Euler de França Belém
Euler de França Belém

Ó capitão! Meu capitão

Uma homenagem de Walt Whitman para Robin Williams, um dos atores mais intensos de Hollywood

williams

Ó Capitão! Meu capitão!

Walt Whitman

Ó Capitão! Meu capitão! Nossa terrível viagem se cumpriu,
O Navio cruzou tormentas, é nosso o prêmio pio,
O porto vê-se ao perto — os sinos dobram, o povo espera,
Olhos que à quilha firme tornam, desta nave forte e fera;
Mas Ó coração, coração!
Ó gotas de vermelho brio,
No convés em que ele dorme,
Deitado morto e frio.

Ó Capitão! Meu Capitão! Te levanta, escuta os sinos,
A ti se desfraldam bandeiras — a ti se dirigem os hinos,
Vê quantas flores e coroas, tantos atavios cobrindo a costa,
Vê a multidão que clama — comovida massa, a dor à mostra;
Eis a mão de quem te ergue!
Aqui, capitão! Aqui, pai gentil!
— Ah! O sonho se desfaz no deque,
Onde quedas morto e frio.

Meu Capitão já não responde, a boca sem vigor e viço,
Meu Capitão já não se move, cessa o pulso, o corpo rijo,
Sã e salva a nave ancora — o périplo se encerra e tudo finda,
Da viagem vil a nau retorna — o grande prêmio, a glória vinda;
Ó clamor das praias, Ó dobrar dos sinos!
Só me restar andar sombrio,
No convés em que ele dorme,
Deitado morto e frio.

[Tradução de Bruno Gambarotto]

O crítico literário Marcelo Franco relata que o ator Robin Williams, que morreu na segunda-feira, 11, aos 63 anos, declamou o poema “Ó capitão! Meu capitão!”, de “Lembranças do Presidente Lincoln”, do livro “Folhas de Relva”, do maior poeta americano, Walt Whitman (ao lado de Emily Dickinson). No belo, delicioso e doloroso filme “Sociedade dos Poetas Mortos”, Robin Williams consegue aquela proeza raríssima e complicada: não é lacrimoso, nem piegas, nem professoral-didático.

A ótima tradução, publicada a seguir, é da lavra de Bruno Gambarotto e está em “Folhas de Relva” (Hedra, 444 páginas; é a “edição do leito de morte”, com organização e tradução de Bruno Gambarotto). Franco acrescenta que o Capitão é Abraham Lincoln, o presidente norte-americano que, depois de abolir a escravatura e reunificar o Sul e o Norte dos Estados Unidos, foi assassinado num teatro, em 1865. O poema é, no dizer acertado de Franco, “um dos grandes momentos da literatura universal. Whitman é uma espécie de antecedente de Fernando Pessoa. O português talvez não existisse se não tivesse lido o norte-americano”. Poderia ter citado outro autor que deve muito a Whitman como prosador e, sobretudo, poeta — D. H. Lawrence. O crítico literário Harold Bloom relaciona vários poetas que devem muito, quase tudo, a Whitman.

Mesmo nos papéis menos qualificados, Robin Williams era um ator intenso, vibrante. Os personagens como quê se encaixavam na sua persona e, com um pouco dele e dos personagens, se transformavam. Um bom ator é como um bom escritor: se foi grande algum dia, se deixou uma obra de rara excelência, pecadilhos eventuais, coisas feitas para garantir a sobrevivência ou meramente para entreter (cinema, antes de ser arte, é entretenimento — até porque a maioria das pessoas não se interessa por arte, seja sofisticada ou popular), não comprometem sua trajetória, aquilo que é básico. Portanto, se há um lugar para Robin Williams na história do cinema é ao lado de James Dean, Marlon Branco, Paul Newman, Al Pacino, Robert de Niro. Não era bonito, ao contrário dos três primeiros, mas era um ator denso, inspirador.

De resto, o que define um homem, ator ou não (no fundo, somos todos atores), não é a morte, e sim a vida. Depois que a sociedade do espetáculo “conformar-se” com a morte de Robin Williams — suicídio sempre atrai as pessoas, dada a possibilidade de se extinguir antecipando-se ao destino sombrio a nós reservado pela Velha Senhora —, que a polícia e os médicos tirarem as mãos de seu corpo, podemos, enfim, “acolher” (e rever) livremente o que deixa de melhor, seus filmes, que às vezes não eram “seus”, mas nos quais deixou sua marca, não raro pequena…

Uma resposta para “Ó capitão! Meu capitão”

  1. Avatar Celso disse:

    Que todos nós subamos em nossas carteiras em homenagem ao capitão Robin Williams.

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