O coronavírus na Espanha, as cidades europeias e o turismo de massa

Talvez com um pouco de imaginação se possa recuperar um pouco a sensação de como eram Veneza e Roma antes das grandes multidões da indústria do turismo

Halley Margon Jr.

Especial para o Jornal Opção, de Barcelona

Dia 13 de março, havia aqui na Espanha um total de 90 mortes para 4 mil infectados com o coronavírus. Significa dizer que o número de mortos correspondia naquele momento a 2,25% do total de infectados. Dois dias depois, em 15 de março, os infectados tinham dobrado e o de mortos subido para 300, com a percentagem ficando em 3,75%. Mais dois dias, 17 de março, por volta de duas da tarde, os infectados eram 11 mil e os mortos 491 (4,46%).

Resumo da evolução em quatro dias: crescimento dos contaminados de 4 mil para 11 mil pessoas e dos mortos de 90 (2,25% do total de infectados) para 491 (4,46% do total de infectados).

Convenhamos, nada animador. Ainda mais se considerarmos que, no final da tarde de sábado, o governo já fazia saber que tomaria medidas duras para conter a expansão da pandemia – às quais a população de maneira geral aderiu sem pestanejar, mesmo antes da publicação do decreto. No domingo, 15, sobretudo em Madrid, houve, aqui e ali, uma ou outra pequena aglomeração em parques ou praças públicas, mas foram exceções.

Imediatamente, ainda incrédulos, começamos a olhar atentamente para as ruas para confirmar. Aos poucos elas foram se tornando nitidamente mais esvaziadas. Na noite de sábado, 14, de repente nos damos conta que do lado de fora estão todos aplaudindo e gritando. Quando chegamos à janela e a abrimos vimos nas janelas dos prédios vizinhos as pessoas aplaudindo entusiasticamente, como se houvesse uma comemoração. Os aplausos estavam acontecendo por todo o país e eram dirigidos aos trabalhadores da área da saúde e havia sido previamente combinado pela internet. No domingo voltou a se repetir, ainda maior.

Agora são seis da tarde, um dia de semana normal. Moro no entroncamento de duas ruas de muito movimento perto do anel viário da cidade. A essa hora esse cruzamento deveria estar cheio de carros — dificilmente vemos engarrafamentos em Barcelona e quando se pensa em engarrafamento aqui é algo muito distante daquilo que se considera engarrafamento numa cidade de mais ou menos 1,5 milhões de habitantes no Brasil (Barcelona tem, segundo o Instituto de Estatística da Catalunha, 1.636.000 de habitantes). Nas proximidades há dois ou três grandes colégios, além de um variado comércio, mercados etc. Fui até a janela do quarto e durante cinco minutos cronometrados marquei o que vi.

Não mais que duas dezenas de carros passaram pelo cruzamento. No minimercado que fica em frente ao edifício onde moro, normalmente cheio, não entrou nem saiu um único cliente. Durante esses cinco minutos, apenas o motorista de um caminhão que descarregou algumas mercadorias e depois se foi. Atravessando a avenida transversal, há outro mercado, um pouco maior, inclui açougue, lanchonete etc. Tampouco ali entrou ou saiu um único cliente. Pelo cruzamento das duas vias, pelo qual à esta hora estariam passando centenas de pessoas durantes esses cinco minutos cronometrados, passaram, no total, sete pessoas.

“Profissão: Repórter”, filme de Antonioni

Uma das cenas do filme “Profissão: Repórter” (de 1975), do diretor italiano Michelangelo Antonioni (1912-2007), se passa numa das grandes atrações turísticas de Barcelona, a Casa Milá ou La Pedrera (esquina de Passeig de Gracia com Calle Provenza), um dos projetos do arquiteto catalão Antoni Gaudí (1852-1926). Se você vem a Barcelona e quer visitar esse como qualquer outro dos projetos de Gaudí tem que comprar ingresso com antecedência e provavelmente enfrentar fila — pode ser que dê sorte, mas em geral é assim. Para não falar da Sagrada Família, por que aí não tem jeito, é fila na certa. Mas vale a pena. Pois bem, voltemos ao filme do Antonioni, com Jack Nicholson e Maria Schneider.

Parte do filme é feito em Barcelona, nas ruas ou dentro de alguns dos edifícios da cidade. Uma delas, justamente, é filmada no teto da Casa Milá. Não há montagem, não há armação. Antonioni simplesmente foi lá com sua câmera e uma mínima equipe de filmagem e fez as tomadas que lhe interessava fazer. A câmera acompanha a bela atriz francesa Maria Schneider (de “O Último Tango em Paris”) caminhando por entre varais de roupas estendidas para secar. É isso e isso era, então, a mais pura realidade da Casa Milá. Isso foi em 1975.

Quem vê hoje os milhares de turistas lá embaixo à espera para subir e ver lá de cima, daquele mesmo teto encantado de Gaudí, as pessoas caminhando no entorno das chiquérrimas boutiques do Passeig de Gracia custa a acreditar.

No final do ano passado eu recém havia retomado um antigo projeto de pesquisa para um novo livro no qual um dos textos se referia à ocupação das grandes, médias e pequenas cidades europeias pelas multidões de consumidores ávidos por atrações turísticas (apenas um item a mais no vasto repertório de consumo que nos é ofertado todos os dias pelos produtores de mercadorias). Por isso estava à cata desses filmes que mostravam cidades como Barcelona ou Veneza.

Curiosamente, no mesmo ano no qual Antonioni fez “Profissão: Repórter”, Nicolas Roeg filmou “Inverno de Sangue em Veneza” (com Donald Sutherland e Julie Christie). Pelos parâmetros atuais, qualquer um custa a crer na quantidade de tomadas externas feitas nos canais da cidade nas quais não aparece viva alma — muito adequadamente, parece até uma cidade fantasma. Bom, gente se vê, mas gente da cidade, moradores, em número normal, caminhando nas ruas, cruzando as praças ou pontos que atravessam os canais, de dia ou de noite. É absolutamente espantoso. Só lembrando, foi feito há 45 anos.

De modo que, uma das consequências do vírus que nos chegou da China foi a possibilidade dessa volta ao passado. Porque se formos hoje ao centro de Barcelona, Veneza, Roma, Florença ou Paris, só para citar umas poucas, talvez e com  um pouco de imaginação possamos recuperar um tiquinho da sensação de como eram essas cidades antes que as grandes multidões da indústria do turismo de massa as tomassem de assalto — e contra essas (nós mesmos) não haverá vacina. Infelizmente, não podemos ir. Pelo menos aqui em Barcelona agora está proibido. Estamos todos em quarentena, sem poder sair de casa, muito menos para vagabundear pelo centro da cidade.

Halley Margon Jr. é escritor e mora em Barcelona.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.