interpelado e repudiado”.

Tito, frisa Rolland, “vivia como um exilado do mundo que, para ele, era habitado pela sombra dos torturadores. Os vivos que o cercavam eram representantes dos carrascos, particularmente Fleury. (…) Estava claro que nós, que o tratávamos, éramos identificados com seus torturadores. (…) Ele tinha a impressão de que ia ser morto de um momento para outro. Foi o que deve ter sentido durante sua prisão e tortura. Vivia como um condenado à morte, e o suicídio se inscreve nesta lógica: matar-se em vez de ser morto. Esse é o sentido de sua primeira tentativa de suicídio na prisão. Pode-se dizer que, com esse gesto, ele se identificou com seus agressores. Assim, é legítimo afirmar que o delegado Fleury foi, em última instância, autor de um assassinato”.

O que queria Sérgio Fleury, ao insistir na tortura ao frei Tito, que, a rigor, nada mais tinha a dizer que contribuísse para desmantelar a guerrilha armada? O delegado “queria destruir nele o que não lhe é semelhante”, analisa Rolland. “O que quer Fleury de Tito quando pela tortura quer apagar toda diferença entre eles? Seu desaparecimento como ser”, sublinha o psiquiatra-psicanalista.

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